Virgilio Pedro Rigonatti

Meu primeiro amor, onde andará?

Por: Virgilio Pedro Rigonatti | Editoria: cultura | 15/03/2017 | Visualizações: 105

- Foto de Reprodução

Virgilio Pedro Rigonatti *

Participei recentemente de uma reunião da Academia Paraisense de Cultura, em São Sebastião do Paraíso, convidado que fui pelo acadêmico Reynaldo Formaggio. Tenho amizade, também, com outro membro da academia, o jornalista Nelson Duarte.
A sessão foi muito prazerosa, descontraída, onde tive oportunidade de conhecer vários expoentes da cultura da cidade.
Apresentando-me, tive oportunidade de falar das duas primeiras vezes que visitei Paraíso.
Eu sou nascido em São Paulo. Meu pai era de São Sebastião do Paraíso e minha mãe de Itamogi.
A primeira vez foi em 1956 quando eu e três de meus irmãos fomos tocar na cidade. Após a apresentação, pegamos a jardineira na antiga estação rodoviária - hoje é biblioteca municipal - em direção à cidade de Franca. Eu tinha, então, oito anos, mas me recordo de algumas coisas desta visita. Fomos, também, na volta de Franca, tocar em Itaú de Minas, onde fiquei chocado com a camada de pó de cimento sobre o parapeito da janela do hotel. Ainda não eram obrigatórios os filtros da fábrica local.
A segunda vez foi muito marcante.
Chegamos de São Paulo, trazidos pelos vagões da Mogiana, puxados pela Maria Fumaça, em Itamogi, visitando minha avó materna. Tínhamos um casamento de uma parente às onze horas. Para variar, o trem chegou atrasado. Normal. Em cima da hora, foi um alvoroço abraçando minha avó e outros parentes que nos esperavam, com minha mãe abrindo as malas e repassando as roupas amarfanhadas.
Naquela agitação, sentado em uma cadeira, conversando com todos, inadvertidamente bati o braço em um suporte alto ao lado da mesa de passar roupa. Sobre este móvel se encontrava o ferro de passar - daqueles ferros pesados a carvão que se usava antigamente. O dito cujo, fervendo, literalmente em brasa, balançou e caiu sobre meu braço direito provocando uma enorme queimadura. Sem tempo para maiores cuidados, minha mãe besuntou a ferida, já uma grande bolha, com pasta de dente e colocou uma gaze presa com esparadrapo. Aguentando a dor, vesti a camisa de manga comprida, prendendo os punhos com abotoaduras, coloquei o terno, e fui ao casamento, com o desconforto do braço naquele estado.
Sempre fui resistente à dor e me portei dignamente. Porém, durante o almoço que se seguiu à cerimônia religiosa, uma linda mocinha abraçou-me por traz, encostando seu peito no meu ombro, aproximando seu angelical rosto ao meu, quase o tocando - ainda sinto seu delicioso hálito e a fragrância de seu perfume - e perguntou-me: "Você é o Pedrinho?". A emoção foi enorme, não só pela surpresa de uma linda garota ter se aproximado de mim, mas - e aí que pegou realmente - por ela, carinhosamente, ter segurado meu braço e apertado, demonstrando afeição. O problema foi que o braço e o local escolhido por ela para demonstrar seu apreço foi justamente o queimado. Apesar das mãos de fada da linda garota, a dor foi intensa. Claro que não sei o que o meu rosto realmente transmitiu, mas procurei disfarçar valentemente a dor e transmitir todo meu sentimento de alegria e prazer de conhecer um anjo em forma humana, a mais linda e feminina figura. A menina, empolgada em travar uma conversa comigo, não me largava o braço, sentando-se ao meu lado - não me recordo exatamente como foi, mas acredito que ela deva ter combinado com quem estava na cadeira para dar lugar a ela.
Procurando transmitir seus desejos e emitindo sinais de interesse, a moça alternava uns apertões e uns carinhos sobre a enorme bolha que tomou conta do meu antebraço. Suando frio, sentindo a dor e o prazer dos afetos - nem por isso me tornei masoquista - conversamos bastante e acabei descobrindo que ela era de São Sebastião do Paraíso. Acabamos combinando que eu iria encontrá-la no fim de semana seguinte.
Apesar da idade, treze anos, no sábado peguei o trem sozinho com destino ao meu encontro. Assim conheci Paraíso, já com olhos de adolescente, descendo na estação e me dirigindo à casa de uma prima onde passei o final de semana.
Começo da noite, eu fiz meu primeiro encontro com uma namorada, ansioso e emocionado. Naturalmente, guardo com carinho as lembranças dessa charmosa cidade, aonde vez por outra ainda visito.  Não tive oportunidade de retornar a Paraíso naquelas minhas férias de julho, logo voltamos para São Paulo e levei muitos anos para retornar ao sudoeste mineiro, minha avó faleceu três anos depois, perdendo todo contato com a moça. Cada vez que eu vou à Paraíso eu parafraseio Ataulfo Alves, roubando-lhe o verso que ele canta: "Onde andará Mariazinha, meu primeiro amor, onde andará?".

* Virgilio Pedro Rigonatti,  Escritor, www.lereprazer.com.br rigonatti_pedro@terra.com.br autor do livro “MARIA CLARA a filha do coronel” que se encontra à venda nas livrarias Supertog, Estação do Livro e Livraria Beca

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