CRÔNICA HISTÓRICA DE SÃO SEBASTIÃO DO PARAÍSO:

O paraisense que lutou em duas revoluções

Por: Luiz Carlos Pais | Categoria: Cidades | 08-11-2017 15:11 | 1678
Foto de Reprodução

Natural de São Sebastião do Paraíso, Sudoeste Mineiro, Ezequiel Sotero de Castro nasceu em 1893, descendentes de ex-escravos que, após a abolição, permaneceram trabalhando em fazendas de café do município. Sua incrível trajetória de vida se entrelaça com a história dos movimentos armados tenentistas, iniciados na década de 1920. Desde os tempos de juventude, ele sonhava em conhecer outras cidades, correr o mundo, além dos horizontes da terra natal. Ao atingir a maioridade civil revolveu ganhar a vida na capital paulista, onde ingressou como soldado na Força Pública do Estado de São Paulo. 
Logo no início de sua carreira como policial, foi levado a participar do movimento revolucionário de 1924, comandado pelo general insurgente Isidoro Dias Lopes, com apoio do marechal reformado Odílio Bacelar. Passados os momentos mais difíceis do combate, após o levante ter sido derrotado pelas forças oficiais, Ezequiel perdeu o posto policial e retornou, rápido, sem fazer muito alarde, para o município de São Sebastião do Paraíso, onde conseguiu emprego em uma fazenda, morando em companhia de sua mãe.
Anos depois, já no contexto da Revolução Constitucionalista de 1932, Ezequiel voltou a inquietar-se com as notícias de uma possível guerra do Estado de São Paulo contra o governo de Getúlio Vargas. Foi então que apareceu em sua casa um tal Capitão Sacramento, que o convidou para se alistar novamente na luta aramada. Havia a promessa do apoio das forças de Minas Gerais que lutariam ao lado de São Paulo. Ele aceitou o convite e foi contemplado com a patente de 3º sargento, sendo escalado para lutar na região paulista de Pedreiras, próximo à Campinas.
Nessa época já apresentava alguns problemas de visão, mas mesmo assim foi convencido a ingressar nas forças revolucionárias, pois sua experiência seria de grande importância. Ao iniciar os combates, Ezequiel foi gravemente ferido na perna esquerda, com fratura causada por um tiro de fuzil. Foi socorrido pelos seus companheiros, que o levaram para um hospital de Guaxupé (MG).
Após receber tratamento médico, foi liberado para seguir viagem, indo morar na casa de seus familiares em São Sebastião do Paraíso. Mas o ferimento não estava totalmente curado. Havia ainda fragmentos de munição dentro do corpo, causando complicações que levaram à amputação da perna esquerda. 
Anos depois, fazendo uso de muletas viajou à capital federal, cidade do Rio de Janeiro, para requerer ajuda, junto aos órgãos do Governo Federal. O arrojado revolucionário conseguiu protocolar um pedido de análise do seu caso. Sem recursos financeiros, passou a residir em um albergue para pessoas carentes, quando procurou a imprensa para expor o seu pleito. Queria uma ajuda para, pelo menos, custear a colocação de uma perna mecânica. Sem nada conseguir, retornou para sua terra natal, quando contava com 42 anos de idade. Sua história ficou registrada em reportagem publicada no jornal A Manhã, do Rio de Janeiro, edição de setembro de 1935.