Virgilio Pedro Rigonatti

Doação de sangue, conciência; confissão, hóstia

Por: Virgilio Pedro Rigonatti | Editoria: cultura | 21/03/2017 | Visualizações: 110

- Foto de Reprodução

Fui fazer doação de sangue. 
Primeiramente, fui sabatinado por uma entrevistadora que me fez uma infindável lista de perguntas. Todas, naturalmente, necessárias para que avaliassem se eu poderia praticar esse ato de extrema generosidade entre seres humanos.
As perguntas foram relativas ao meu estado de saúde, atual e pretérito, para saber se alguma doença ou medicamento tomado poderia ser impeditivo para o ato. Hábitos como bebida, tabagismo, uso de drogas são avaliados. Ter residido, mesmo que temporário, ou simplesmente ter passado por áreas de grande incidência de doenças contagiosas, tais como malária, febre amarela, etc.. Ter contraído doenças venéreas, mantido relações sexuais com grupos de risco tais como garota ou garoto de programa, homossexuais, mantido relacionamentos fora do casamento, são fatores impeditivos para as doações.
O problema sensível nas avaliações são as respostas a esse último grupo de questionamento, relativos ao comportamento sexual. Você ser impedido de doar seu sangue pelos demais fatores não constituem embaraço nenhum, só lamentos pela perda de tempo pelo deslocamento, porém admitir qualquer afirmação com relação ao contato sexual pode causar embaraços. Ter que admitir a uma pessoa que não te conhece, que está te arguindo, que manteve atos sexuais com qualquer pessoa do grupo de risco, é tremendamente constrangedor, pior ainda se estiver acompanhado pelo marido ou esposa, ou por grupo de amigos que se reuniram para doar sangue a pedido de alguém necessitado. Como dizer que você não pode doar por ter feito sexo com uma garota ou garoto de programa? Ter sido impedido, por exemplo, em razão de um tratamento de câncer ou por ter ido pescar em rios de locais sujeito à malária, não causa nenhum mal estar, porém admitir contato com grupo de risco é altamente vexaminoso, não só com relação ao grupo que o está acompanhando, mas principalmente se estiver acompanhado pela sua cara metade. Difícil admitir.
No final das perguntas, se não foi impedido por nenhuma das restrições, a entrevistadora orienta a apertar um dos dois botões de um aparelhinho discretamente disposto atrás do computador dela e mesmo assim com uma aba que não permite, a ela, olhar seu movimento. Um dos botões é de cor verde e abaixo dele vê-se, bem destacado, a palavra "sim", o outro é de cor vermelha com a palavra "não". Você deve apertar um ou outro para responder à última pergunta: se você tem certeza que seu sangue poderá ser usado para uma transfusão.
Esse é um momento dramático de exame de consciência e admitir uso de drogas ou, mais delicado, que anda pulando a cerca, correndo os riscos decorrentes. São segundos em que se tem para tomar uma decisão em confessar um pecadilho. Porém ninguém ficará sabendo, a não ser o "deus" de plantão que analisará suas respostas e rejeitará seu material caso você apertar o botão vermelho - sim, seu sangue será recolhido normalmente, evitando constrangimento - admitindo que seu sangue não deva ser usado em uma transfusão.
Esse momento de reflexão permitindo ao doador confessar suas faltas, sem perigo de torná-las pública, remeteu-me à minha iniciação na igreja católica, quando com oito anos fiz minha primeira confissão. Naqueles tempos você se dirigir a um confessionário era obrigatório para receber a comunhão. Para quem não sabe o que é isso, eu explico. É uma cabine no interior da qual sentava um padre que ouvia os relatos dos pecados dos fiéis que se ajoelhavam do lado externo separado por uma janelinha de treliça que impedia um ver o outro, mas que permitia ouvir bem o que um e outro falava.
A minha confissão para a primeira comunhão foi em um ambiente externo na igreja, no grupo escolar que promovia o evento. A segunda vez foi na igreja onde me dirigia aos domingos para assistir a missa que me dava o direito a jogar futebol com os colegas no campo de futebol da paróquia.
Formava-se fila para ser ouvido pelo padre. Dependurados na parede, víamos, antes da confissão, dois quadros. Um mostrava um garotinho todo sorridente, bem vestido, com uma auréola na cabeça, acompanhado e protegido por um anjo, mostrando que era um garoto que tinha feito uma confissão adequada. O outro quadro era de um garoto mal vestido, com uma cara de desespero, sendo seguido por Lúcifer com seu enorme tridente na mão: tinha feito uma má confissão. Vinha à mente as ameaças que nos faziam os pais e os padres que, caso não se contasse todos os pecados, a hóstia cairia da boca quando o padre nos desse a comunhão.
Com a imagem dos quadros e das ameaças que ouvia, ajoelhei-me juntamente com os demais colegas em frente ao altar esperando o padre passar e depositar o corpo de cristo em minha boca. Compenetrado, tenso, nervoso, com medo de ter me esquecido de contar algum pecado (que pecados um garoto de oito anos pode ter?) abri a boca e pus a língua um pouco para fora para receber a hóstia consagrada. Quando o padre a pôs sobre minha língua, travei completamente pela paúra de estar em possível pecado: não conseguia recolher a língua e fechar a boca. O padre já estava abençoando a hóstia a ser dada ao meu vizinho quando percebeu minha rigidez. Com um gesto com sua língua, mostrou-me como deveria fazer. Zonzo, vermelho de vergonha, ergui-me e fui remoendo meu embaraço e o corpo de cristo dentro de minha boca, que, aliás, estaria pecando se o mordesse, devendo deixar dissolver completamente a hóstia. 
* Virgilio Pedro Rigonatti,  Escritor, www.lereprazer.com.br rigonatti_pedro@terra.com.br autor do livro “MARIA CLARA a filha do coronel” que se encontra à venda nas livrarias Supertog, Estação do Livro e Livraria Beca


 

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