CRÔNICA - Joel Cintra Borges

A águia cativa

Por: Joel Cintra Borges | Categoria: Cidades | 25-04-2017 09:04 | 485
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Certa vez um homem capturou uma águia, prendendo-a com forte corrente a um rochedo. Acostumada à liberdade, a voar nas amplidões do espaço, a ave tudo fez para libertar-se, chegando a ferir-se nas tentativas. Mas, em vão.
No princípio, recusava a carne que o homem lhe dava, mas, quando a fome apertou, começou a comer. E foi se acostumando à prisão, à comida nas horas certas, sem a necessidade de caçar. Já não se debatia, nem mostrava inquietação. Ao contrário, dormia muito, passando até a engordar.
Observando essa mudança, a pessoa compadeceu-se e soltou os grilhões que a prendiam, esperando que ela voasse para os altos penhascos, voltando a ser a águia altaneira de outros tempos. Surpresa: ela não voou, ficou por ali mesmo, olhos sonolentos, esperando a hora da comida...
Essa águia cativa somos nós mesmos, presos à rotina, ao comodismo de uma vida sem objetivo, que escraviza, amolece e debilita o caráter. O Dr. Lair Ribeiro, no excelente livro O sucesso não ocorre por acaso, diz que nunca devemos colocar de lado os sonhos da juventude, porque eles são o arcabouço de nossa existência. O ideal, a meta a que nos propusemos antes de sermos contaminados pela ganância, pela vaidade, pela febre do consumismo.
O menino que sonhava estudar medicina e descobrir a cura para o câncer, é hoje um prosaico médico que atende em três convênios, numa fábrica e numa clínica particular. Está gordo, adora um uisquezinho e já comprou um sítio e uma boa casa. Em tempo: sabe que o câncer não tem cura mesmo, por isso não perde tempo com pesquisas... 
O estudante esquerdista que sonhava com um Brasil melhor, que vivia citando Marx e falando em justiça social, é hoje o político corrupto cuja única meta é manter sua posição e suas mordomias.
Isso acontece com todos nós. Vendemos muito barato nossos sonhos. Em troca de uns espelhinhos, um par de contas e um canivete, entregamos o mapa da ilha do tesouro e os planos do foguete que nos levaria a Marte.
Que é o homem sem o ideal? Nada mais do que um feixe de ossos recobertos por músculos, nervos e pele, com um tubo interno que funciona como aparelho digestivo e fonte energética. Uma máquina.
É o ideal que nos sublima, que nos transforma em deuses, cocriadores do Universo. E sempre é tempo de recomeçar, porque a vida é eterna. Nossos sonhos podem estar empoeirados, meio amarrotados, mas não estão mortos. Esperam somente por nosso aceno!