ELY VIEITEZ LISBOA

ENCONTROS

Por: Ely VIeitez Lisboa | Editoria: cultura | 20/11/2017 | Visualizações: 3706

- Foto de Reprodução

ENCONTRO I
Na tarde de novembro, ela veio vindo no passeio, meio distraída. Quando me viu, deu um largo sorriso, abriu-me os braços, jubilosa, cheia de carinho. O abraço foi longo, terno. Quem estava ali? Não mais a menina de quinze anos, do Colégio Santos Dumont, mas a mulher vivida, que optou por seus caminhos. Professora de esperanto. Como a essência de ninguém muda, ela disse: __Bom ver você. É uma enxurrada de lembranças.  Meio irônica, retruquei que o termo era pejorativo. Enxurrada conota coisas ruins. Ela riu abertamente e corrigiu com inteligência: rio, manancial, aluvião, alude, avalanche... Ela sempre foi excelente aluna de português.  Conversamos muito. Quando nos despedimos, a vida parecia mais rica.


ENCONTRO II
Às vezes, o encontro entristece a tarde, turva a alma. Ainda mais quando ele é cheio de mistério. Foi defronte as Lojas Americanas. Eu o vi caminhando em minha direção. Quanto tempo não o via? Vinte anos? O que acontecera? Ele era um jovem sonhador e idealista, presidente do grêmio estudantil, sempre rodeado de meninas bonitas, interessadas nele. Mal vestido, meio calvo, mais velho, junto a uma mulher grávida, feia, desajeitada. Quando ele me viu, cortou caminho, desviou-se para a esquerda, evitando-me. Com quem ele não queria encontrar? Comigo ou com sua vida que poderia ter sido e não foi? Que concessões, erros, opções trágicas o levaram até ali? A tarde perdeu o brilho e fui tomada por enorme tristeza e uma impotência sem remédio.


ENCONTRO III
A vida ensina constantemente. Eu passava pela Amador Bueno, à tarde. Quando vi aquela figura sentada na sarjeta, confesso que me senti mal. Era um homem sem idade, talvez jovem ainda, todo molambos e hematomas. Não fui muito cristã e atravessei a rua, afastando-me. Foi aí, para grande surpresa minha, que ele me cumprimentou, chamando-me pelo nome. Fui até lá. De perto, o quadro era pior. Ele devia ter sido espancado, tinha sangue pisado nos olhos e na face. Perguntei-lhe quem era e o que acontecera. "Fui aluno seu, da turma de 1985. Sou advogado". Contou-me que era usuário de drogas e que não conseguira pagar uma dívida. Penalizada, eu não conseguia sair dali, diante daquela tragédia humana. Ansiosa, balbuciei: "Posso ajudá-lo?". Sua resposta foi uma das mais sofridas lições de grandeza e miséria: "Não. Tenho é que criar vergonha e voltar a ser eu mesmo". Nunca mais o vi, todavia me lembrei do menino bonito e sonhador que ele era. Que estranhos caminhos percorrera antes de mergulhar no abismo?
À noite eu pensava na inexorabilidade do tempo implacável e nas parcas compensações. A vida é efêmera e dá sábias lições. Algumas são tão contundentes, que assustam. Só não se pode ignorá-las, porque seria errar duas vezes.  


(*) Ely Vieitez Lisboa é escritora.
E-mail: elyvieitez@uol.com.br

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