CRÔNICA - Joel Cintra Borges

O anjo azul

Por: Joel Cintra Borges | Editoria: cidades | 09/12/2017 | Visualizações: 853

- Foto de Reprodução

Era professor em uma escola de Berlim. Sistemático, meticuloso, exigente. De manhã, quando passava rumo à Faculdade, as pessoas conferiam seus relógios:
-  São seis e trinta.
-  Já?
-  Olha o professor passando...
No ensino e no recesso do lar, era sempre aquela figura austera, que não admitia falhas e nem fraquezas. A bem da verdade, nem parecia feito de carne, mas de pedra.
Eis que um problema começa a surgir em suas aulas: estudantes desatentos, sonolentos e faltosos. Após breve investigação, fica sabendo que chegara uma dançarina nova, muito bonita, para a boate do bairro, e quase todos os seus alunos estavam atraídos por ela.
Resolve, então, ir uma noite à tal casa noturna, para conhecer a jovem e assim ter mais condições de orientar seus pupilos.
Acomodado em uma mesa próxima ao palco, pede uma bebida suave e espera, superior, invulnerável, atrás do escudo de seu autocontrole, de sua filosofia, de seus conhecimentos...
Ao abrir-se o palco, no entanto, não aparece o dragão que Dom Quixote esperava, e sim uma moça pequena, graciosa e de grande beleza, trajando roupas azuis. Um anjo, um anjo azul.
E dança como Salomé, sensual, insinuante, prometendo todas as delícias do céu... e todos os tormentos do inferno!
E ele ali, sentindo seu perfume, tão próximo que poderia tocá-la. De vez em quando lhe vinha a furtiva ideia de que está cometendo um erro. E que o melhor que faria era levantar-se e ir embora, sem nem mesmo olhar para trás, sob pena de ser transformado em estátua de sal, como acontecera com a esposa de Ló, ao deixar a cidade de Sodoma...
Mas, foi adiando a decisão, com a desculpa de esperar apenas o término do espetáculo. Afinal, o que havia para temer? Não era um garoto como aqueles que a dançarina conquistara, mas uma pessoa adulta, um homem de princípios.
Finda a apresentação, ela agradece os aplausos, olha para os lados, aparentemente escolhendo onde ficar, e (será que queria medir forças com ele?) senta-se ao seu lado. Então, olha bem dentro de seus olhos e pede-lhe uma bebida.
Só nessa hora o erudito professor percebe o perigo a que se expusera. Seu coração dispara e mil vezes ensaia para correr até à saída. No entanto, parece que está pregado ali, como um mosquito na teia da aranha.
E começa o jogo do gato com o rato. E não é difícil saber quem é o gato e quem é o rato...
O final, os entendidos de cinema conhecem bem, porque esse é o enredo do célebre filme "O anjo azul", que tanto sucesso fez décadas atrás.
Os que não conhecem a história, certamente já adivinharam: o feitiço vira contra o feiticeiro e o mestre fica mais apaixonado que o mais tolo de seus alunos, desarticulando-se completamente.
Costumamos ensinar às crianças a não brincar com fogo, mas com frequência fazemos isso, acabando por queimar-nos...!

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