CRÔNICA - Joel Cintra Borges

O brinquedo roubado

Por: Joel Cintra Borges | Editoria: cultura | 30/01/2018 | Visualizações: 3000

- Foto de Reprodução

Humberto de Campos conta, em um de seus livros, que um dia roubou um brinquedo muito bonito de seu primo.
Sua família era pobre e não podia comprar-lhe bolas, carrinhos, essas coisas pequenas para gente grande, mas que constituem o mundo encantado das crianças. 
Assim, em visita a parentes de melhores condições financeiras, não resistiu e apanhou uma coisa que lhe agradara muito. Escondeu-se, então, para brincar com o fruto proibido.
Sua alegria, porém, durou pouco: foi descoberto, o brinquedo devolvido ao primo, levando, ainda, uma boa reprimenda. 
Muitos anos depois, quase no fim de sua vida, compara, no livro "Memórias", a felicidade com o brinquedo roubado, exprimindo-se mais ou menos assim:
- E que tem sido para mim a felicidade, senão um brinquedo roubado, que tento esconder, mas que sempre encontram e levam embora?
O grande escritor maranhense foi muito afortunado no paralelo que fez. Porque a felicidade, no planeta em que vivemos, é muito fugaz. Em segundos, uma pessoa passa da maior alegria para a extrema tristeza: uma derrocada financeira, problemas de saúde, um telefone que toca, anunciando a morte inesperada de um ente querido... O mundo, então, perde a cor, torna-se cinzento, como cinzentas ficam todas as pessoas, todos os acontecimentos. O carro novo, a folgada conta bancária, nada serve de alívio. A depressão chega, levando os risos, as músicas, a vontade de viver. E ninguém tem garantia de nada, porque tudo é muito imponderável, muito imprevisível.
O que nos torna tão vulneráveis é que vivemos muito ligados à Terra, deixando de assumir nossa posição de cidadãos do Universo. Encaramos a vida sob um prisma muito estreito, praticamente delimitado pelo curto período de nossa existência.
Continuamos acreditando nessa embusteira chamada morte, que nunca matou ninguém, porque o sopro vital é eterno, atravessando séculos e milênios, numa contínua escalada, porque é essa a suprema lei. Se a própria matéria nunca se perde, está sempre se transformando, porque se perderia o espírito, que é de natureza muito superior?

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