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Novo GP de Las Vegas, uma aposta de risco

Por: Sérgio Magalhães | Categoria: Esporte | 19-11-2023 06:23 | 968
Las Vegas está sendo 99% de show e 1% de evento esportivo nas palavras de Max Verstappen
Las Vegas está sendo 99% de show e 1% de evento esportivo nas palavras de Max Verstappen Foto: F1 / Divulgação

Muito se falou e espera da volta do “novo” GP de Las Vegas, corrida cercada de grande expectativa e uma aposta bilionária da F1 em torná-lo num megaevento cercado de pessoas famosas, pompas e luzes. Mas no passado também se planejou assim e deu tudo errado.

Em 1981 a F1 desembarcou pela primeira vez no Estado de Nevada com o objetivo de fazer um Grande Prêmio atraente para apostadores milionários e estrelas esbanjando charme, brilho e glamour. O local escolhido para montar uma pistinha chinfrim foi o estacionamento do famoso e não menos luxuoso Hotel Caesars Palace, que entre cassinos e outros entretenimentos, movimentava fortunas com as lutas de boxes. A F1 vislumbrou atrair essas pessoas para a corrida, mas nada deu certo.

Um relato da época, do campeão de 1978, Mario Andretti, dava o tom do que seria o GP de Las Vegas: “Achávamos que seria emocionante e estávamos ansiosos, mas logo vimos que aquela corrida não teria vida longa naquele local por ser uma pista muito estreita”.

De fato, as duas edições do GP de Las Vegas acabaram sendo um fracasso. Na primeira, restou a lembrança de ver Nelson Piquet conquistar o primeiro de seus três títulos mundiais. Mas não tinha mesmo como dar certo uma pista de 3,5 km  improvisada em estacionamento de hotel e num território onde ninguém estava nem aí para a F1. Os pilotos se hospedaram no Caesars Palace e iam tomar café vestidos de macacão, mas ninguém os conhecia. E a corrida sucumbiu ao calendário da F1 no ano seguinte.

A história agora é diferente, muito mais planejada, com investimentos bilionários da própria F1 focada em fincar sua bandeira onde não teve sucesso no passado. A F1 que sempre arrecada milhões de dólares dos promotores de cada corrida, é quem está bancando a prova de Las Vegas, assumindo os próprios riscos. Mas o foco fora da pista não mudou muita coisa: fazer do Grande Prêmio um show business, badalado e luxuoso, o que também gerou muitas críticas dos locais pelos transtornos causados com as obras que foram feitas no centro da cidade para a construção dos boxes e montagem da pista de rua com 6.201 metros de extensão. A estimativa da F1 é para um público de 100 mil pessoas por dia durante as atividades de pista na cidade conhecida como a “capital do pecado”, número muito além dos cerca de 25.000 que perambularam por lá 41 anos atrás, mas há relatos de baixa demanda por ingressos do que o esperado, tanto que hotéis luxuosos reduziram o valor da diária no período da corrida para atrair mais pessoas, e os ingressos tiveram redução significativa de valores nas últimas semanas.

A programação do GP ganhou horários bizarros, mas Las Vegas é famosa por sua vida noturna. Lá tudo gira em torno da noite com suas luzes e painéis luminosos coloridos. A corrida terá largada neste sábado às 22 horas pelo horário local (3h da madrugada de sábado para domingo pelo horário de Brasília). O treino livre da quinta-feira começou às 20h30 locais. A classificação de ontem (hoje para eles) teve início à meia noite local (5h desta manhã aqui). Nunca uma corrida de F1 teve a largada tão tarde da noite.

A F1 sempre estabelece seus horários de acordo com o maior interesse dos fãs. E como a vida noturna de Las Vegas é intensa, acabou tendo influência na hora de determinar o dia e horário da prova: sábado à noite! Por outro lado, na maioria dos países europeus, serão 7h da manhã do domingo, o que ficou de bom tamanho para os dirigentes da F1. Não tanto para nós já que teremos que assistir à corrida no meio da madrugada.

Mas nem tudo está sendo visto com bons olhos, pelo menos para Max Verstappen que disse na quarta-feira “me senti um palhaço durante a cerimônia de apresentação dos pilotos. Por mim, poderiam pular essas coisas já que são 99% de show e 1% de evento esportivo”.

Resta agora saber se desta vez o GP de Las Vegas veio pra ficar, ou se será mais um tiro no pé da própria F1. No primeiro round, um vexame: problema estrutural numa tampa de bueiro causou enorme transtorno durante os treinos livres. Lição para a F1 que queria fazer de seu GP um exemplo de organização para o resto do mundo.

Pelo menos restou a boa notícia que preocupava pilotos e engenheiros com as primeiras previsões que apontavam temperaturas abaixo dos 5ºC durante a corrida. Elas devem variar entre os 10 ou 11ºC, menos mal para uma pista de longas retas e curvas que causam pouco stress nos pneus, tornando difícil mantê-los em temperatura ideal de funcionamento.