ELY VIEITEZ LISBOA

O oitavo Pecado Capital

Por: Ely VIeitez Lisboa | Editoria: cultura | 30/03/2018 | Visualizações: 2504

- Foto de Reprodução

Há livros, peças teatrais e filmes que são universais e propiciam reflexões sérias. A película francesa "Os Sete Pecados Capitais" é um obra famosa, no cinema. Ela enfoca estes terríveis vícios humanos em sete histórias expressivas e atraentes. A narrativa sobre o ORGULHO é sutil e inteligente, a da GULA é cômica. O mais interessante, no entanto, é no final do filme. Após a sétima história, o narrador dirige-se ao público, pedindo-lhe que ainda não se vá, porque existe o OITAVO PECADO CAPITAL. Sem mencioná-lo, ele inicia o último relato. Aparece um corredor escuro e uma porta suspeita. De repente surge um tipo mal encarado. Após, vão aparecendo as criaturas menos esperadas, mais estranhas, e todas se dirigem para o mesmo lugar: uma menina inocente, um marinheiro, um velho, um ladrão, um padre, uma prostituta. A estas alturas, imaginam-se horrores: orgias, crimes, aberrações, pedofilia, bestialidades. A câmera desvela o mistério, mostrando o outro lado. É um palco, um teatro, e todas aquelas personagens insólitas são apenas atores. Este é o oitavo pecado capital: imaginar o mal onde ele não existe. Isto é próprio dos seres humanos e a lição é tão preciosa quanto o filme. Na vida e na literatura se vê que esta é uma verdade contundente.  Na realidade, nada é como se imagina; a teoria do ser e do parecer explicam muitos fatos. Relembro dois episódios verídicos, como ilustração. 
Estávamos em 1960. O bairro Sumarezinho não existia e diante do Colégio Estadual "Alberto Santos Dumont" havia mato alto; nem sinal de casas - só aquele prédio enorme, perto do matagal. Eram onze horas da noite. Acabada a aula, desci para o ponto de ônibus, sob a luz do primeiro poste. De repente surge uma mulher assustada, que se aproxima e me interpela com medo: - Posso ficar aqui com você? Estou horrorizada: Você viu, viu? Ali daquele casarão (ela aponta para o Colégio), daquele breu, está saindo um monte de homens! E eles vêm vindo nesta direção!
Tentei acalmá-la, explicando que ali era uma escola e que o "montão de homens" eram alunos que se dirigiam para casa. Ela me olhou incrédula, cheia de dúvidas e afastou-se. Eu devia estar mancomunada com aquele antro de perdição...
O outro aconteceu em pleno dia. Eu lecionava em Jardinópolis e dava carona diária a três colegas, uma moça e dois professores. Eu a pegava primeiro, por questão de  logística  e os dois nos esperavam na Av. Jerônimo Gonçalves, com a General Osório. Certa manhã, ouvi de alguém que estava em um bar, defronte nosso ponto de encontro: - Eu não sei não! Aí tem coisa! Todas as manhãs estas duas param o carro, os dois homens entram com um ar esquisito e os quatro somem, só Deus sabe para onde!
É comum um duvidar do outro e às vezes até de si próprio. Essa é uma das causas principais de ser o oitavo pecado capital o mais cometido pelos seres humanos. Tudo são complexidades que fazem da existência um "happening" constante e do homem, um estranho ator nos palcos da vida.
(*) Ely Vieitez Lisboa é escritora.
E-mail: elyvieitez@uol.com.br

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