CRÔNICA HISTÓRICA DE SÃO SEBASTIÃO DO PARAÍSO:

Uma crônica publicada em 1935

– parte 1 –

Por: Luiz Carlos Pais | Editoria: cidades | 08/01/2018 | Visualizações: 4799

- Foto de Reprodução

Para preservar e divulgar a produção literária de autores que escreveram sobre os mais variados aspectos de história de São Sebastião do Paraíso, no Sudoeste Mineiro, no contexto da primeira metade do século XX, transcrevemos uma belíssima crônica de autoria do senhor João Fernandes Carvalho, publicada, originalmente, em 1935, em um jornal paraisense. Trata-se de memórias descritas pelo autor, lembrando do tempo de sua infância, quando foi aluno da escola primária isolada professor Gedor Silveira, cujo nome está inscrito na história da educação da cidade. Além do mais, no momento em que o texto foi escrito, o velho sino da antiga Igreja Matriz seria, em breve, seria substituído pelos três novos, atuais, importados da Europa pelo gesto benemérito da senhora Dolores Pimenta Marussig, filha do coronel Antônio Pimenta de Pádua. A íntegra da crônica escrita por João Fernandes carvalho é a seguinte:
“Estamos não muito longe, meus caros leitores, de vermos desaparecer, para sempre, uma das mais gratas recordações de nossa terra – o velho sino da nossa Igreja Matriz. Eu guardo até hoje, indelével, na memória, saudosa recordação dos tempos de minha meninice, quando assentado à ponta do passeio, esperava ouvir bater as dez badaladas do velho sino, para marchar rumo às aulas do saudoso professor Gedor Silveira. Todos os dias úteis, eu e meus colegas lá estávamos em frente à casa do comentador João Alves, aguardando a ordem severa do bronze, que às dez em ponto, fazia soar aquelas pancadas monótonas, as mesmas que hoje reproduz idênticas revivendo, na minha lembrança, saudades de tempos que não voltam mais!
Coitado do velho sino! Vai desaparecer para sempre! Para o meu coração paraisense, vai ser mágoa e tristeza, o dia do destronamento desse amigo de minha infância. Ele que tantos serviços tem prestado a todos nós, em geral, quer na marcação das horas, durante tantos anos, quer bimbalhando alegre no batizado de nossos filhinhos, como soando festivo nas solenidades da Igreja, e ainda tangendo tristeza ao acompanhar aqueles que descem ao túmulo para sempre! Oh velho e querido sino de minha terra! Do alto trono onde nossos antepassados te ergueram com carinho, vais sofrer um tombo, simbolizando quase uma derrota! 
A tua garganta, outrora sonora e maviosa, calará então, para sempre num mutismo de desprezo! Ficará relegado para um canto qualquer na tristeza solitária dos monturos! E por que os homens te fazem isso? É a força da lei de renovação, meu velho amigo, a que os homens de hoje obedecem. Estás, de fato, velho e a tua velhice já incomoda. És um estorvo. A tua voz, que era límpida e pura, como o canto de marulhosas fontes, tornou-se rouquenha que se impregnou do pigarro da velhice, não bimbalhas mais com a mesma sonoridade dos tempos idos. Todavia, cumpriste a tua santa missão.
Com a tua voz melodiosa de outrora acordaste do torpor, da indiferença, muitas almas ímpias para a santa conversão. Coitado do velho sino! Ele tem sido muito batido, muito judiado, e por não poder suportar tanto martírio, um dia fendeu-se, abriu-se em trinca. A tua voz alterou-se e embora com a grande ferida, cicatrizada pelo conserto, ele sofre, até hoje, o defeito da brecha. É um pobre mutilado que humilde e submisso recebe num tremor da velhice, as impiedosas pancadas do grande badalo para gemer! E gemendo, tristonho, ele dá as últimas forças de sua velhice decrépita. Coitado! 
Eu me lembro ao ouvir bater o velho sino, de meus saudosos tempos de escola. Na escola do saudoso professor Gedor Silveira, havia um punhado de meninos que hoje são homens. Era de ver com que contragosto entravamos para as aulas, onde os argumentos da tabuada eram porfias renhidas e terríveis. A rapaziada tomava posição em duas linhas, frente à frente, recebendo cada rapaz vinte cartões respostas e vinte arguições. O torneiro era interessantíssimo e durava pouco pela pouca resistência da maioria. Terminando o combate, poucos os vencedores que então ficaram de pé, enquanto a soldadesca ordinária, de joelho, contemplava na humilhação da grande derrota, os cartões sujos que havia passado para as mãos dos generais vencedores. (continua.....)

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