ELE PÓR ELE

Vanderlei Rodrigues: Vanderlei da Banca da Abadia

Por: João Oliveira | Editoria: cidades | 02/10/2017 | Visualizações: 3732

Vanderlei Rodrigues é conhecido por sua prestação de serviços na Banca da Abadia - Foto de Nelson P. Duarte/Jornal do Sudoeste

Quem já passou pela Praça da Abadia nos últimos 13 anos, com certeza já se deparou com Vanderlei Rodrigues, o Vanderlei da Banca de Jornais da Abadia. A banca foi o local onde, conforme ele mesmo conta, aprendeu a sentir a vida e adquiriu conhecimentos que livro nenhum poderia lhe oferecer. Por circunstância da vida, ele se viu no momento de encerrar as atividades, para trilhar um novo caminho. Vanderlei é casado com Maria das Dores Rodrigues, que conheceu há 28 anos e há 19 é casado; é filho do senhor Raul Alves Rodrigues, mais conhecido como Rui Alves e de Alice Machado Rodrigues, já falecidos e irmão da Maria Ísis, que mora no Paraná, da professora Maria Alice e do Raul, que é funileiro. Naturais de São Tomás de Aquino, sua família se mudou para Paraíso quando ele ainda era muito novo, e aqui vive deste então.

 

Jornal do Sudoeste: O que motivou a mudanças da sua família para Paraíso?
Vanderlei Rodrigues:  Meu pai tinha uma opinião muito forte em relação à política, e por algum motivo em1964, quando houve aquele processo de mudança para o regime militar, houve uma denúncia dando conta de que ele era comunista, o que não era verdade. Ele teve que ficar alguns dias escondido. Mas não era nada daquilo, meu pai tinha a opinião dele e na época você não podia expressar isto, e foi o que motivou essa denúncia. Não deu em nada, tanto que nos mudamos para Paraíso e essa história se encerrou. Ele tinha um açougue em São Tomás e trouxe para Paraíso, onde ficamos com ele por algum tempo. Logo depois ele começou a trabalhar com corretagem. Minha mãe foi servidora da prefeitura, trabalhou por muitos anos até se aposentar e também fazia salgados, era uma batalhadora.

 

Jornal do Sudoeste: Como foi essa mudança para uma nova cidade?
Vanderlei Rodrigues:  Paraíso é uma cidade que eu gosto muito, tive uma infância muito boa aqui. Minha relação com a família sempre foi muito amorosa, muito cordial. Aqui, estudei no Noraldino Lima e terminei no Campos do Amaral, depois estudei no Industrial e, quando concluí fui estudar no antigo Colégio do Padre, onde me formei  como técnico em contabilidade.

 

Jornal do Sudoeste: A partir de então começa a sua vida profissional...
Vanderlei Rodrigues:  Sim. Depois de formado, trabalhei em diversos lugares, entre eles na Praça de Esportes, onde fui secretário, e depois no escritório de contabilidade do Dênis Giubilei, onde fiquei muitos anos antes de ir trabalhar no Banco Nacional, até o fechamento da agência, em 1987. Quando isso aconteceu eu fui trabalhar com o Pedro Fagundes, no estacionamento que hoje é o Arena Veículos.

 

Jornal do Sudoeste: O ramo automobilístico foi uma área em que você trabalhou por muito tempo?
Vanderlei Rodrigues:  Sim. Trabalhei muitos anos com o Fagundes e depois montei meu próprio estacionamento, em meados de 1990, junto com um sócio, que ficava onde hoje é o Nenzo Escapamentos. Depois desfiz essa sociedade e montei uma oficina de funilaria com meu irmão, onde também tínhamos uma loja que vendia peças de reposição para carros. Logo depois fui trabalhar na agência Volkswagen, em 1995, onde trabalhei até a concessionária fechar.

 

Jornal do Sudoeste: Como foi essa fase?
Vanderlei Rodrigues: Na Volks comecei como vendedor e quando fechou eu já trabalhava como supervisor de vendas. Fazia avaliações dos veículos usados que entravam na troca pelo veículo zero quilômetro. Era um trabalho que eu realizava na Volkswagen e na Fiat, à época era um grupo só e tinha que viajar bastantes para prestar esses serviços. Quando a Volkswagen fechou, fui trabalhar no Primo Veículos, em Passos, onde morei por um ano. Depois voltei para Paraíso novamente, onde trabalhei na Palmares e na Chevrolet.

 

Jornal do Sudoeste: É verdade que você tinha um trenzinho que promovia passeios para crianças? Como era isto?
Vanderlei Rodrigues:  Sim. Durante essa fase, entre morar em Passos e voltar para Paraíso, eu fiz um trenzinho que promovia esses passeios com as crianças. Era um trabalho que eu fazia entre esses intervalos de vendas de carros e trabalhos na concessionária. Acontecia nos finais de semana e foram quatros anos fazendo esse trabalho em Paraíso e região. Foi uma experiência fantástica, apesar dos riscos que a gente corria, porque a criança não tem muita noção do perigo. Era muito gostoso ver a alegria deles em passear em algo tão simples. Eu prestava muitos serviços para as escolas com a programação desses passeios e em cidades da região também. Isso aconteceu entre 1998 e 2001 e depois eu vendi esse trenzinho para um rapaz de Campinas, porque era um trabalho que já não estava sendo muito rentável e as despesas começaram a pesar.

 

Jornal do Sudoeste: E como nasceu a Banca da Abadia?
Vanderlei Rodrigues:  Quando vendi esse trenzinho, fiquei um período parado, não queria mais trabalhar no ramo de veículos, foi quando eu montei a Banca da Abadia, em  2004. Era final da gestão da prefeita Marilda Melles. O que me levou a montar a banca foi a necessidade, porque eu já estava um período parado e precisava fazer alguma coisa. Então decidi trabalhar com isso, até meados deste mês, quando optei parar. Na época não houve nenhum tipo de restrição. A gestão foi muito positiva com relação a isto, principalmente a Marilda, o Antônio Carlos e o Toninho Picirilo. Inclusive, quando procurei o Picirilo para solicitar apoio, ele foi muito solícito, foi um processo rápido e logo me concederam o alvará para atuação.

 

Jornal do Sudoeste: Você foi pego de surpresa com a notícia de que para continuar a atuar, precisaria pagar aluguel daquele espaço para a Prefeitura?
Vanderlei Rodrigues: Não. Isso porque já havíamos sido alertados em 2015 pela gestão anterior, que comunicou que havia uma exigência do Ministério Público para que se cumprisse a lei e que esses espaços públicos fossem licitados. Houve esse comunicado e tentaram buscar uma solução, através da Câmara criaram um mecanismo para que continuássemos trabalhando e assim ficamos em 2015 e 2016. Nesse ano fomos convidados novamente a ir a Prefeitura, onde fomos comunicados que essa lei teria que ser cumprida, mas o valor estipulado, no meu caso, era muito alto.

 

Jornal do Sudoeste: A banca já não estava sendo mais rentável?
Vanderlei Rodrigues: Não. Isso porque a mídia, hoje, consumiu o nosso mercado, nós encolhemos e eu já estava preocupado com o que eu faria para permanecer nesse ramo. Eu tenho algumas condições físicas que vieram se agravando e eu não entrei na licitação por considera esse valor alto e isso faria com que eu trabalhasse mais, prejudicando mais a minha saúde. Então, decidi recorrer ao afastamento pelo INSS e posteriormente a aposentadoria. Meu ganho na banca, com relação ao que o INSS estava me pagando, era muito pouco, e apesar de ser um pouco mais abaixo, minha qualidade de vida seria melhor.

 

Jornal do Sudoeste: Não foi uma decisão impensada?
Vanderlei Rodrigues: Não. Eles me autorizam a passar o ponto para outra pessoa. Quando eu anuncie que iria fechar, recebi a proposta para continuar, que o valor seria menor, mas eu já tinha buscado outro caminho. Além do que o mercado editorial está automaticamente diminuindo. Há oito anos, a Abril nos enviou um comunicado  que havia entrado em contato com as editoras para diminuírem os títulos de revistas e ir para o seguimento online.  Eu já estava preocupado com essa situação. Não foi a Prefeitura e a polêmica toda envolvendo esse processo de licitação que me levaram a fechar a Banca, eu fui conduzido para este caminho, foi uma decisão minha.

 

Jornal do Sudoeste: Foram 13 anos, o que pode dizer dessa experiência?
Vanderlei Rodrigues:  Foi a melhor experiência que eu tive na minha vida. O meu crescimento como pessoa dentro daquele ambiente foi fantástico. Foi uma experiência que dinheiro e nada na vida pode comprar.

 

Jornal do Sudoeste: Parece que você ama os animais também, não é mesmo?
Vanderlei Rodrigues:   É interessante, depois que fechei a Banca as pessoas começaram a me perguntar dos cachorros. Estamos todos sincronizados, não tem nada fora do lugar e se olharmos o cachorro, a natureza e mudar essa visão materialista que temos do mundo, nós iremos aprender muito. Eu aprendi muito com aqueles animais, eles nos ensinam a viver, é impressionante, mas é preciso mudar o olhar e o jeito de ver as coisas, por isso eu digo que aquele espaço me trouxe todo esse conhecimento e esses animais me trouxeram um conhecimento que não tem nos livros, é algo que você não encontra na literatura.

 

Jornal do Sudoeste: Você tem uma maneira bonita de encarar a vida...
Vanderlei Rodrigues:  Eu não acredito no acaso, há um sincronismo na vida. Nós estamos todos conec-tados e tudo ocorre de acordo com o que a gente vai trabalhando e eu adquiri uma capacidade interessante, por exemplo, quando surge o problema eu consigo me afastar e ver as possibilidades. O passado para mim é aprendizado, ele não me traz sofrimento, tristeza, não tem nada que me afeta, ele fica lá e quando eu preciso eu busco esse conhecimento e vamos para frente. Às vezes as pessoas me questionam porque eu fechei a banca, que estaria perdendo e, materialmente, nós estamos acostumados a pensar assim. Mas sentimentalmente falando não perdi nada, ganhei muito. Espero do fundo do meu coração que a pessoa que adquirir a banca seja tão feliz quanto eu fui possa crescer como eu cresci. Eu ainda vou lá tratar da Lobinha (cachorra), passaram muitos animais por lá, como na vida da gente passam muitas pessoas que vem, você aprende, ensina e segue.

 

Jornal do Sudoeste: Qual o balanço que você faz desses 59 anos de vida?
Vanderlei Rodrigues:  Eu estou de bem com a vida. Para mim a vida tem um significado que é difícil expressar verbalmente, porque estamos habituados com a teoria, mas quando você sente a vida pulsar em você, você entende a magnitude que é a vida. Eu consegui aprender, sentir e perceber a vida trabalhando naqueles 10 metros quadrados todos os dias, essa é a grandiosidade. É importante o bem material, sim, mas nós somos apenas fiel depositário dele, nada aqui nos pertence. Saber sentir a vida é o que nos torna humanos.

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