ELE POR ELE

Kid Colorado: Das arenas de rodeio ao rádio, levando sua voz ao público com carinho e emoção

Por: João Oliveira | Categoria: Entretenimento | 18-02-2018 21:02 | 8416
Foto de Arquivo pessoal

Josnei César Marciano, mais conhecido por Kid Colorado, é um locutor de rodeio e radialista, entusiasta pelo o que faz. Filho do casal João Marciano e Augusta Rita de Jesus, é o filho caçula entre os homens de uma família de dez irmãos. Kid é pai do Alisson, de 17 anos e da pequena Lívia, de cinco, e hoje, aos 42, após um longo tempo afastado das arenas de rodeio e do rádio, fez sua reestreia nas Expar de 2017 e comanda atualmente três programas na Rádio da Família, feitos que segundo diz, renovou suas energias para mais de 50 anos.



 



Jornal do Sudoeste: De onde veio esse apelido “Kid Colorado”?
Kid Colorado: O apelido nasceu quando comecei a narrar rodeio. Eu precisava de um nome, e o meu não era adequado. À época, idos de 2000, muitos locutores de rodeio usavam nomes de personagens de filme, como Indiana Jones e Crocodilo Dante. Recordo-me que havia um personagem que se chamava Colorado Kid, eu simplesmente inverti o nome para Kid Colorado e surgiu esse apelido para o rodeio, mas não é um apelido de infância; eu e um primo bem criativo chegamos a esse nome.



 



Jornal do Sudoeste: Você é natural de Paraíso?
Kid Colorado: Sou o famoso nascido na roça; nasci na região rural de Pratápolis, mas eu digo que nasci aqui porque tudo o que precisávamos fazer tínhamos que recorrer a Paraíso. Porém, minha família é de Guapé, mas com o fechamento da comporta da represa de Furnas, aquelas famílias que moravam lá, muitas vieram para Pratápolis, Paraíso, Itaú de Minas e outras cidades da região, isso em meados da década de 60.



 



Jornal do Sudoeste: Você sempre foi locutor?
Kid Colorado: Não, até os 19 anos eu morei e trabalhei na roça. Após, morei um curto período em Campinas e com a minha família já morando aqui em Paraíso, voltei e dali por diante trabalhei como caminhoneiro por bastante tempo, até que em 2000 realizei esse sonho de infância. Tudo o que quis realizar, eu fiz. Quando criança quis ser caminhoneiro, e fui; ainda criança ouvia muita narrativa esportiva e isso me despertou a vontade de ser locutor, mas locutor esportivo. Com o passar dos anos, a voz foi aparecendo e na brincadeira falava um verso de rodeio aqui outro acolá, até que, incentivado na época pelo Ademir Santos, que já era meu amigo muito antes disto, em 2000 comecei a fazer alguma coisa no rádio. Foi um dom natural, não tenho nem como explicar, porque não era algo que até então tinha na minha família.



 



Jornal do Sudoeste: Quando você começou com os rodeios?
Kid Colorado: Também foi em 2000 e fiquei até 2009, narrei rodeio em várias cidades da região. Depois fiquei parado por um tempo, isso porque devido a alguns problemas particulares que me aconteceram comecei a frequentar a Igreja Evangélica e achei que tinha que parar com tudo, e me afastar disto, foi um erro de interpretação meu nesse sentido, e fiquei de 2009 até meados de 2017, quando retornei de vez.



 



Jornal do Sudoeste: E como aconteceu esse retorno às arenas?
Kid Colorado: Há um locutor de rodeio, o Almir Câmara (que já ganhou inclusive vários prêmios por ser um locutor bem técnico de rodeio) e sempre tive vontade de conhecê-lo. No último ano ele esteve aqui na região e eu, afastado esse tempo todo e que não tinha nem intenção de voltar à ativa, fui prestigiá-lo e partir dali me deu vontade de voltar e narrei algumas festas na região, entre elas a Festa dos Marques, a Expar, e em Itamogi, isso com a intenção de retornar este ano a algumas cidades que trabalhei no passado. 2017 foi um retorno para mostrar que eu já estava de volta às arenas, até mesmo para pegar alguns circuitos de rodeio neste ano. O rodeio é a minha paixão inclusive na Rádio da Família nós criamos um programa cuja narração é uma alusão às arenas de rodeio.



 



Jornal do Sudoeste: Durante todo esse tempo que você esteve presente nas arenas, há alguma participação que tenha te marcado de alguma forma?
Kid Colorado: Foram duas apresentações, uma delas a última que eu fiz na minha primeira fase como locutor de rodeio, em Cássia dos Coqueiros. Naquela festa, no sábado, a dupla Milionário e José Rico se apresentou. Sempre gostei da dupla e tive a oportunidade de compartilhar daquele momento, e foi a última vez que eu vi o José Rico cantando, depois disso ele veio a falecer. A outra narração que me marcou muito foi a que fiz na Expar em 2017, porque na primeira fase narrei muitas festas grandes, mas em Paraíso nunca tinha feito, o mais próximo daqui foi na Festa dos Marques; marcou porque no ano que eu decidi voltar, comecei justamente com a principal festa da nossa cidade.



 



Jornal do Sudoeste: Como a Rádio da Família entrou na sua vida?
Kid Colorado: Foi um ano antes de eu parar de narrar rodeio, em 2008. Certa vez eu estava na rodoviária e me encontrei com uma lenda do rádio e da música, o Tibagi, que me disse que o Ademir Santos sairia da rádio e como ele já me conhecia, porque na época eu trabalhava na Rádio Ouro Verde, ele me disse que a Rádio da Família daria certo para mim, que eu procurasse o Alessandro Calixto, que já era diretor à época. Então fui e trabalhei por um ano, quando parei, isso porque eu queria voltar a ser caminhoneiro. Eu não pretendia voltar a trabalhar com rádio, mas em 2016 eu encontrei por acaso com o Alessandro ele me convidou novamente e estou lá até hoje.



 



Jornal do Sudoeste: Como são seus programas na Rádio?
Kid Colorado: Eu tenho um programa das 5h às 7h da manhã que é voltado para música sertaneja, não é só raiz, porém eu priorizo mais esse gênero porque é voltado mais para o pessoal da zona rural, que neste horário está levantando para começar o dia. Com as mudanças do AM para o FM, também tivemos que adaptar o sistema de locução e de apresentar um produto, então, juntamente com o Alessandro, chegamos à conclusão de que teríamos que apresentar algo diferente do que já existira. O Calixto, naqueles momentos de iluminação, sugeriu fazermos um programa no estilo de rodeio, e a partir deste ano assumi um horário na parte da tarde e criamos o programa Rodeio Show, no qual um locutor de rodeio apresenta um programa de rádio. É diferente daquilo que já estamos acostumados, o programa vai ao ar das 16 às 18h e depois eu volto com o programa Sertanejo de Ouro, que é voltado mais para o raiz. Então, em um dia eu apresento três programas diferentes, o Manhã Sertaneja, o Rodeio Show e o Sertanejo de Ouro.



 



Jornal do Sudoeste: Você gosta de apresentar um programa voltado para o ruralista, sente saudades da época que morava na roça?
Kid Colorado: Para mim é muito fácil fazer um programa voltado para esse público porque eu nasci, fui criado e trabalhei na roça até meus 19 anos. Para falar a verdade eu não gosto nem de ver foto antiga, porque isso me faz voltar ao passado e foi uma fase muito boa da minha vida. Eu comecei a trabalhar muito cedo, com seis anos já ia para escola e intercalava com o trabalho na roça, isso até os 19 anos. Hoje a lei não permite que criança trabalhe, mas naquele tempo não era assim. O que hoje as pessoas colocam como exploração de mão de obra infantil eu encaro como formação de caráter. Aquilo formava o homem, e é muito difícil um homem, que tenha ajudado o pai na lavoura, ter tomado um caminho ruim. Então sinto saudades dessa época, sim.



 



Jornal do Sudoeste: Você também é muito antenado com a política...
Kid Colorado: Sim. A política é algo que também chegou muito cedo a minha vida. Eu sei a história da nossa política, não ter lido em livros, mas de ter acompanhado por meio de reportagens. O último presidente do regime militar, João Batista Figueiredo, que após sua saída foi eleito o Tancredo Neves, que nem chegou assumir, quem assumiu foi José Sarney, de lá para cá fala-se muito se para o Brasil voltar nos trilhos precisaria de um regime militar e há muito críticas, porque confundem o regime com a ditadura que houve, o regime em si não foi ruim, mas a ditadura, sim. De tudo o que a gente presenciou, o fim da ditadura militar, passando pelo Collor que foi destituído, depois o Fernando Henrique Cardoso assumiu e veio toda uma transformação com o plano real, que equilibrou o Brasil; depois veio um sindicalista, que foi o Lula e fez uma boa administração no seu primeiro mandato e para mim foi o melhor da história do Brasil, não sei se porque já pegou a casa arrumada, mas foi excelente, porém dali para o segundo mandato e o que veio depois o Brasil perdeu o rumo. Torcemos para que aqueles que tomarem posse dos cargos de presidente, deputado e senador tenham o objetivo de realmente transformar esse país, mas neste momento não consigo enxergar isto, como grande parte dos brasileiros. Para acontecer essa transformação o povo tem um papel fundamental: precisa falar, discutir e se interessar pela política, porém vemos o contrário e que só há interesse quando há ganhos pessoais. 



 



Jornal do Sudoeste: Falando em Paraíso, com você avalia o desenvolvimento da nossa cidade?
Kid Colorado: A cidade desenvolveu bem, mas se pegamos Passos como exemplo, que é mais nova que Paraíso, ela ficou cerca de 20 anos sem ter um representante político tanto na Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais quando no Congresso Nacional, mas por incrível que pareça, foi o período de maior crescimento daquele município. Paraíso, não sei se por questões de brigas políticas, não acompanhou o desenvolvimento da nossa vizinha, porém eu ainda acho que desenvolvemos muito, perdemos muita coisas, mas se olharmos para nosso comércio e indústria, houve desenvolvimento, mas ainda precisamos resgatar muito coisa.



 



Jornal do Sudoeste: Dessas perdas o que você destaca e o que precisa ser resgatado?
Kid Colorado: Tínhamos, por exemplo, uma exposição agropecuária muito grande, que ficou para trás porque perdemos grandes duas cooperativas (Coolapa e Cooparaíso) e que eram duas forças que ajudavam muito na Festa. Quem não se lembra do Torneio Leiteiro da Coolapa e das exposições de máquina da Cooparaiso? Isso tudo era interessante e gerava emprego na cidade. Perdemos também algo que acredito que não vamos recuperar mais que é o nosso futebol profissional: a Associação Atlética Paraisense. Hoje uma cidade do porte de São Sebastião do Paraíso poderia ter tranquilamente um time profissional na primeira divisão do campeonato mineiro, por exemplo, ou pelo menos uma categoria de base. Acredito que falta tanto envolvimento político quanto das empresas, falta o empresário investir. Na época da Paraisense nós não tínhamos um Centro Esportivo grande como temos hoje, com potencial regional, então acredito que é possível resgatarmos o que tínhamos. A Exposição Agropecuária há uma possibilidade de voltar a ter o mesmo gás de antes. O problema das cooperativas, não foi somente Paraíso que passou por isso, a política nacional prejudicou muito o produtor rural, que alavancava e fazia as cooperativas funcionarem, com o seu enfraquecimento não tiveram força para se manter. Acredito que com políticas que fortaleçam o produtor, é possível resgatar o que foi perdido.



 



Jornal do Sudoeste: Você também gosta muito de esporte?
Kid Colorado: Muito, porém não jogo mais por causa do joelho. Sempre fui apaixonado por futebol, mas gosto de falar de tudo que envolva esporte. Sou palmeirense, gosto de futebol e isso não quer dizer que eu não goste de ver uma partida de basquete ou vôlei. Quando eu vejo surgir um novo esporte no Brasil, que tem capacidade de crescimento torço para dar certo. Também sempre fui apaixonado por  Formula 1 e torço também para que surja um piloto com o potencial do Nelson Piquet e Ayrton Senna, está difícil, sim, mas quem sabe?



 



Jornal do Sudoeste: Paraíso precisa resgatar o esporte?
Kid Colorado: Há essa necessidade. Nós tivemos muitos projetos que não foram para frente, não sei o motivo, mas tivemos aqui o projeto da Escolhinha do Zico, que no papel era um projeto excelente e na prática não foi para frente. Hoje a polêmica é a Praça de Esportes, temos ali um espaço que deveria ser bem; temos a Paraisense do jeito que está, ainda há jogos, mas é de futebol amador... se não tem condição de montar um time profissional, por que não investir na categoria de base? Há tantos torneios como a Taça São Paulo, Taça BH e dessas disputas poderia ser revelado um nome, e ser negociado talvez na venda desse jogador daria para montar um time profissional. O futebol na cidade precisa melhorar mais. Tivemos também um time de basquete forte, que não existe mais e o futsal, que precisou vir um time de fora para montar na cidade, mas independente de onde venha, se é para somar, é bem vindo, mas precisa melhorar. Há também os times de zona rural, que já quase não existem, e a Secretaria de Esporte precisa comandar esses torneios rurais para não acabar de vez.



 



Jornal do Sudoeste: Qual o balanço que você faz desses 42 anos?
Kid Colorado: Tudo o que eu quis fazer em termos profissionais, fiz. Tudo o que eu pego para fazer, gosto de fazer bem feito, do contrário nem me envolvo. Nesses 42 anos a única coisa que eu não fiz foi ganhar dinheiro, mas sou um homem feliz por tudo o que já conquistei. E hoje, conforme você trabalhar com uma coisa aqui outra acolá, você chega num ponto em que você se questiona que precisa ser útil para alguma coisa e cheguei nesta conclusão: a partir do momento que levanto pela manhã e vou para a Rádio da Família, que alguém ouve e diz que gostou, já é o suficiente. Gosto muito das frases de Madre Tereza de Calcutá, ela viveu uma vida inteira em prol do próximo, então a partir do momento que você é útil para alguém, independe para o que for, já é o suficiente. Aos 42 sou um homem feliz e realizado e, depois de ter ficado mais de oito anos afastado das arenas de rodeio e voltado para a rádio, estou com as forças renovadas para mais um bom tempo.