ELY VIEITEZ LISBOA

Pecado Grave

Por: Ely VIeitez Lisboa | Editoria: cultura | 07/10/2017 | Visualizações: 59

- Foto de Reprodução

Há algum tempo tentou-se atualizar os sete pecados capitais. Muitas foram as mudanças e enfatizou-se que o mais grave é o acomodamento, a omissão. Ora, o conceito de pecado é complexo, há religiões que negam sua existência. Em um livro de um grande teólogo, ele termina suas reflexões com uma frase sábia: O único pecado é cortar relação com Deus. 
Aprofundar a interpretação da assertiva acima não é fácil. Todavia, é certo: a omissão é um dos exemplos vivos do perigo de violentar nosso relacionamento com a bondade, com tudo que é digno, generoso, altruísta, excelso. 
Numa tarde chuvosa, na periferia de Ribeirão Preto, senti grande tristeza. Cometi esse pecado abominável. Ao fazer a curva, diante de uma casa simples, estava o cachorro. Para surpresa minha, era um labrador cor de chocolate, de olhos claros. Magro, sujo, costelas à mostra. Parei e reparei nele. Havia beleza e dignidade ainda no seu focinho meio quadrado, bonito. O olhar era uma imensa tristeza, sem nenhuma esperança. Percebi, então, que seus membros traseiros estavam meio comprometidos. 
Eu lera sobre displasia da anca, uma doença que foi descrita em 1935, típica nas raças pastor alemão e labrador retriever. O principal sintoma é que o cão começa a claudicar. Não é doença hereditária e nem congênita: o cão não nasce com displasia, mas ela pode surgir devido a influências de fatores ambientais, alimentares e excesso de exercício.
Aquele cão triste, infeliz e doente, parecia sofrer muito. Olhamo-nos, senti-me misérrima diante dele, mas não desci do carro. Era quase noite e quando cheguei em casa experimentei a pior das sensações: remorso, culpa, falimento. Eu vira a dor, o sofrimento e nada fizera. Fui omissa, covarde. Vontade de sair e voltar lá, acolher o cão doente, levá-lo a um veterinário. Mas, por Deus, não conhecia aquele bairro tortuoso, cheio de ruas estreitas. Eu nem mesmo saberia localizar o cão. A prova disso é que não conseguira achar o endereço no Parque Industrial.
Foi uma noite de pesadelos. Sartre disse que o inferno são os outros, denunciando a falta de comunicação, a dificuldade de aceitar o outro, de entendê-lo e respeitá-lo. Tentei jogar a culpa no dono do pobre cachorro. Que os céus o castigassem como a todos que têm um animal e não cuidam dele.
Na verdade, era um subterfúgio, uma tentativa para punir a verdadeira culpada: eu. A omissa, a alienada, a desalmada, a detestável criatura que vê um cão cor de chocolate, de olhos claros, doente, sofredor e nada faz. Abominei-me. Tentei consolar-me, indo ver minhas cadelinhas labradoras, da mesma cor e de belos olhos verdes. Quando as olhei, alegres, sadias, roliças, vacinadas, muito bem alimentadas com uma das melhores rações, foi pior. Chorei no maior desalento. Elas, compreensivas, doces e sempre amorosas, lamberam-me as mãos. Pareciam me dizer: Não sofra. Os seres humanos são mesmo falhos.
Agora é madrugada e o sono não vem. Sim. Realmente o maior dos pecados é a omissão. Livrai-nos dela, Senhor.


(*) Ely Vieitez Lisboa é escritora.
E-mail: elyvieitez@uol.com.br

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