ELA PÓR ELA

Denise Gonzaga: a leveza de uma artista que sabe transmitir paz com a voz

Por: João Oliveira | Categoria: Entretenimento | 18-12-2017 08:12 | 11896
A cantora Denise Gonzaga Dias é de aura acolhedora e presença marcante
A cantora Denise Gonzaga Dias é de aura acolhedora e presença marcante Foto de Reprodução

A cantora Denise Gonzaga Dias é de aura acolhedora e presença marcante. Quem já esteve com ela, sabe a paz de espírito e a tranquilidade que ela carrega, transmite e reflete através da sua música. Natural de Belo Horizonte, mas criada em Divinópolis, começou a cantar ainda muito jovem na Igreja, aos oito anos e, apesar de ter tentado outros caminhos, foi na música que ela viu a sua verdadeira vocação. Filha de Duarte Antônio Dias e Nilda Gonzaga Lopes Dias, que faleceu em 2016 após uma longa luta, nunca se deixou abalar diante das adversidades da vida. Durante sua caminhada, Denise conheceu São Sebastião do Paraíso, terra que conforme diz, a acolheu e é muito agradecida. É com muito carinho e alegria que Denise fala um pouco da sua vida e da sua trajetória.



 



Jornal do Sudoeste: Qual é o segredo para se manter tão jovial?
Denise Gonzaga: (risos) A música e ser leve. Com 47 anos eu descobri que ser feliz nem sempre dá, saúde nem sempre a gente tem, mas a paz nós podemos querer sempre. Eu descobri com experiências da vida, inclusive um processo que minha mãe passou, doente durante 25 anos, que eu descobri a leveza. Eu posso estar triste, mas eu posso aceitar o meu estado e ser leve. Não é aceitar de uma forma inerte, mas de uma forma ativa. Isso é um exercício diário. Toda vez que você luta contra, você sofre. O que é, é o que é; o que está, é o que está.



 



Jornal do Sudoeste: Como foi esse processo com a sua mãe?
Denise Gonzaga: Minha mãe teve esclerose múltipla. Foi uma mulher muito alegre e eu costumava dizer o quanto ela foi sábia, e falava inclusive para ela. Eu tive muita oportunidade de agradecê-la verbalmente, por tudo o que ela fez por mim e dizer para ela “mãe, por dinheiro nenhum no mundo, eu troco o que a senhora me deu”, que foi me ensinar tudo o que eu sei fazer hoje, desde cedo. Com sete anos eu já arrumava a casa, com dez e onze anos já cozinhava, costurava aos quatorze. Eu achava que minha mãe tinha sido sábia por me ensinar tudo, mas quando ela se foi no ano passado, dei-me conta de que quando ela adoeceu, começou a me ensinar o mais bonito que é a arte de saber viver diante dos obstáculos. Mamãe, no meu último olhar para ela, não conseguiu me passar alegria, porque o sofrimento ali estava demais, mas até no meu penúltimo olhar para ela, ela ainda me ajudava. Ela tinha esse astral.



 



Jornal do Sudoeste: Isso é muito bonito. Estar triste não ajudaria...
Denise Gonzaga: Eu não daria conta de ser assim, mas também não julgo quem é triste diante de uma doença, isso é o natural. Eu não sei como ela conseguiu. Claro que ela tinha seus momentos de tristeza e presenciei alguns momentos dela se emocionando. Mas era guerreira e queria viver. Por isso, não julgo quem não consegue ser da mesma maneira; essa vida, esse plano, é uma escola. Às vezes a gente se depara com cobranças, nossas mesmas, no outro, da sociedade, do que tem, do que se usa, de postura, de personas, de que você tem que ser assim, dar conta... então, acho que esse contexto e essa aceleração de como as coisas caminharam em termos de comunicação, não sei se o ser humano está dando conta disto, porque não está tendo tempo de parar para sentir a alma, sentir o ser, para poder conversar. Esse processo da minha mãe me ensinou muito, o sofrimento amadurece, não tenha dúvida disto.



 



Jornal do Sudoeste: Tem que haver essa percepção...
Denise Gonzaga: Se eu pudesse estar aqui hoje reunida com as pessoas do último ano da mamãe, a Isabel é uma delas, conversando sobre coisas corriqueiras, em hora nenhuma te apontaríamos a tristeza. E esse foi o último ano com a minha mãe. Eu falo sobre isso para dizer que se existe uma situação eu tenho que enfrentar, seja desemprego, seja ela doença, seja o que for. Eu posso tentar fazer diferente, a dor eu respeito, ela está ali, é fato, mas se eu conseguir fazer isso ficar mais leve... a saudade existe, eu queria ter minha mãe comigo, mas lembrar dela não é algo que me faz voltar ao passado, mas algo que traz a sensação do carinho.



 



Jornal do Sudoeste: O que seus pais faziam em Divinópolis e como foi sua infância lá?
Denise Gonzaga: Meu pai era funcionário do Estado e minha mãe dona de casa, cuidou de tudo sempre com muito carinho. Minha vida em Divinópolis foi muito tranquila. Fui uma menina muito alegre, que cantava na Igreja desde os 8 anos e por isso fiquei muito conhecida. Era muito extrovertida e muito estudiosa, tive uma infância alegre, de brincar na rua, andar de bicicleta, queimada, bola. Era muito comportada, a primeira da classe, primeira do vestibular, aquela coisa toda certinha.



 



Jornal do Sudoeste: Antes de construir uma carreira musical, você estudou Direito. Como foi isso?
Denise Gonzaga: Quando eu deixei o segundo grau, por influência da família do meu pai que tinha vários bancários, e eu achava aquilo tão legal, prestei concurso nesta área. Mas a minha vocação desde criança era música, arte, mas meu pai, como provedor daquela educação, sempre me induziu a buscar fazer uma faculdade (apesar de ter me dado um violão aos 10 anos), e eu sempre o ouvia. Já minha mãe não, se eu tivesse ouvido ela, teria seguido na música, mas não, eu ouvia meu pai e naquela época, que a mulher era obediente ao marido, mamãe era silenciosa quanto a esse tipo de opinião. Então, segui o que meu pai falava. Em 1992 prestei concurso para o Banco do Brasil, passei, e quando fui conversar com meu pai, ele me orientou a fazer um curso de Direito, e eu o ouvi. Formei-me, advoguei, prestei concurso para a Defensoria Pública na época, passei nas duas etapas, mas deixei tudo isso para trás em 1997.



 



Jornal do Sudoeste: Quando você percebeu que Direito não era o que você queria?
Denise Gonzaga: Foi um daqueles momentos que a vida nos mostra que esse não é o caminho que você deve seguir. Naquele momento eu disse a mim mesma que iria tentar outro caminho. Tinha entre 26 e 27 anos. Foram várias pessoas envolvidas nesse processo e é até difícil citar nomes. Eu ainda me lembro de quando encontrei com o Túlio Mou-rão, tecladista lá de Divinópolis e que tem uma carreira muito bonita. As pessoas queriam que eu cantasse de maneira mais profissional e eu não acreditava nisso de jeito nenhum, apesar de ter cantado a minha vida inteira. Naquele dia que fui até o Túlio, ele me disse algo que me marcou muito: “Você tem noção do que está fazendo com o que a vida te deu, a responsabilidade disto?”. Desde então já são 20 anos que eu me lancei ao desconhecido, a uma intuição. Eu não gravei tudo, não escrevi tudo... tenho amigos que dizem que vão escrever um livro, mas acho que ainda não vão conseguir registrar tudo aquilo que eu fiz, e que bom, porque vai ficar na lembrança de cada um que viveu o que viveu. Às vezes me vem um fato que alguém comenta e eu não me lembro, e que bom que não me lembro, porque não guardo nem o ruim e nem me envaideço, vou caminhando...



 



Jornal do Sudoeste: E não é fácil ser artista, não é mesmo?
Denise Gonzaga: Não. Nós artistas nos preocupamos, não é fácil, mas o que eu vivi nesses 20 anos eu me orgulho muito. Foi muita coisa linda, muita gente que nem está mais aqui para dizer como valeu a pena, e valeu a pena.



 



Jornal do Sudoeste: Existe alguma recordação ou momento que te marcou ao longo da carreira?
Denise Gonzaga: É difícil pensar em um momento único, quando penso, vêm muitos olhares, pessoas que se emocionam nas minhas apresentações. Das minhas apresentações nas Igrejas, recordo-me de uma onde as crianças se sentaram na escadaria, perto de mim, e uma delas ficou o tempo inteiro olhando para cima, observando-me cantar. É difícil falar sobre um momento. Se me perguntar o que eu sinto, é uma gratidão muito grande, que me pede para continuar acreditando e seguir. Tem um poema da Adélia Prado, que me acompanha desde o meu primeiro CD: “Eu sempre sonho o que uma coisa gera; nunca nada está morto; o que não parece vivo, aduba; o que parece estático, espera”. Então, o movimento é constante, está tudo aí... se a gente se lançar a isto, é tão bonito, tão perfeito. Não devemos ter medo, não preocupar tanto. Dói. Muitas vezes a vida dói, preocupa, mas dá para escolher: eu posso carregar isso tudo, ou eu posso ser um pouco mais leve.



 



Jornal do Sudoeste: Quais artistas te inspiram?
Denise Gonzaga: São tantos. No erudito: Cecilia Bartoli, Edita Gruberova. No popular: Marisa Monte, que voz, que mulher elegante, é uma referência. A Celine Dion é uma diva, com aquela presença, também de uma elegância muito grande. São alguns nomes, mas há tantos. Há o Luciano Pavarotti, que pessoa, que homem, veio e fez uma carreira tão bonita. Tem a Montserrat Caballé. Todos estes são artistas que eu sempre escuto e sempre olho com o olhar de quem está buscando aprender.



 



Jornal do Sudoeste: A música sempre fez parte da sua vida....
Denise Gonzaga: Eu nasci gostando de música. Papai tinha um grupo de Seresta e eu me lembro de sair do quarto e me esconder embaixo da cadeira para ouvi-los tocar. Quando eu comecei a cantar, foi na Igreja, com oito anos, na coroação, depois ganhei um violão, que tive aulas apenas durante um ano, mas aprendi praticamente sozinha, a ler partitura sozinha. Eu achava o máximo ler aquilo e ver que aquelas bolinhas na partitura geravam som...



 



Jornal do Sudoeste: O que a música significa para você?
Denise Gonzaga: Música significa vida. Sentido para tudo. Abre-me para uma percepção diferente da vida. Não me imagino sem a música, sei que às vezes a gente para naquela preocupação que todos pensam em relação ao futuro, mas mesmo assim não me imagino sem ela. Tenho outras habilidades, mas nenhuma eu faria na intensidade que eu faria música.



 



Jornal do Sudoeste: A música tem o poder de transforma vidas, não é mesmo?
Denise Gonzaga: Sim. Em primeiro lugar, eu tenho muito respeito pela música, por ter essa permissão da vida; segundo, eu tenho muito respeito por quem vai me ouvir. Então, a minha atenção no que eu faço é o cuidado no que eu estou falando e executando. O som que eu emito tem que ser agradável; a minha voz tem que ecoar com sonoridade, não gritada, não agressiva, porque a energia que eu mandar, ela irá atingir o outro. Nós, músicos, somos muito responsáveis pela energia que emanamos através da música, do canto. Se eu grito, eu emito agressividade e vou provocar isso em uma grande maioria. Então desejo muito que os meios de comunicação possam propagar música e sons que emitam energias boas. O mundo precisa de paz.



 



Jornal do Sudoeste: Na música, hoje, percebemos letras muito pobres, o que você pensa sobre isto?
Denise Gonzaga: Para ser sincera, eu não culpo nem quem ouve, nem as pessoas que estão fazendo sucesso. Parece-me que virou um negócio muito rentável para pessoas que sabem fazer isso, porque nós, artistas, muitas vezes não damos conta. Para a Celine Dion chegar aonde chegou, ela precisou do marido, que foi quem a fez, se não fosse isso talvez ela estivesse no desconhecido; quantas Celines Dions estão espalhadas pelo mundo? É difícil para o artista trabalhar essa parte empresarial e me parece que alguém aprendeu a fazer isso e indo no que está dando muito certo... Eu fico um pouco preocupada, nesse contexto todo, com esse artista que foi colocado no auge; fale-me sobre ele daqui a cinco ou dez anos. Você dá para a pessoa um sucesso momentâneo, e depois tira; como será a vida dele depois? Eu tenho receio se não é um negócio que deu certo, construir artistas famosos.



 



Jornal do Sudoeste: Mudando um pouco de assunto. Como Paraíso surgiu na sua vida?
Denise Gonzaga: Eu conheci Paraíso em 2010 sem conhecer nenhuma pessoa. Meu marido trabalhou aqui nesta época e eu vinha para cá, ficava um dia, dois ou uma semana e ia embora. Muitas vezes trazia meu material de estudo. Eu me apaixonei por essa cidade de uma forma inexplicável. Quando fomos embora, despedi-me das pessoas com quem convivi, que nos ajudaram, com os olhos marejados. Eu disse para uma delas, à época, que um dia eu ainda iria morar nessa terra. No ano passado fechou um ciclo na minha vida, que foi a partida da minha mãe, e eu pensei em voltar. Eu estava achando BH muito agitada, não sei se era o momento ou se eu não dou conta mais dessa aceleração.



 



Jornal do Sudoeste: E como tem sido viver aqui desde então?
Denise Gonzaga: Em um ano que estou aqui, o que eu já tenho de laços construí-dos... Eu me sinto uma planta que criou raízes aqui. Eu posso ir para qualquer lugar, mas Paraíso é minha segunda terra. Não tem explicação. É uma cidade, um clima, um povo que me ensina muito. Eu vim para aprender. Adoro andar na rua e receber “bom dia” das pessoas, o bom dia de vocês é completo. Eu sinto todo mundo igual, não tem aquela coisa de alguém ser mais que outra, todo mundo te olha com um sorriso. Aqui se você não quiser um sorriso e não quiser receber um bom dia, é só não olhar, porque do contrário terá um sorriso e um bom dia. Eu amo isso. As pessoas aqui são ternas. Há uma leveza, uma suavidade no povo de Paraíso e aqui vocês ainda tem essa qualidade, por mais que achem que foram contaminados por essa aceleração, há esta qualidade.



 



Jornal do Sudoeste: Como você está planejando esse Concerto que irá realizar em Paraíso?
Denise Gonzaga: Esse concerto é um agradecimento. O mínimo que eu posso fazer. É o respeito e o carinho que tenho por todos vocês. Essa ideia veio do nada, e estou muito feliz. Minha carreira começou em 97 e este ano completou 20 anos. Estou feliz da vida e realizando dois concertos, um em Divinópolis e um em Paraíso, meus ninhos. Não é brincadeira, dá um gelo na barriga, mas estou muito agradecida. No domingo agora, dia 17, realizo uma apresentação em Divinópolis, está tudo dando muito certo, tudo muito bonito e no próximo dia 22 aqui em Paraíso. Deu-me essa vontade de dar um grande abraço em todos, e convidei todos os músicos que neste ano eu conheci, cantei junto, convivi, são as pessoas que estarão comigo nesta apresentação em um agradecimento a essa terra que me recebeu com tanto carinho, consideração e respeito. Então, esse concerto é um grande abraço. E é um concerto que eu também quero dedicar àquelas pessoas que não poderão estar, mas as que forem estarão ajudando outras com donativos que irão levar, que são aquelas que estão nos asilos, acamadas e que eu quero que essa energia positiva chegue até elas.



 



Jornal do Sudoeste: São 20 anos de carreira e 47 de vida. Qual o balanço que você faz dessa caminhada?
Denise Gonzaga:  O balanço é de que tudo vale a pena. A vida vale a pena. Eu respeito às pessoas que não dão conta, que são tristes, porque não é fácil. A gente sabe que ser simples, ser leve não é tão simples assim, porque não é todo dia que a gente dá conta, mas vale a pena esse treino, esse exercício. Sou muito grata a Deus, à vida por ter me dado essa intuição, essa percepção para a música. Sou muito feliz e agradecida por tudo.  Como disse Cora Coralina, “quero ser mais pessoa, mais humana, mais completa”.