ELY VIEITEZ LISBOA

O Flamboyant

Por: Ely VIeitez Lisboa | Editoria: cultura | 20/01/2018 | Visualizações: 5778

- Foto de Reprodução

Poetas já cantaram a sensação de perda, quando locais, casas, jardins, pomares, algo é destruído. Por isso, textos que fixaram um momento de beleza, uma rua, uma árvore, viram documentos. Passam décadas, vêm gerações, tudo muda, todavia o texto captou a cena, o fato. É fonte mais segura que nossos velhos corações traídos pelas emoções ou neurônios destruídos pelo tempo. A minha árvore ainda está lá. Mais velha, como eu. Perguntem ao lindo flamboyant se não é verdade. Pelo menos, é a minha e a dele. 
O velho flamboyant é eterno como os muros brancos da escola. Nasceram juntos, ela e ele. Lá da frente vê desfilarem centenas de crianças loiras, morenas, negras, com cabelos doirados como o sol manso da manhã, castanhos, cor de avelã madura, pretos como os abismos. Vêm sentar debaixo dele, brincar com suas vagens, machucar suas folhas mais baixas e até chorar no seu tronco. Ele ama as crianças. Quer envolvê-las com os braços verdes e macios, sente não poder dar-lhes perfume e sua única oferenda (e como ele se esmera!) é tornar-se rubro, incendiado de flores, mal começa cada novembro. Ele freme então, em um amor febrici-tante e escarlate, dobra-se em vênias elegantes, envia beijos de pólen através de borboletas douradas que por ali passam. Pede melodia aos pássaros para a professora triste que olha sem ver pelos vitrôs, em um devaneio melancólico; condói-se da garotinha que passa com seus aparelhos ortopédicos. Entre suas raízes marrons, saltadas como veias intumescidas, ariscos lagartos verdes passeiam. 
Aí acontece. Máquinas da Prefeitura vêm e começam a arrancar troncos, podar matos, deslocar raízes. Atraídos pelo barulho, as crianças correm ao local. Quando os monstros metálicos aproximam-se do flamboyant, todas se movem, como azeitadas por estranha energia. Rodeiam o flamboyant, protegendo-o com seus próprios corpinhos suados de excitação. As máquinas param. Não chegam nem mesmo a ferir as raízes. Os pequenos guerreiros ficam lá firmes, defendendo o velho amigo. E nem veem as lágrimas de resina que escorrem pelo tronco amarronzado. Está selado para sempre o pacto entre as crianças e a árvore, eternos símbolos vivos de esperança e de bondade.
Foi um lindo milagre fraterno entre as crianças e a velha árvore. Lição que deveria passar para o mundo. Até hoje, quando passo por lá, saúdo a linda árvore, já bem velha, mas bela ainda. Na época certa, sabiamente, ela floresce de novo, com suas chamejantes flores, que lhe dão o nome poético. 
(*) Ely Vieitez Lisboa é escritora.
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