CRÔNICA HISTÓRICA DE SÃO SEBASTIÃO DO PARAÍSO:

História da imprensa paraisense - Parte 8

Por: Luiz Carlos Pais | Categoria: Cidades | 21-04-2017 22:04 | 764
Foto de Reprodução

 




O Libelo do Povo encerrou sua trajetória de publicação em 1938, no quadro da repressão instituída pela Ditadura Vargas, às vésperas do início da Segunda Guerra Mundial. Mas o episódio não conseguiu atingir os sólidos ideais do jornalista João Borges de Moura, fervoroso defensor da liberdade de expressão. Não conseguiu reabrir o jornal, que circulou por quase uma década, mas, logo a seguir, protagonizou outro projeto sem precedentes na história local, que foi o lançamento do Diário da Tarde, em 1939, primeiro diário da cidade, publicado por quase um ano. Naquele momento, houve um expressivo aumento de preços de produtos importados, tais como alguns usados nos serviços tipográficos, devido às alterações no mercado internacional, resultantes do grande conflito bélico. Registros da mesma época mostram que vários outros jornais também encerraram suas atividades, em diferentes cidades brasileiras. 
Sobre a trajetória do Diário da Tarde, em 4 de fevereiro de 1940, o semanário A Vanguarda, de Cássia, publicou um artigo sobre o problema do transporte ferroviário no sudoeste mineiro, quando estava em discussão a possível construção de um ramal para interligar Passos à cidade paulista de Franca, passando por Cássia. Em vista da importância do assunto para a região, o mesmo tema foi objeto de uma ampla matéria publicada no referido diário de Paraíso. A respeito do seu diretor, o editor do jornal cassiense assim se expressou: “O seu esforçado diretor, nosso prezado confrade João Borges de Moura emprestou o prestígio do seu respeitado diário e as palavras carinhosas do seu coração generoso à causa pela qual todo o sudoeste mineiro se empenha vigorosamente e que está, nos últimos tempos, em via de pronta solução”.
Alguns anos depois do fechamento do Diário da Tarde, João Borges de Moura lançou o Cruzeiro do Sul, outro histórico título da imprensa paraisense, cujo primeiro número circulou no dia 7 de novembro de 1943. Trata-se de um campeão devido à sua longa trajetória de publicação, de 50 anos de persistência na seara do jornalismo do interior, com todas as suas especificidades e desafios próprios. O referido semanário foi dirigido por João Borges de Moura, até 1960, quando assumiu a direção o jornalista Anibal Deocleciano Borges, até 1990, quando deu continuidade o engenheiro Anibal Marinzeck Borges, até 1993. Assim, pai, filho e neto têm seus nomes inscritos na história da imprensa paraisense.
Um dos colaboradores de João Borges de Moura, na primeira equipe de redação do Cruzeiro do Sul, foi o poeta e professor Ary de Lima, posteriormente, eleito deputado federal pelo Estado do Paraná, após fixar residência na cidade de Maringá. Pouco antes do lançamento do jornal, o ilustre intelectual, escritor e professor do Ginásio Paraisense havia acabado de lançar a coletânea de poemas Sol Poente, obra que marcou época na história da literatura de São Sebastião do Paraíso. 
Na galeria dos primeiros redatores do Cruzeiro do Sul estava também a jovem jornalista e escritora Conceição Borges Ferreira (Sãozinha), filha de João Borges de Moura, e colunista atual do Jornal do Sudoeste, que, regularmente, nos brinda com suas crônicas sociais, repletas de leveza e serenidade poética. Sãozinha iniciou sua longa e fértil trajetória no jornalismo, no quadro da Segunda Guerra Mundial, escrevendo artigos sobre o grande conflito, a partir de correspondências enviadas por combatentes paraisenses integrados à Força Expedicionária Brasileira, que estavam lutando na Itália.
Nos dias atuais, a querida jornalista, sempre com muita vitalidade e competência, colabora em favor dos mais elevados ideais da cultura e da informação, através das lides do jornalismo. Recentemente, com gentileza e presteza, enviou-me mensagem com informações relevantes para a pesquisa que estou realizando, cujos resultados subsidiam a redação dessas crônicas sobre a história da imprensa local. Aqui, registro meus sinceros agradecimentos à sua colaboração, juntamente com o apoio dado pelo jornalista Nelson de Paula Duarte.
A relação da nossa querida Sãozinha com o jornalismo foi comentada, por ela mesma, em noite de homenagem que recebeu da Academia Paraisense de Cultura, em julho de 2015, através das seguintes palavras: “Escrevo desde a adolescência, não podia ser outra a minha história de vida, pois, sou filha de jornalista, irmã de jornalista e fui esposa de jornalista”. (Jornal do Sudoeste, 12.07. 2015). Na oportunidade, lembrou dos primeiros anos de atividade jornalística do seu saudoso pai, que aos 16 anos de idade, lançou o seu primeiro jornal intitulado A Chaleira, voltado para o despertar dos ideais e das consciências juvenis do seu tempo. Para finalizar, é oportuno relembrar a sábia mensagem da experimente jornalista dos nossos dias: “Gosto de escrever para ter o direito de sonhar”. Lição maior não há!