A Janela

Por: Ely VIeitez Lisboa | Editoria: cultura | 07/03/2017 | Visualizações: 46

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Há textos inesquecíveis. Difícil saber por que nos conquistam. Um deles é a história do judeu pretensamente egoísta, que, no Hospital, jamais cedeu seu lugar perto da janela. Desconheço o autor. Ficção? Fato real?

O velho judeu tinha seu leito próximo à janela. De lá, descrevia aos doentes do grande Pavilhão, o que se descortinava ao longe. Céu azul, jardins, crianças brincando, flores, um lago translúcido. Encantava a todos com suas belas descrições, dava alento aos companheiros. Era um manancial de esperança que alimentava os doentes.

Todos invejavam o privilégio do velho sovina. Ele não abria mão de seu lugar junto à janela. Tornou-se odiado. Era um egoísta, um monstro. Experimentaram convencê-lo de todas as maneiras. Subornar com dinheiro, citar que todos tinham direito à cama de onde se podia ver lá fora. O velho era incorruptível.

Depois de muitos anos, ele morreu. As críticas, os impropérios surgiram na boca de todos. De que adiantara a teimosia? Bem feito! Ele não sabia que todos são mortais? Agora deveria estar amargando por sua maldade e egoísmo, de nunca ter deixado alguém usufruir de tantas belezas.

Sorteou-se a cama com lugar tão especial. O felizardo mudou-se para lá, jubiloso. Todos se prepararam para o grande momento. Ele se deitou e pediu que a janela fosse aberta. Quando o novo dono da janela olhou para fora, abismou-se. À sua frente havia um enorme muro cinzento, esburacado, que vedava toda sua visão. 

Entendeu-se, então, a grande alma do velho judeu. Reunidos no Pavilhão do Hospital, eles eram reféns da doença e da dor. O nosso herói deu, então, asas à sua imaginação e criatividade, criando um mundo paralelo diferente da realidade trágica. Lá só existiam belezas e vida. E ele não quis sonhar sozinho, mas partilhou sua alma poética com os outros infelizes. 

Quando li o texto, lembrei-me da letra de um música do excelente Raul Seixas: "Sonho que se sonha só / é só um sonho que se sonha só / Mas sonho que se sonha junto é realidade". É impressionante a analogia dos pensamentos de quem escreveu o texto e do letrista poeta. Sonho sozinho é ficção, é apenas uma válvula de escape, é fuga. Todo sonho que se sonha junto, cresce, universaliza-se.

Analisando ainda as temáticas várias detectadas da afirmação poética, chega-se aos grandes sonhos, como os de liberdade. Um herói pode contagiar todo um povo. Às vezes, é ao contrário. Surge um sonho de um povo e este estimula a alma de um líder. É assim que surgem os grandes heróis. 

Em uma visão macroscópica, lembro-me de Cristo, que em suas costas carregou todos os ideais do Cristianismo e foi imolado como o Divino Cordeiro. A pergunta é se Ele optou pela grandiosa missão, ou simplesmente aceitou-a, por amor aos pecadores. Procurar a resposta é entrar em terreno perigoso. 

Todas estas elucubrações enxameiam-me a cabeça. E tudo porque li o texto do velho judeu e sua janela mágica.

(*) Ely Vieitez Lisboa é escritora

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