ELY VIEITEZ LISBOA

Os novos contos de Arcaro

Por: Ely VIeitez Lisboa | Editoria: cultura | 20/02/2018 | Visualizações: 4341

- Foto de Reprodução

Quando recebi o livro de contos, AMortalha, de Matheus Arcaro, chamou-me a atenção a capa atraente e lírica, de Ubirajara Júnior e o título intrigante, escrito na capa e nas duas páginas iniciais, sempre com o A e o Substantivo juntos, podendo-se ler A Mortalha, ou a terceira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo AMORTALHAR; era uma montagem artística e o A inicial era de AMOR. Ousadia do ilustrador...
Nas orelhas do livro, o texto precioso de Menalton Braff, que reafirma sabiamente que Matheus Arcaro, autor jovem, realmente nasceu adulto e "veio para ficar".
É a terceira obra de MA: seu primeiro livro de contos, "Violeta Velha e outras flores" seguido pelo romance "O lado imóvel do tempo" e agora AMortalha, os três editados pela Patuá (SP). O sucesso da tríade do jovem autor não surpreende devido às características marcantes do escritor.
Culto, sensível, profundo conhecedor dos grandes autores, em AMortalha reafirma-se o estilo do autor: linguagem rica, emprego de figuras originais de retórica, como a hipálage, na página 57: "... seguindo o rebolado negro do gato" (atribuição a uma palavra, o que pertence a outra, na mesma frase). As belas metáforas são uma constante em AMortalha.
Comentário após o conto "Como fugir? ": belíssimo conto de um amor frustrado, de uma opção malfeita. O relato notável de um episódio simples, enriquecido por alusões variadas, plenas de cultura. De vez em quando, afirmações geniais. Flores como obras-primas na galeria de artes de Deus. Texto cosmopolita, mais sugestões que a narrativa direta. Emprego perfeito do discurso indireto-livre. Um dos mais belos contos do livro.
Como é hábito de MA, antes de cada conto, há uma epígrafe notável, sugestiva, de autores famosos. No conto D. Nenê com final aberto (um dos procedimentos literários comuns em seus contos) a trama mostra o destino amargo dos seres fadados à solidão. 
Uma característica forte da arte maior de Matheus Arcaro é sintetizar, às vezes, toda a trama de um conto em uma frase, como no conto Alemão.
A excelente literatura de MA caracteriza-se também pelo uso da linguagem rica, que às vezes permite  licenças gramaticais como o emprego da próclise, no início da oração, para realçar a oralidade. Há  minicontos, que sintetizam toda a trama em apenas duas linhas, como em (A)feto, página 97. Pura arte!
O conto Fora do Ar é uma interessante narrativa de realismo fantástico, com a bela heroína Alexia, lésbica, negra, tentando resolver o mistério do sumiço das televisões, na cidade; o final aberto é pleno de filosofia.
Ler um livro de Matheus Arcaro é sempre algo complexo. No final surge a frustração de tudo o que se poderia comentar, citar, mas o espaço é sempre restrito. Só resta uma sensação de encantamento, admiração, diante do seu rico estilo, sua criatividade e a espera de sua próxima obra.
(*) Ely Vieitez Lisboa é escritora.
E-mail: elyvieitez@uol.com.br

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