CRÔNICA HISTÓRICA DE SÃO SEBASTIÃO DO PARAÍSO:

Festa da abolição da escravatura

Por: Luiz Carlos Pais | Editoria: cidades | 22/11/2017 | Visualizações: 4302

- Foto de Reprodução

 


O dia 20 de novembro está no calendário nacional para incentivar iniciativas que possam contribuir na comemoração da consciência negra. Não basta decretar mais um feriado para superar as marcas profundas deixadas por quase quatro séculos de escravatura. Para piorar, com a perigosa guinada política para a direita que acontece, atualmente, em diversos países da Europa e nos Estados Unidos, corre-se o risco de haver um retrocesso no campo das políticas públicas instituídas para amenizar o prejuízo histórico causado pelo regime de escravidão. Há poucos anos atrás, a data foi criada para rememorar a história, iniciada ainda no século XVI, quando chegaram os primeiros escravos africanos. É uma reverência à memória do líder Zumbi dos Palmares e motiva mais um tema de fundamental importância política e social se pretendermos superar os desafios para repensar rumos plausíveis para o nosso Brasil. 
Em artigo de opinião publicado aqui no Jornal do Sudoeste, no ano passado, mencionei as forças conservadoras, dos meados da década de 1930, quando tentavam impedir o funcionamento dos núcleos da Frente Negra Brasileira, em diversas cidades do interior do Brasil. Seguindo essa mesma linha de entendimento e procurando aprender um pouco com a história, esta crônica descreve detalhes da festa da abolição da escravatura, realizada em São Sebastião do Paraíso, há 130 anos. 
Alguns dias após a assinatura da chamada Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, que extinguiu a escravidão no Brasil, um jornal de Itajubá, Sul de Minas, noticiou a realização da Festa da Liberdade, no importante polo da cafeicultura do Sudoeste Mineiro. No município havia uma expressiva quantidade de escravos africanos que trabalharam na abertura das primeiras grandes fazendas de café, na fase anterior à chegada dos primeiros imigrantes europeu, os quais assinavam contratos de trabalho com base no chamado sistema de colônias. A fonte da notícia acima mencionada foi uma carta escrita por um morador não identificado da mesma cidade, datada de 20 de maio, uma semana após o grande evento de libertação dos escravos. Para contribuir na preservação da memória regional transcrevo a seguir a íntegra da publicação:
“De um nosso amigo de São Sebastião do Paraíso recebemos a seguinte carta, datada de 20 do corrente mês [maio de 1888]: Escrevo-lhe esta carta ainda sob as impressões dos festejos hoje aqui havidos pela sanção da lei número 3353 [Lei Áurea, de 13 de maio de 1888] Houve missa cantada e Te-Deum pelo reve-rendíssimo Cônego Tho-maz de Affonseca e Silva, vigário da paróquia. Findo o Te-Deum seguiu em passeio por todas as ruas da cidade, um préstito de mais de duas mil pessoas, precedidas por uma banda de música. Em diversos pontos da cidade falaram os seguintes senhores: Cônego Thomaz de Affonseca e Silva, capitão José Aureliano de Paiva Coutinho, Alfredo Serra, primeiro tabelião Jo-sé Luiz Campos do Amaral do Júnior, Dr. Cláudio Herculano Duarte, José Mar-tins de Carvalho, Dr. Placi-dino Brigagão e Dr. Francisco Soares Neto. Terminaram os festejos falando, na porta da Matriz, o Dr. Placi-dino Brigagão. À noite houve um baile na câmara municipal. 
Na frente do préstito seguia um ex-escravo conduzindo uma bandeira com o dístico “Viva a Liberdade” e ao redor do mesmo acompanhavam mais de 600 escravos libertos pela referida. Foi uma festa impressionante. Dê na sua apreciada “A Verdade”, essa notícia. “
Semelhantes comemorações foram realizadas em outras cidades. No referido jornal consta que houve festa em Pouso Alegre, Itajubá, entre outras do Sul de Minas. 

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