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Vanessa Takahashi: a música como mudança de realidade das crianças

"A educação não muda o mundo, ela muda as pessoas e as pessoas mudam o mundo"

Por: João Oliveira | Editoria: entretenimento | 04/12/2017 | Visualizações: 3663

Vanessa é coordenadora pedagógica na Secretaria Municipal de Educação e professora de educação musical na Escola Municipal Ibrantina Amaral - Foto de Reprodução

A musicista Vanessa Takahashi, de 37 anos, é uma mãe e professora dedicada que enxerga na música não uma ferramenta de transformação, mas uma área de conhecimento que pode ajudar, e muito, no desenvolvimento das habilidades dos jovens com quem trabalha. Filha do descedente direto de japoneses, José Carlos Takahashi, e de Maria de Fátima Takahashi, Vanessa é a filha mais velha do casal e é irmã de Priscila e Larissa. É mãe de três meninas, frutos de seu primeiro relacionamento, as pequenas  Letícia, a Luana e Laila, e é casada com Stênio. Hoje, Vanessa divide seu tempo entre a Escola Municipal Ibrantina Amaral e a coordenação pedagógica na Secretaria Municipal de Educação. É com sorriso sereno e jeito meigo que essa apaixonada pela educação e pela música conta um pouco da sua vida.


Jornal do Sudoeste: Apesar da descendência, você e sua família são de Paraíso?
Vanessa Takahashi: Sim, somos de Paraíso, mas também passamos parte da vida em Cássia, onde meu pai tinha comércio, então ficávamos entre aqui e lá. Minha infância foi muito boa, passei com meu pai. Não tinha nenhum músico na nossa família, mas eu sempre demonstrei esse lado meio artístico. Eu tive uma infância muito simples, meus pais não tinham dinheiro, mas sempre incentivaram esse lado lúdico e imaginário, talvez até por essa falta de dinheiro. Eu sempre tive possibilidades de fazer, por exemplo, teatrinho com lençol no varal e chamar os vizinhos para assistir. Meus pais sempre foram muito legais e incentivaram muito esse lado artístico.


Jornal do Sudoeste: Como foi sua formação acadêmica?
Vanessa Takahashi: Eu estudei parte em Cássia e parte em Paraíso. Música eu estudei em Ribeirão Preto, no Conservatório Villa Lobos. Eu não precisei ir embora daqui para estudar, porque o conservatório dá a possibilidade de estudar um dia todo lá e o restante da semana aqui. Eu tive essa oportunidade de poder estar indo e voltando. Tinha muitas apresentações, mas não era nada que eu precisasse me mudar para Ribeirão. Já a faculdade de pedagogia eu fiz aqui em Paraíso, na Calafiori. 


Jornal do Sudoeste: Quando você começou a trabalhar com música?
Vanessa Takahashi: Comecei a trabalhar com música na escola em 2005, foi quando eu comecei a ter contato com esse universo pedagógico, apesar de já ter feito magistério. Porém, quando entrei na escola eu comecei a querer a entender mais como é que a música poderia estar ajudando as crianças de fato, ao invés de ser apenas um entretenimento, foi quando eu decidi procurar a pedagogia e entender as fases de desenvolvimento da criança e como a música poderia vir a ajudar esses alunos.


Jornal do Sudoeste: Hoje a educação musical é uma disciplina nas escolas?
Vanessa Takahashi: Existe uma lei de 2008 que aborda a questão da música na escola, se bem que ela sempre foi e voltou ao sistema de ensino. À época de Heitor Villa Lobos, lá em 1930, a música estava na grade de ensino, depois saiu e mesmo hoje ainda é uma questão polêmica. Há várias possibilidades de se estar trabalhando, mas ainda não é obrigatório, mas pode estar dentro da escola como conteúdo dentro da disciplina "Arte". Entretanto, em Paraíso, nós temos a possibilidade de trabalhar como disciplina, mas isso é devido aos governantes. Aqui em Paraíso, há cerca de 14 anos, a música está na rede e vem sofrendo transformações. Como disciplina é estudada há 6 anos. No começo era um projeto, alunos estudavam de manhã e voltavam a tarde para fazer as aulas e quem estudava a tarde ia à escola de manhã. Havia essa lei e a Secretaria de Educação à época achou uma brecha e conseguiu colocar na grade, então hoje trabalhamos artes com ênfase em Música.


Jornal do Sudoeste: Qual a sua especialidade dentro da música?
Vanessa Takahashi: Minha formação é Canto, mas para ser músico sempre temos que entender um pouco de outras coisas. No início eu comecei estudando piano, foi quando entrei em uma banda, à época o vocalista tinha saído, precisavam de alguém e eu assumi, foi quando eu peguei gosto e optei pelo estudo do Canto e teclado como instrumento complementar. No conservatório temos contato com prática de orquestra e acabamos aprendendo outras coisas também.


Jornal do Sudoeste: A música é importante para o desenvolvimento da criança?
Vanessa Takahashi: É bem complexo. Antigamente, dentro da educação, acreditava-se que a música era uma ferramenta de auxílio no aprendizado, que ajudava no português, na matemática, nas ciências, porém, hoje sabemos que a música é uma área de conhecimento, então desenvolve inúmeras habilidades, entre elas orientação espacial, orientação temporal, organização; enfim, várias habilidades não sendo como uma ferramenta de auxilio, mas uma área de conhecimento.


Jornal do Sudoeste: Durante esse tempo trabalhando com crianças, existe alguma história que tenha te marcado?
Vanessa Takahashi:  Uma história que me marcou bastante foi um projeto que desenvolvi na escola onde trabalho, à época ainda não trabalhava na coordenação da Secretaria Municipal de Educação. Esse projeto trabalhou a história contada através da música. Nós começamos resgatando Chiquinha Gonzaga, Noel Rosa, e essa foi uma maneira diferente de trabalhar repertório e a própria cultura, porque sabemos que hoje em dia as crianças têm acesso a um repertório musical muito pobre, tanto em vocabulário, quanto em ritmo. Hoje as pessoas criticam muito o funk, por exemplo, mas e o funk na essência? Isso cabe a educação musical, mostrar a essência desses gêneros musicais e mostrar que não é somente isso que tem hoje, e é algo que a criança não tem acesso. E como as crianças são muito receptivas, buscamos levar sempre algo diferente para elas, foi um projeto que me chamou muita atenção.


Jornal do Sudoeste: Você tem algum músico ou compositor favorito?
Vanessa Takahashi: Eu gosto muito de Tom Jobim, amo de coração. Mas eu gosto muito de Raul Seixas também, talvez seria uma mistura, porque amo a harmonia que Jobim conseguia tirar da música, ou colocar, não sei se poderia dizer dessa forma, mas quando você trabalha com música nós acabamos desenvolvendo esse senso crítico. Eu gosto muito do Raul também; certa vez li em algum lugar uma frase dele que dizia que ele era tão bom ator que acreditavam quando se dizia cantor. Essa é uma frase que eu gosto muito; então tudo o que ele compôs é muito nossa realidade e o que vivemos hoje. Eu tento passar para nossos alunos, para que eles possam ver além do que está escrito porque a música tem esse poder.


Jornal do Sudoeste: Você também esteve envolvida com o Hino à Paraíso interpretado pelos alunos do Ibrantina, não?
Vanessa Takahashi: Sim. O Hino foi um susto, nós não imaginávamos que teria uma repercussão tão grande. A ideia era valorizar e resgatar o patriotismo e o hino, que às vezes fica um pouco esquecido, queríamos resgatar isso tudo. Foi uma iniciativa da comunicação da prefeitura, que fez a proposta e compramos a ideia na escola. Foi um susto todo o resultado. Para as crianças foi muito melhor que para nós, porque eles saíram daquele cotidiano, gravaram o hino, cada um cantou em um ponto diferente da cidade e enquanto um gravava, os outros ficaram torcendo, porque queriam que ficasse bom. Eles tiveram a oportunidade de conhecer um estúdio de gravação; essa vivência para eles foi inesquecível. Eu penso que isso contribui até para a formação do futuro cidadão, porque um dia eles vão lembrar daquilo que fizeram.


Jornal do Sudoeste: Esse trabalho também ajuda na questão da interpretação de texto, não?
Vanessa Takahashi: Sim. Nós trabalhamos muito também a questão da letra, o que eles estão falando, isso vai ajudar diretamente no letramento da criança. Hoje nós vemos muito o leitor funcional, que lê, mas não interpreta, não reivindica e apenas aceita tudo. Eu acho que a música contribui muito para isso, a interpretação do hino para a criança o faz entender o que ela está falando da sua cidade; essa coerência a música contribui muito.


Jornal do Sudoeste: A música pode mudar na mudança da realidade social?
Vanessa Takahashi: Sem dúvida. Eu acredito que sim, à medida que você entende o que está vivendo. Se cada um se conscientizasse do seu direito, do seu dever, ele poderá reivindicar mais e talvez não ir para um mau caminho. Hoje em dia, tudo caminha muito para isso, vivemos em um país de terceiro mundo, é muito difícil sair da sua realidade, mas eu acredito que isso é possível. Acredito, sinceramente, que a música tem o poder de mudar a realidade.


Jornal do Sudoeste: Como você avalia a educação no Brasil hoje?
Vanessa Takahashi: A educação ainda é mal vista. Hoje, qualquer curso para forma professor é feito à distância, a exemplo do curso de música, se você quer ser bacharel ou fazer licenciatura, sempre a licenciatura é mais barato, e às vezes a pessoa segue por esse caminho por falta de opção, infelizmente é assim. Existe a Ordem dos Advogados do Brasil, que para fazer parte, além de estudar cinco anos para se formar em Direito você ainda tem que fazer uma prova muito difícil para fazer parte da OAB, tudo é muito complexo e para ser professor não é assim e em muitos lugares do Brasil nem exige o Ensino Superior. É complicada a situação no país e vemos que isso vem de cima. Pensemos nessa reformulação do Ensino Médio, o que ainda é ensinado na escola... lembro muito da fala dos meus professores na faculdade que diziam "isso você precisar para dar aula", "isso para passar no concurso", então, às vezes a criança sabe fazer uma conta complexa, mas não sabe ir no mercado pagar e receber um troco... A educação ainda é desestruturada, mas acredito que o que faz a diferença é o profissional, a gente não muda o mundo, mas nós podemos mudar a gente mesmo, se cada um fazer o seu o todo vai melhorar.


Jornal do Sudoeste: Você já se imaginou trabalhando com em qualquer outra área?
Vanessa Takahashi: Não. Se eu não tivesse na educação musical, com certeza eu estaria em outro ramo da educação. Dizer que é fácil, não é. Tem dias que queremos desistir, porque presenciamos situações que nos faz pensar em querer mudar de área, vemos tantos professores ficando doentes, muitas doenças autoimunes, doenças que mexem com o sistema nervoso e psicológico... Ficar em uma sala de aula não é fácil e lidar com todo esse contexto escolar também, mas eu acredito no trabalho.  Para o professor tudo tem que ser muito planejado, temos que estudar bastante e se dedicar muito, e além de se dedicar na escola, também em casa.


Jornal do Sudoeste: Falta a valorização do profissional?
Vanessa Takahashi: Da sociedade talvez não tenhamos muito valor, o valorização mesmo vem do aluno. Todas as vezes que você entra em sala e vê que eles querem aquela aula, que a aula os motiva e que quando pedimos para eles chegarem no horário cumprem isso, ou que querem ficar o dia todo na escola, esse é o pagamento, pois nós vemos que não é ruim para eles, e quando não é ruim para eles, para mim é meu pagamento. É algo que dinheiro não paga. Estou há muitos anos nesse meio e ver algum aluno de destacando, independente se é na música ou não, é muito gratificante.


Jornal do Sudoeste: Você também é mãe...
Vanessa Takahashi: Filho de professor sofre mais, porque você sempre o busca por último, não pode colocar em destaque caso dê aula para ele, mas estudar pedagogia fez toda a diferença ao me ajudar a entender as fases dos desenvolvimentos pelas quais elas estão passando, então é bom e ruim ao mesmo, é difícil, mas eu ainda prefiro participar efetivamente na criação delas, porque as três passaram lá pela escola e ver isso de perto é bom, como poder conciliar as férias também é. Tem o lado positivo e negativo, mas é bom ser professor porque você entende melhor o seu filho.


Jornal do Sudoeste: Qual o balanço que você faz desses 37 anos?
Vanessa Takahashi: Passando tudo pelo que passei, vivendo tudo o que já vivi, não foi fácil; fiz faculdade quando minhas filhas já tinham nascido e tive que levá-las para a faculdade, não era fácil... Acredito que não conseguimos separar muito quem nós somos no pessoal do profissional, querendo ou não, eu não consigo, eu sou tudo o tempo todo e eu não conseguiria fazer outra coisa que não ser professora e estar relacionada diretamente com a música, tanto na educação, quanto nos finais de semana. Eu acho que já nasci assim: professora, musicista e mãe. Eu não sou muito de fazer planos, mas quero continuar contribuindo com a educação e acredito que a música seja o melhor caminho para atingir isso, não sei outra maneira de fazê-lo. A educação é base de tudo, como fiz Paulo Freire: "A educação não muda o mundo, ela muda as pessoas e as pessoas mudam o mundo".

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