ENTRETANTO

Fernando Pessoa

Por: Renato Zupo | Categoria: Justiça | 25-07-2018 14:07 | 399
Foto de Reprodução

Estou tentando redescobrir autores, que li moço e talvez não tenha valorizado como deveria. O leitor também deve estar preparado para a obra, assim como o aluno para o mestre. Eu, que muito precoce me dediquei aos clássicos, não tive bagagem para digerir muita entrelinha, muita nuance e matiz de prosas e versos ilustres que menoscabei injustamente. Deu-se assim quando conheci os versos de Fernando Pessoa que, considerado o maior poeta de nossa língua, nunca o acreditei melhor que Drummond ou Vinícius. Mas o reli, e é brilhante! Como não o havia reparado antes, em todos os seus ritmos e fluxos! Pessoa não é daqueles poetas de obra cunhada a cinzel para poucos paladares. Fernando Pessoa é para todas as gentes! Vai aí, leitor amigo, um pouco do muito que o poeta maravilhosamente criou.
“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. Deus quis que a terra fosse toda uma; que o mar unisse e já não separasse. Sagrou-te, e foste desvendando a espuma.”
“Há só um caminho para a vida, que é a vida.(...)Sem Deus não há vida nesta vida.”
“Estou só, só como ninguém ainda esteve. Oco dentro de mim, sem depois nem antes. Parece que passam sem ver-me os instantes, mas passam sem que o seu passo seja leve.”
“Merda pra vida! Ter profissão pesa aos ombros como um fardo pago. Ter deveres estagna. Ter moral apaga. “
“Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente! Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém... Sem ti, correrá tudo sem ti. Talvez seja pior para outros existires que matares-te. Talvez peses mais durando que deixando de durar.”
“O que é feito dos propósitos perdidos e sonhos impossíveis? E por que é que há propósitos mortos e sonhos sem razão? (...) E o universo é absolutamente oco em torno de mim. O tédio que chega a constituir nossos ossos encharcou-me o ser, e a memória de qualquer coisa de que não me lembro esfria-me a alma.”
“E depois tomava-se chá nas noites sossegadas que não voltam. Minha infância, mesmo quando eu adolescia, passou. Fiquei triste, como se a verdade me tivesse sido dita. Mas nunca me foi dita verdade nenhuma enquanto sentia o passado.”
“Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. A parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”
“Cortei relações com o sol e as estrelas, pus ponto no mundo. Levei a mochila dos ardis que sei para o lado e pro fundo. Fiz a viagem, comprei o inútil, achei o incerto. E o meu coração é  o mesmo que fui, um céu e um deserto. Falhei no que fui, falhei no que quis, falhei no que soube. Não tenho já alma que a luz me desperte ou a treva me roube. Não sou senão náusea, não sou senão cisma, não sou senão ânsia. Sinto em ânsia que fui a uma grande distância. E vou, só porque o meu ser é imundo e profundo, colado como um escarro a uma das rodas do mundo.”
“No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, eu era feliz e ninguém estava morto.”
“Não tirei bilhete para a vida. Errei a porta do sentimento. Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse. (...) grandes são os desertos, e tudo é deserto.”
“Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, e eu tantas vezes irrespondivelmente parasita. Indesculpavelmente sujo.”
São fragmentos, este último do inesquecível Poema em Linha Reta. Pessoa escrevia em estilos diferentes porque criou heterônimos: personagens que escreviam também e de maneira independente através das palavras do poeta. Pessoa era vários em um, e todos muito bons. Descobri em sua biografia uma peculiaridade: assim como Hemingway, escrevia de pé, assíduo, a caneta ou datilografando. E bem demais. Só que ainda prefiro Drummond e Vinícius.
RENATO ZUPO, Magistrado, Escritor