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Tchê: Um gaúcho batalhador que conquistou seu espaço em Paraíso

Por: João Oliveira | Editoria: entretenimento | 30/12/2017 | Visualizações: 17957

Alfeu é proprietário da "Esquina do Tchê", no cruzamento da Ângelo Calariori com a Delfim Moreira - Foto de João Oliveira/Jornal do Sudoeste

O gaúcho Alfeu Lopes de Miranda, o Tchê, é um batalhador que conseguiu vencer na vida graças a muito trabalho e sempre fiel à educação que recebeu dos pais, o senhor Arquibal Lopes de Miranda, falecido quando ele tinha apenas sete anos e da dona Ana Maria Camargo de Miranda, falecida nos idos de 1995. Alfeu viveu na zona rural no município de Nova Alvorada até os 18 anos, quando decidiu deixar aquela vida para trás e tentar a sorte em São João da Boa Vista, estado de São Paulo, e depois em Paraíso. Aqui, casou-se com Lisete Aparecida e dessa união nasceram o caçula Juliano Alfeu Lopes de Miranda e a primogênita Zuleide Lopes de Miranda. Durante a caminhada, conheceu pessoas muito boas e se recorda com carinho de Sebastião Alves Medeiros e sua esposa Alzira, que o ajudaram muito quando ele chegou a Paraíso e ainda não conhecia ninguém. De origem humilde, Tchê nunca esqueceu suas raízes e é agradecido a Deus que ele compartilha sua história de muita luta ao longo desses mais de 30 anos em Paraíso, terra onde conquistou o seu espaço e não pretende deixar nunca mais.


Jornal do Sudoeste: Como você chegou a Paraíso?
Alfeu Lopes de Miranda: Eu cheguei primeiro a São João da Boa Vista (SP). Lá fiquei um ano trabalhando em um posto de combustíveis próximo a rodovia com um irmão, o Sergio, que foi quem me trouxe para cá. Nos idos de 1980 surgiu uma oportunidade de negócio no famoso Posto do Sol e eu vim para Paraíso. Como começou a dar certo, enraizei aqui e por aqui fiquei. Vim para cá solteiro e conheci minha esposa, que é de Aguaí (SP), Lisete Aparecida, em uma romaria para Aparecida do Norte; o nosso primeiro beijo foi na Passarela da Fé (risos), e de lá para cá estamos juntos até hoje. Temos um lindo casal de filhos, uma filha educadora, a Zuleide, e um rapaz, que é mecânico, o Juliano. São meninos de ouro.


Jornal do Sudoeste: Sua mãe foi corajosa e veio com você...
A.L.M.: Sim. Nessa minha trajetória eu tenho um poema que carrego comigo: "quando eu deixei o Rio Grande; no peito senti uma dor, deixei a minha vida humilde que eu tinha no interior; deixei a minha velha morada que o pai foi o construtor; há muitos anos já faz que isso eu deixei para trás, mas trouxe comigo um grande amor". Esse grande amor foi a minha mãe. Eu sou o caçula de uma família de nove filhos, e ela deixou toda a família para tentar a sorte aqui comigo. Nós temos uma tradição que o último filho da família fica com os pais, e ela veio comigo e fomos tocando a vida. Sempre tive dúvida se quando eu a perdesse, se ela gostaria de ser sepultada onde nasceu, é uma tradição nossa. Nós conversávamos muito, ela foi pai, mãe, e uma grande amiga, um dia ela me perguntou se eu tinha a intenção de voltar para o Sul e eu disse que não, então ela me falou que queria ser sepultada onde eu estivesse. Eu nunca tive a intenção de voltar para minha terra natal, embora a gente jamais esqueça a querência... porém, já me considero um cidadão paraisense. Conheço mais gente aqui, que conheci lá.


Jornal do Sudoeste: E como era a vida no Sul?
A.L.M.: Meu pai tinha um pequeno sítio, mas era um tempo em que só trabalhávamos no braço, arado de boi e andávamos a cavalo. Eu tive energia elétrica dentro de casa só depois que vim embora para essa região. Morávamos bem no interior, até o acesso para chegar ao sítio era difícil, região de muita montanha e nossa sobrevivência era o plantio e colheita; plantávamos na matraca feijão, soja, criávamos porco e era uma vida bem sofrida, não tínhamos nem banheiro dentro de casa. Eu estudei até a 4º série e para ir à escola tínhamos que andar quatro quilômetros todos os dias. E mamãe sempre esteve ali, era nosso esteio, e quando meu pai faleceu, meus irmãos mais velhos já tinham se casado e ficaram quatro para ela criar, e hoje estão todos bem. Ainda pequenos, a gente chegava da escola e ia para roça ajudar os pais. O fim de semana, para ir a um baile, por exemplo, tínhamos que trabalhar de pião para ganhar um trocado e poder ter uma diversão.


Jornal do Sudoeste: E como você ficou sabendo de Paraíso e veio para cá...
A.L.M.: Há muitos gaúchos que deixaram a terra para vir tentar a vida aqui nesta região. Eu tinha um amigo que à época me propôs comprar um negócio de sociedade ao invés de eu ficar trabalhando de empregado. Falei para o meu irmão que ia tentar esta oportunidade e viemos para cá. Era 1980 e o Restaurante Posto do Sol tinha bastante movimento, apresentação com música ao vivo, foi uma época boa. O negócio foi fluindo, mas os sócios foram desanimando e eu comprei a parte deles e fiquei sozinho. Lá toquei o restaurante por 14 anos e morei em uma casinha que tinha próximo ao posto por cerca de oito; foi onde nasceram meus filhos. Então, construí uma casa aqui em Paraíso, e comecei a ir e voltar todos os dias; foi uma fase bastante sofrida, mas dei a volta por cima, batalhei bastante e consegui dar em vida todo conforto que um filho pode dar para uma mãe.


Jornal do Sudoeste: E você é bastante conhecido aqui...
A.L.M.: Sim. E conheço muita gente também, nunca tive problema com ninguém. Sou um cara bastante calmo e se tem algum problema eu deixo para lá, para viver tem que ser assim. Hoje, agradeço muito a Deus, tenho uma filha educadora, formada e que é um exemplo de pessoa. Meu menino também, desde pequeno trabalhou comigo e hoje é um excelente mecânico. Quando criei meus filhos, na época tínhamos medo, porque já existia bastante coisa errada. Hoje já estão todos encaminhados.


Jornal do Sudoeste: Todos esses anos aqui e você ainda mantém o sotaque...
A.L.M.: Não perdi. Ainda mantenho muito contato com os meus irmãos que ainda estão lá no Rio Grande do Sul, hoje ficou muito fácil a comunicação. Recordo-me que à época que viemos para cá, combinamos com minha mãe de que íamos marcar para conversar com eles por telefone. Mandei uma carta combinando que dentro de 30 dias faríamos isso, porque eles precisavam se deslocar até Nova Alvorada, que à época era um distrito, mas depois foi emancipado. Lembro que nós tínhamos ido ao lado do Banco Itaú, no centro telefônico, para poder ligar e conversar com eles, ficamos muito tempo no telefone. Hoje é muito fácil. Eu tenho um irmão que mora em Marau, pertinho de Passo Fundo (RS) e é difícil o dia que nós não nos falamos.


Jornal do Sudoeste: E como nasceu a "Esquina do Tchê"?
A.L.M.: Quando eu saí do Posto do Sol, eu trabalhei durante quatro anos com revenda de carros em um comércio que ficava na Zezé Amaral. Foi durante esse período que minha mãe faleceu. À época eu tinha um sócio, mas resolvi parar porque eu me adaptava melhor com o comércio alimentício, por lidar mais com o povo e por ser algo menor; trabalhar com automóvel é algo grande, arriscado e muito complicado, por isto decidi parar. Durante esse período nós nos mudamos para a terra dos meus sogros, que já estavam doentes, e ficamos lá por três anos, quando eles faleceram voltamos para Paraíso. Fiquei sabendo que este local (Esquina do Tchê), que era uma pizzaria, estava à venda e negociei com o proprietário, fechamos negócio e desde então já faz 12 anos que estou aqui. Nem propaganda eu fiz à época, coloquei apenas uma faixa "sob nova direção: Tchê". E graças a Deus o nosso trabalho é bem conhecido, é simples, mas bem feito. Temos uma aceitação muito boa do público.


Jornal do Sudoeste: E o senhor entende de cozinha?
A.L.M.: Entendo um pouco e entendo de carne. Aqui trabalhamos em família. Mantenho as nossas tradições, a carne é preparada no sal grosso, a comida não é cheia de temperos, e como nós aprendemos lá.


Jornal do Sudoeste: E o chimarrão...
A.L.M.: Todos os dias. Não pode ficar sem. É um costume típico e desde piá nós já estamos tomando (risos).


Jornal do Sudoeste: O que mais te marcou em Paraíso?
A.L.M.: O que marcou muito foi como eu fui recebido aqui. O povo de Paraíso é muito hospitaleiro, parecido com o povo do Sul. Se é amigo, é amigo, não tem muito falsidade e eu me adaptei bem aqui. Eu vim do interior e nunca tinha morado em cidade, quando cheguei aqui, gostei muito e hoje já não vou mais embora. Aqui conheci muitas pessoas, o monsenhor Hilário batizou a minha filha e você começa a criar um círculo de amizades muito amplo; desde o tempo do Waldir Marcolini, conheço todos os prefeitos que passaram e hoje tem meninos novos que me veem e me chamam e às vezes nem sei direito quem são. É muito bonito!


Jornal do Sudoeste: Você é muito querido pelo pessoal que vem aqui...
A.L.M.: Sim. Faço um trabalho simples, bem feito, respeito a minha clientela, e todos que chegam aqui são bem tratados, não importa a condição social. Somos todos iguais afinal de contas. E eu também não torço contra outros comércios, pelo contrário, acredito que o sol nasceu para todos. Sou uma pessoa muito honesta e graças a Deus ensinei isso para meus filhos; é tão bonito a gente poder conquistar algo com o nosso suor, saber que batalhou por isso. Eu andei até meus 18 anos a cavalo, nunca imaginei que um dia aprenderia a dirigir um automóvel e muito menos possuir um, então, tenho só que agradecer a Deus por todas as minhas conquistas.


Jornal do Sudoeste: Você chegou a retornar a sua terra natal depois que veio para cá?
A.L.M.: Sim. Costumo ir bastante para lá. Somente no começo, quando deixei tudo para trás, é que me senti arrependido, porque é muito difícil você sair de uma região e ir morar em outra. Em São Paulo o sotaque é completamente diferente, muita coisa eu não entendia. Quando eu vim para Minas fiz uma aposta comigo mesmo que aqui eu teria que vencer e se não conseguisse, nunca mais voltaria para a minha terra. Quando vim para cá, fiquei oito anos sem retornar ao Sul e quando fui, senti o peso do tempo porque meus sobrinhos que eram todos pequenos já estavam todos grandões e eu já não conhecia ninguém. Agora, sempre que eu posso, nós voltamos para lá. 


Jornal do Sudoeste: E seus planos para o futuro?
A.L.M.: Hoje meu plano é que Deus continue dando saúde para mim, para a minha família, eu conservando o que eu tenho, meu trabalho, não quero mais nada, quero para meus filhos. Desta vida a gente só leva a boa imagem que deixa. Fortuna eu não quero, tenho uma casa boa, meu ganha-pão, um bom automóvel, os filhos estão encaminhados, então quero apenas saúde para mim, para minha família e continuar fazendo o que eu gosto.


Jornal do Sudoeste: Qual o balanço que você desses 59 anos de vida?
A.L.M.: Eu me sinto privilegiado. Eu não esperava chegar até onde estou hoje, e conquistado tudo o que consegui. É difícil você sair do nada, lutar e fazer um simples patrimônio, honesto e digno. Nesse balanço, acredito que eu conquistei tudo o que eu queria na vida. Deus me deu saúde, tenho uma esposa muito companheira e amiga e meu maior medo ao casar era ter uma esposa que não combinasse com a minha mãe, mas até nisto eu fui privilegiado, minha mãe gostava dela como uma filha. Até agora eu tive tudo, daqui para frente o que vier é lucro.

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