ELY VIEITEZ LISBOA

Negrinha

Por: Ely VIeitez Lisboa | Editoria: cultura | 02/12/2017 | Visualizações: 668

- Foto de Reprodução

Negrinha foi o meu primeiro grande amor. Aos cinco anos, eu ficava defronte o armazém de meu pai, na pequena cidade de Pratápolis, sentada, à espera de um milagre.
Ele veio. Quando nossos olhos se encontraram, deu-se o mistério. Comecei a amar aquela cachorrinha com toda minh'alma. E ela entendeu. Veio lamber-me a mãos, o rosto. Ela, com seus doces olhos castanhos. 
Seu dono era um monstro. Não lhe dava comida, chutava-a com brutalidade. Logo eu a conquistei com meus mimos, as guloseimas e carinhos. A vida ficou mais rica e mais bela.
Um dia o Monstro bestial levou-a embora, para Cássia, cidade a uns vinte quilômetros dali. Quase morri de tristeza. Descobri, cedo, que a vida podia ser cruel. Mas surpresa! Dali uns dias, Negrinha chegou na minha casa, cordinha arrebentada no pescoço, com sede, magrinha, com as patinhas machucadas pela longa caminhada. 
Abraceia chorando de alegria, beijando meu grande tesouro. Meu pai, espanhol bravo e resolvido, prometeu: Nunca mais ela será tirada de você.  Quando o dono maldito apareceu, meu pai lhe deu dinheiro e avisou: A cachorra agora é da menina! O desgraçado pegou o dinheiro e saiu xingando. 
Nosso amor foi longo e duradouro. Deu-nos lindos filhotes, era educada e doce. Quando moramos na fazenda Morro do Ferro, ela dormia no rabo do fogão à lenha, tomando conta do grande bolo de fubá. Nunca tocou nele, apesar de gostar muito daquela maravilha marrom, doirada por dentro. Ficava esperando, educadamente, seu pedaço. 
Tinha suas idiossincrasias: quando ia comer seu prato apetitoso de comida, ficava meio de longe, fingindo estar distraída... Quando as galinhas vinham participar do banquete, ela as espantava e eram só penas que voavam! Criaturas doces e angelicais também gostam de brincar.  
Muitos anos depois, quando morávamos no Paraíso, foi ainda com Negrinha, que tive meu primeiro contato com a Morte. Não a sabia tão traiçoeira, inesperada e dolorosa. Eu chegava da Escola, quando vi uma pequena multidão defronte minha casa. Meu coração bateu forte, prenunciando desgraça. 
Na sarjeta, de olhos abertos, inerte, estava Negrinha, morta, atropelada por um bêbado. Havia um filete de sangue escorrendo de sua boquinha. Experimentei, naquele momento,  o gosto da infelicidade, um pesadelo que me acompanhou durante muitos anos. 
Nunca mais me esqueci de minha doce Negrinha, branca e malhada, de olhos grandes e patinhas de veludo. Sei que ela deve estar no Céu dos Animais, sentada à direita de São Francisco de Assis.
(*) Ely Vieitez Lisboa é escritora.
E-mail: elyvieitez@uol.com.br

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