ENTRETANTO

Entretanto

Por: Renato Zupo | Editoria: justica | 04/04/2018 | Visualizações: 1842

- Foto de Reprodução

VALENTÕES
A tradição brasileira impõe a alguns profissionais uma determinada conduta incompatível com as querelas e conflitos normais do cotidiano. Assim é com os sacerdotes, a classe política e os operadores do Direito. Ou pelo menos deveria ser. Somos primus inter pares, como se dizia antigamente – um conceito defasado e hoje mal visto. Mas ainda somos o que a expressão proveniente da Roma antiga exprime muito bem: somos os primeiros entre iguais. Não há que se falar, principalmente em uma democracia, em profissionais ou castas melhores que outras. Não é isso. Tanto que somos iguais. Mas também somos os primeiros a dar exemplo, aqueles que impõem a temperatura e os humores da República, o termostato moral brasileiro, os formadores de opinião e exemplos de ética. Ou, como disse, é o que deveríamos ser. Não é isso o que se mostra em discussões acaloradas em tribunais superiores, principalmente entre magistrados. É algo lamentável que fere não somente a ética, mas o pudor da sociedade. Juízes são sacerdotes da justiça, reserva moral da nação. Quando um magistrado se comporta como um valentão de botequim, um encarniçado opositor, uma fera urbana especializada em vitupérios, então há algo de podre no nosso reino. É lamentável. Dá pena de assistir e vergonha de ser magistrado e brasileiro.


REINO BRASILEIRO
Muitos dos nossos problemas de hoje vêm da nossa história, aquela que não olhamos e nem dela recordamos, porque este hábito salutar não nos foi atiçado por pais apressados em ganhar dinheiro ou ambientes acadêmicos sucateados e retocados às pressas para ganhar eleições. Não. O brasileiro ou aprende na marra e sozinho, estilo autodidata ou self made man, ou não aprende nada. E nossa história aponta para o fato bastante curioso de que fomos a única monarquia do continente americano. Podem observar. Quando nos libertamos do jugo português, foi para virar Império em nome próprio. A república só viria mais ou menos quarenta anos depois. Não precisaríamos dessa transição monárquica repleta de regalias e títulos de nobreza e pouco espaço para a formação democrática de nosso povo e de nossos líderes. De que adianta, raciocinem, deixar de ser colônia e responder a D. João VI, para nos fazermos independentes e passarmos a responder como súditos do filho dele, D. Pedro I? Isso atrasou nossa democratização  em um século, porque o sistema monárquico vem das trevas da Idade Média que traz consigo as ruínas de um sistema de governo morto e fajuto e, na época, sem representatividade democrática alguma. Com a monarquia brasileira do primeiro e segundo reinados, houve espaço para a manutenção de prerrogativas e favores e títulos de nobreza comercializados nos subterrâneos das cortes. Privilégios e simpatias entre governantes e aristocratas é que ditavam os rumos da política do nosso país recém independente. E é assim que continuamos até hoje, por incrível que pareça. Se bem que não é tão incrível assim. A única monarquia do continente americano continua, mais de cem anos depois, vivendo de acordos e conchavos e propina e absurdos.


OLHANDO PARA TRÁS.
Como eu digo, não sabemos nossa história, não olhamos para o nosso passado, não possuímos memória crítica e, por isso, aceitamos um monte de besteiras que nos dizem e repetem e achamos que é verdade pura e crua, E a ajudamos a esparramar pelos botequins e livros e, de uns tempos para cá, pelas redes sociais. Ficou pior. Umberto Eco já dizia que as redes sociais permitem a qualquer bêbado de pileque comum em bares a vociferar bobagens que chegam aos olhos e ouvidos de milhões de pessoas. O filósofo de botequim virou um pensador das massas e um formador de opinião. Péssimo para a juventude e a democracia isso. Exemplo disso é o Lula e o enorme marketing em torno de sua assunção ao poder como então presidente e hoje “perseguido político”. Quando ganhava eleições se dizia que inaugurava uma nova fase no país, porque finalmente um nordestino pobre e miscigenado se tornava o presidente, o mais alto dignatário da República. Besteira. Olhem para trás. O primeiro presidente da República era um alagoano, Deodoro da Fonseca, pobre que na infância montava em pelo de burro chucro e a quem restou a carreira militar para se alfabetizar. Outro presidente, Floriano Peixoto, era mulato, assim como também o era Costa e Silva. Castelo Branco era nordestino e José Sarney, então, nem se fala. Ernesto Geisel tinha suas origens humildes, filho de estancieiro morto de fome da guerra europeia de onde fugira para aportar no Brasil do início do século passado.  Só trouxe da Europa a roupa do corpo e a vontade de trabalhar. Aliás, todos os presidentes militares brasileiros nasceram e viveram pobres. E Juscelino? Filho de viúva criado em Diamantina, no paupérrimo Vale do Jequitinhonha mineiro, comia livros e varava noites estudando até se formar em medicina, em uma época em que medicina era, mesmo, para poucos. Esses homens públicos de nosso passado possuíam uma coisa em comum: nenhum deles chorou lágrimas de crocodilo usando sua origem geográfica, sua fome ou pobreza ou suas origens étnicas e cor da pele para angariar votos e simpatias. Existiram e nos ensinaram uma lição que teimamos em não aprender


ODIOSOS ODIADORES
Nem sei se existe o termo “odiadores”. Se não há, criei um neologismo, uma palavra nova para designar os haters de internet. São os caras que saem batendo e ofendendo a esmo, protegidos por uma falsa ideia de anonimato e bancando os corajosos das redes sociais atrás de um teclado. É muito fácil ser macho atrás de um teclado. Como não falam na cara e possuem uma vida frustrada  e baixos e baixos, querem pulverizar seu descontentamento atrapalhando a felicidade e o sucesso daqueles que, na verdade, invejam. Sequer percebem o conteúdo de suas bravatas ou o perigo que significa a disseminação do preconceito e da raiva através da palavra. A palavra, falada ou escrita, já deflagrou guerras, matou gente, destruiu carreiras e casamentos. Divulguei recentemente um vídeo que retrata idosas xingando o Ministro Gilmar Mendes em Portugal. Achei um absurdo, não porque seja Gilmar a vítima, mas porque é o fim da picada sairmos ofendendo aos brados pessoas – públicas ou não – simplesmente porque não gostamos delas. Isso é falta de educação doméstica. No entanto, o vídeo viralizou (outro neologismo?) como coisa bacana, como desabafo de brasileiros sofridos e ofensa muito bem feita a Gilmar Mendes. Pelo contrário, alguns acharam absurdo que se criticasse aquela conduta simiesca e desumana, repleta de ódio e palavras de ordem. Com falta de educação e grosserias não se vai a lugar nenhum. Nelson Mandela provou isso ao passar vinte anos preso e, finalmente liberto, propor coalizão aos algozes que o haviam lançado ao cárcere. Outra lição que não aprendemos.


O DITO PELO NÃO DITO.
“Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz como são violentas as margens que o reprimem” (Bertold Brecht, dramaturgo e poeta alemão).


RENATO ZUPO, Magistrado, Escritor

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