ENTRETANTO

Entretanto

Por: Renato Zupo | Categoria: Justiça | 05-07-2018 14:07 | 2221
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PODE X NÃO PODE
Estamos vivendo tempos malucos. Costumes – que ditam as regras de comportamento – formam aquilo que usualmente chamamos “moral”. Ou seja, regras de conduta que sempre observaram certa lógica ao longo da História. Isso, contudo, acabou, amigo. Seguir aquilo que está em voga nunca foi tão difícil e inexplicável, ofensivo ao pensamento inteligente e crítico. É como se fossemos todos membros de um rebanho conduzidos para lá ou para cá conforme normas impostas por gente que colocamos no poder ou que seguimos, abrindo mão para isto do que os filósofos chamam de “razão consciente”. Ou seja, fazemos por fazer. E também nos abstemos, deixamos de fazer, tudo sem pensar. É uma série de “pode” e “não pode” sem nexo – muito bem exposta em eventos midiáticos como a Copa do Mundo, por exemplo. Querem ver?
Beber cerveja e encher a cara nos estádios de futebol pode. Fumar charuto, como fez Maradona no primeiro jogo da Argentina, não pode. Aliás, fumar tabaco não pode. Já a maconha, que para muitos precisa ser liberada, em alguns lugares e para usuários tidos como pobres doentes, pode. A proibição do tabaco pode e deve ocorrer logo. Já a maconha não só não pode ser proibida como deve ser liberada.
Ser homossexual e extravasar sua sexualidade, pode. Já o heterossexual não pode beijar a boca da namorada em locais públicos. Beijo de língua, então, nem pensar. Piada com gay não pode, é homofobia. Piada com gordo e português, pode, pouco importando se a associação dos gordos ou a embaixada de Portugal protestem.
Em pleno estádio de futebol, xingar jogador de futebol por conta de sua cor de pele ou orientação sexual, não pode, é racismo ou homofobia. Já xingar a mãe dele, chama-lo de filho disso ou daquilo, pode, é uma mera brincadeira, é torcer e extravasar senti-mentos. Beijar torcedoras russas no rosto com o consentimento delas, isso em um país em que o beijo é admitido como cumprimento corriqueiro mesmo entre homens, não pode, é machismo. Homem beijar homem na boca na frente dos seus e dos meus filhos, pode, é ser politicamente correto.
Prender usuários de drogas ilícitas não pode, droga é um problema de saúde pública e não se resolve com cadeia, e todo esse mi-mi-mi, etc... Prender motorista bêbado pode, porque o trânsito mata, o motorista é irresponsável, e tome mais etc.. E o motorista maconheiro dirigindo doidão, prende ou não prende?
Cantar música funk repleta de malícia e com letras com clara conotação sexual, em programa de TV ou bailes da periferia do Rio de Janeiro, com mulheres e crianças pobres assistindo, pode. Cantar essas mesmas músicas nas entradas dos estádios de futebol, nas “fan fests”, onde há mulheres e crianças de classe alta, não pode.
Provocar a torcida adversária com hinos e palavrões, pode, desde que seja em língua estrangeira. Nossa própria torcida, em bom português, não pode falar palavrão. Palavrão é errado só em português, em inglês “fuck” é bonito e pode. Falar “vagina” e seus derivados, alguns deles impublicáveis, não pode. Falar “pussy”, “ass hole” e outras expressões bastante comuns em vários países do mundo, pode.
Ensinar russas e outras torcedoras que não falam nossa língua a dizer palavrões em português não pode, é ignomínia, é machismo, é horroroso. Aprender a falar palavrões em russo e distribuí-los pela internet e pelas redes sociais, pode, é bem humorado e super na moda, já que a Copa do Mundo é na Rússia.
Falar mal de político, de policia, de Poder Judiciário, pode, porque somos contribuintes e pagamos o salário dessa gente toda. Falar mal de artista, de pensadores de esquerda, de sindicalista, de sem terra e sem teto, não pode porque é preconceito, é reacionário, e coisa de “filhote da ditadura”.
Falar que os militares foram torturadores e ditadores durante o regime militar brasileiro, pode, é ser consciente. Falar que as esquerdas eram terroristas, que acabaram com nossa economia e nossa segurança pública, não pode, é ser direitista e retrógrado.
A atriz transar com o produtor de Hollywood para conseguir um papel em um filme, pode. Afinal ela é dona do seu nariz e livre para usar o próprio corpo como bem entender. Já o produtor não pode aceitar a transa em troca do papel no filme. Isso faz dele um cafajeste cafetão machista e atrasado que não compreende a evolução feminina, etc...
O sujeito pode pensar o que quiser, mas se discorda da maioria é um pessimista intransigente e atrasado. Se, ao contrário, fala o que todo mundo quer ouvir, aí pode: é moderno, politicamente correto, contribui para a democracia. Democracia, aliás, cada vez mais relativizada pelos costumes incompreensíveis de nossos dias.
RENATO ZUPO, Magistrado, Escritor.