NÃO ME LEVE A MAL... HOJE É CARNAVAL

Por: Redação | Editoria: cultura | 28/02/2017 | Visualizações: 98

- Foto de Reprodução

Virgilio Pedro Rigonatti *


 


Para a grande maioria, o período carnavalesco serve para curtir um bom descanso na praia ou no campo, viajando ou mesmo se isolar dentro de casa. Eu estou no bloco dos que se isolam em um sítio curtindo família, amigos, churrasco e, claro, uma caipirinha e uma cervejinha.


Contudo, tenho boas recordações de carnavais passados.


No tempo em que ainda não era proibido, o lança perfume causava certo frisson: o contato com a pele provocava um arrepio pelo gelado do jato. A diversão dos rapazes era provocar a reação de calafrio nas meninas ao surpreendê-las esguichando o éter no pescoço ou nas costas. O líquido, que era acondicionado em uma embalagem metálica dourada, evaporava rapidamente não deixando marcas nem no corpo nem na roupa. Misturado ao éter, tinha um perfume adocicado muito gostoso de inalar. O diabo era que o produto, usado em excesso, provocava várias reações danosas ao organismo, podendo provocar desmaios, taquicardia e até morte. Muitos, para curtir um barato, ensopavam o lenço - naquele tempo usava-se lenço - e punha no nariz, inalando uma forte dose do produto. Por abuso de uma parte dos foliões, proibiu-se e criminalizou-se o lança-perfume, ficando somente a lembrança da sua fragrância e da sensação refrescante do contato com a pele.


Outra brincadeira que sumiu, essa mais inocente, eram os esguichos, também chamados de bisnaga ou xeringa de água: um recipiente cilíndrico de plástico que se enchia com água e espirrava-se uns nos outros. Muitas vezes, a brincadeira virava uma guerra e, em alguns casos, provocava confusão. Quantos adultos que tiveram ensopadas suas roupas, algumas vezes ternos, não saiam correndo atrás de uns moleques que viviam importunando os passantes. Um de meus irmãos ficava com um esguicho enorme - havia de todos os tamanhos - espirrando água nos ônibus que passavam, pegando desprevenidos os incautos que deixavam as janelas abertas para se refrescar do calor, claro que com o ar e não com água. Certa vez, ao espremer seu imenso esguicho contra um ônibus, a tampa do cilindro saiu com a água lançando um volume enorme do líquido que ensopou um cavalheiro sentado junto à janela. O homem era, nada mais nada menos, um policial à paisana, que mandou o ônibus parar e foi atrás do moleque, que apavorado entrou em casa. O homem, ensopado, exigiu que minha mãe entregasse o contraventor, e só a muito custo foi acalmado e aceitou as desculpas dela, o que não evitou um bom e merecido castigo aplicado ao meu irmão.


Hoje, praticamente, sumiu a brincadeira com serpentina e confete. Quando criança, brincávamos muito com esses pedacinhos coloridos de papel. Havia abuso, com alguns jogando um punhado de confete na boca aberta de alguém distraído, mas era uma diversão inocente e alegre. Caiu em desuso com as crises econômicas, quando os recursos minguavam e jogar serpentina e confete era jogar dinheiro fora.


Um costume que caiu por terra foi a proibição de cantar música carnavalesca no período de quaresma. Não era uma proibição por lei, mas por costume religioso. Era considerado pecaminoso o ato de cantarolar uma marchinha de carnaval após a terça-feira gorda. A partir da zero hora da quarta-feira de cinzas o carnaval acabava. Recordo-me das broncas da minha mãe ao me surpreender cantarolando "mamãe eu quero" após o período momístico: "É pecado meu filho", dizia ela. Não só ela, eu e meus irmãos nos cobrávamos também. Eu não entendia porque podia cantar em um dia e no outro ser pecado, que diferença fazia? Essa proibição da Igreja Católica foi revogada, sem declaração formal, e hoje temos carnaval em plena quaresma, com desfile de escola de samba e tudo.


A grande questão do carnaval deste ano é a atitude de alguns blocos carnavalescos contrários a tocar algumas marchinhas por considerarem ofensivas à cor, homofóbicas, degradantes à condição financeira ou à posição da mulher no mundo atual. Assim, "Os teus cabelos não negam" ofendem às mulatas porque a cor não pega; o "Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é?" é contra os gays; o "Ei, você aí, me dá um dinheiro aÍ" é politicamente incorreto contra os carentes; até a "Amélia", que era mulher de verdade, não deve ser cantada por representar a condição de uma mulher submissa. O mundo está ficando muito chato: tudo é considerado agressivo e degradante a uma ou outra condição do ser humano. Criminaliza-se tudo e qualquer coisa é bullyng, a palavra da moda. Embora termos que evitar os excessos, os constrangimentos, não se pode acabar com o bom humor, com a alegria. Imagina eu ficar ofendido por que alguém brinca comigo me chamando de careca? Tenho um pouco ainda, mas meus cabelos a muito me abandonaram. Ou me chamar de velho? Como diz o mineiro: sou uai! É ofensivo? Não. Dito com humor, em situação de camaradagem, não há problema algum. Em uma discussão, as coisas mudam, claro, pois qualquer palavra pode ser considerada agressiva. Precisamos deixar de ser radicais e analisar os contextos. Devemos evitar os excessos, tanto de um lado como outro. O que incomoda é a afetação, por exemplo, tanto de um homossexual como de um machão. Sempre joguei futebol, onde tinha tanto o "negão" como o "alemão". Se a mulher prefere ser "do lar" ou ser dondoca, é um problema dela, bem como um homem pode considerar que é melhor para ele uma "Amélia" ou aceitar a posição de um "príncipe consorte".


De qualquer forma, nesse carnaval estarei em companhia de amigos e parentes em um sítio. Haverá o momento em que minha cunhada pegará o violão e todos cantarão. Se vocês me virem cantando essas marchinhas consideradas "impróprias", não me leve a mal... hoje é carnaval!


* Virgilio Pedro Rigonatti,  ESCRITOR,
www.lereprazer.com.br
rigonatti_pedro@terra.com.br
autor do livro “MARIA CLARA  a filha do coronel” que se encontra à venda nas livrarias Supertog, Estação do Livro e Livraria Beca

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