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Ana Elizabete: uma entusiasta da educação como agente transformador da sociedade

Por: João Oliveira | Editoria: entretenimento | 09/04/2018 | Visualizações: 2792

Educadora Ana Elizabete, formada em Ciências Sociais e pós-graduada em psicopedagogia e gestão escolar, hoje atua na coordenação da educação no município - Foto de Reprodução

A educadora Ana Elizabete Carvalho de Pádua é uma entusiasta da educação e que acredita que o ensino nos anos iniciais, também chamado de primeira infância, é de suma importância para a construção de uma sociedade melhor. Criada na região rural de Fortaleza de Minas até os nove anos, mudou-se com esta idade para Paraíso em uma busca dos pais em oportunizar melhora de vida e condições de estudos aos dez filhos. Ana Elizabete, nome recebido em homenagem a uma bisavó e a rainha Elizabeth, que veio  ao Brasil no ano do seu nascimento, é mais conhecida como Bete, assim chamada carinhosamente no meio educacional. Ela é filha de Luiz Evangelista (já falecido) e de Ana Maria, de 80 anos, que, conforme descreve a filha, foram a base para que ela se tornasse a profissional e pessoa que é hoje. Casada com  Flávio de Paulo, Bete é mãe da Luana e do Luís Flávio, que deu a ela dois netos, a pequena Alice, de 3 anos, e o Miguel, de 4. Aos 49 anos é com alegria que ela faz um pequeno apanhado de sua trajetória. E não pretende parar tão cedo, porque, conforme ela mesma diz, a educação é sua vida.

 

Jornal do Sudoeste: Como foi sua infância?
Elizabete Carvalho de Padua: Sou natural daqui de Paraíso, mas até os nove anos eu morei na zona rural de Fortaleza de Minas, em um sítio que era do meu pai. Lá havia um grupo escolar cuja professora era uma tia minha e estudei nesta escola até meus pais decidiram se mudar aqui para Paraíso. Sou de uma família de 10 irmãos, família muito grande, mas muito unida; tivemos muitas dificuldades que não eram financeiras, mas de oportunidades. Fui criada por pais muito enérgicos, porém muito carinhosos e que nos criaram com muito zelo e com muita responsabilidade, tanto que a nossa vinda para cá foi justamente para que nós pudéssemos ter a chance de estudar e crescer.

 

Jornal do Sudoeste: E como foi a chegada de vocês a Paraíso?
A.E.C.P: Foi tudo muito novo. Meu pai tinha uma casa cheia de filhos e a diferença de idade era muito pequena entre eu e meus irmãos. Nós fomos estudar em uma escola estadual, próximo a minha casa, e tivemos que nos adaptar. À época que eu estudei na zona rural, a escola era praticamente uma extensão da nossa casa, o núcleo era muito familiar e diferente da escola na cidade. Assim tive que ser reprovada porque até então eu não conseguia atender aos pré-requisitos da série que eu estava sendo matriculada, a diretora achou por bem fazer isso para que eu pudesse dar continuidade nos estudos. A partir daí, cada um foi trilhando o seu caminho e na minha família nós somos cinco mulheres e cinco homens, das mulheres apenas uma não quis ser educadora. Duas trabalham na rede municipal e uma mora fora e também é educadora.

 

Jornal do Sudoeste: Seu pai foi uma figura muito importante na sua vida...
A.E.C.P: Sim, ele foi muito importante nas nossas vidas. Ele era muito ordeiro, organizado e ao mesmo tempo muito afetuoso e tivemos uma base muito boa. Hoje ele não está mais entre nós, faz muito falta. A pessoa mais importante da minha vida foi meu pai, tudo o que eu sou hoje é graças a essa família que eu tive e a ele.

 

Jornal do Sudoeste: Onde você estudou aqui em Paraíso?
A.E.C.P: O fundamental foi no Ana Cândida, depois fui para o Clóvis Salgado e nesse período eu fui convidada para trabalhar no Colégio das Irmãs para ser auxiliar de professora da educação infantil e lá eu tive a oportunidade de estudar também, trabalhava em um período e estudava em outro. Nesse período eu decidi me casar e transferi meu curso de magistério para a noite, que fiz no Ditão. Foi um curso de quatro anos maravilhoso e tive muitos professores que me marcaram muito. A minha base profissional veio desse magistério e lá tive professoras maravilhosas que me marcaram muito, entre elas a Ínes Fossati, a Cleonice e a Ana Antonia, era uma equipe de professores que um comple-mentava o outro, então essa turma de magistério foi muito privilegiada pelo contato com esses educadores.

 

Jornal do Sudoeste: Você cita muito as oportunidades que pode teve, como foi isso?
A.E.C.P: Eu me sinto muito privilegiada por tudo isso. Foi na oportunidade que eu tive de trabalhar como auxiliar de professora que descobri a vontade de ser professora. Essa fase foi uma escola para mim, porque enquanto você está auxiliando, você aprende muito e eu aprendi a ser professora observando e participando. Fui uma época muito boa, fui muito acolhida pela instituição, à época pela irmã Mariana e pelas colegas que eu auxiliei, e foram pessoas que contribuíram muito para a minha formação, o que aconteceu durante toda a minha carreira. Eu sempre tive bons modelos na minha vida e acredito que é isto que falta às vezes para a criança e o adolescente: ter bons modelos, isso me aconteceu desde quando comecei a trabalhar com a educação. E fui me “apropriando” desses modelos e me construindo enquanto pessoa e profissional.

 

Jornal do Sudoeste: Após se formar em magistério, já começou a trabalhar na área?
A.E.C.P: Antes de receber meu diploma, fui convidada pela Carmen Coelho e pela Valéria, que estavam abrindo uma escola com o nome de Escola Nova e me chamaram para trabalhar. Fiquei muito satisfeita porque a escola tinha uma proposta muito inovadora e diferenciada e topei esse desafio. Foi uma trajetória que durou de 1992 a 2007. Lá seguíamos a linha do construtivis-mo, da construção do conhecimento e era uma escola que os pais gostavam muito. Trabalhávamos muito a autônima da criança para que ela se tornasse um cidadão consciente dos seus atos. Trabalhávamos uma filosofia, além do conteúdo, porque a criança, além de saber ler e escrever, também tinha que saber se comportar e ter o comportamento de um cidadão íntegro, honesto e autônomo. Entrei como professora e nessa trajetória tive a oportunidade de me tornar sócia, e no final ficamos eu e a Ângela Costa. Ficamos um bom tempo na coordenação desta escola, mantendo a proposta e o projeto, e tínhamos os pais que confiavam e até hoje se lembram desta época.

 

Jornal do Sudoeste: E como surge o trabalho de coordenadora da educação no município nessa trajetória?
A.E.C.P: Foi no meio disso tudo. Prestei um concurso na Prefeitura com o intuito de saber o que estava sendo cobrado e o que se vinha pedindo de um professor e passei. Como a minha escola era somente meio período, decidi assumir o outro período na Prefeitura. Isso foi no final do governo do Pedro Cerize e início do governo da Marilda. Comecei dando aula em Termópolis e no segundo ano, para minha surpresa, a Márcia de Bello, diretora do CAIC, chamou-me para ser a vice dela. Aceitei, e na época a Maria Luiza, que era secretária de Educação, juntamente com o Mauro Zanin, confiaram-me a coordenação de um projeto de alfabetização na rede municipal: o Profa. Fiquei muito feliz e acredito que tudo isso veio de um trabalho que eu já realizava na Escola Nova. E estou até hoje. Já se passaram governos e eu fiquei.

 

Jornal do Sudoeste: E sempre houve pessoas que de ajudaram nesse processo, não?
A.E.C.P: Sim. Eu tive as oportunidades. A Maria Luiza Coelho é uma das pessoas que eu admiro muito, e é um modelo de pessoa e profissional e fui me apropriando muito do que ela é: é a construção do ser, eu sou eu, mas em contato com o outro eu me reconstruo. Ela me ensinou muito e, também, nesta época, a Regina Márcia, que era coordenadora do grupo e que assim como a Maria Luiza era uma pessoa muito inteligente e capaz, ensinou-me muito. Essas duas pessoas foram muito importantes na minha vida porque pude me espelhar e conhecer o jeito de se fazer educação por meio de duas pessoas sérias e compromis-sadas com a educação. E também o Mauro Zanin, que sempre confiou e acreditou em mim e, em contrapartida, sempre busquei dar o meu melhor e para isso tive que estudar muito.

 

Jornal do Sudoeste: Podemos dizer que hoje a educação é outra no município...
A.E.C.P: Sim. Procuramos inovar e participei muito deste processo de transformação da rede de educação municipal. Eu contribuí, mas tive muitos parceiros que compraram a proposta de sair de uma educação infantil assistencialista para ir para um projeto educativo, de ver a criança como um ser integral e como pessoa. Por fim, agora que estamos estudando a abordagem de Emmi Pikler, fomos buscar nossa inspiração em Florianópolis, com o doutor Roger Hansen, que já esteve aqui três vezes dando cursos. O nosso município hoje tem uma educação infantil que é vista com uma educação de qualidade, tanto que eu sempre paguei escola para meus filhos, mas hoje meus netos estudam na rede municipal porque eu confio na nossa educação.

 

Jornal do Sudoeste: Foram muitos desafios?
A.E.C.P: Todo processo de mudança requer um esforço maior, tanto de quem recebe quando quem promove a mudança. Na época que o Mauro foi secretário e depois veio a Maria Luiza, a formação continuada foi um pouco difícil, não existia aquela cultura de formação que temos hoje. Hoje, a formação continuada é muito tranquila. No início houve certa resistência, o que é muito comum e natural, mas hoje é outra visão e tudo o que é oferecido é acolhido pelos profissionais da educação.

 

Jornal do Sudoeste: E quais as diferenças entre a criança de antes com a criança do agora?
A.E.C.P: A criança hoje não é aquela criança que nós fomos, éramos muito passivos, não questionávamos muito e hoje elas estão mais questionadoras, vejo isso pelos meus netos, que tudo o que a gente fala eles têm um contra-argumento. A questão das tecnologias e mídias, as crianças já estão dominando isto até mais do que nós adultos, então surgem alguns confrontos que nos deixam um pouco sem saber em como lidar com a criança do século XXI, ao passo que nós estamos no século anterior, porque se cristalizou dentro de nós um modelo de aluno que não existe mais e para se desconstruir é preciso de um esforço maior, muita reflexão e muito estudo também, porque o aluno de hoje é mais ativo e exige mais desses educadores. O nosso maior desafio hoje é demonstrar a importância e o valor da educação para eles.

 

Jornal do Sudoeste: Há algum aluno que você se recorda com carinho?
A.E.C.P: Sim, tenho alguns ex-alunos que eu me reencontro, entre eles está o Bruno, que hoje trabalha com o promotor Rodrigo Colombini, no Fórum. Vários alunos me marcaram muito, mas ele deixou essa marca porque era um aluno que tinha uma vontade muito grande de aprender, tanto que hoje ele é escritor e eu sempre o acompanho. Tudo o que ele fazia ele ia até a mim para me mostrar, com o olhinho brilhando de vontade de aprender. Hoje eu o vejo tão bem. Essa vontade que ele tinha em aprender foi algo bem marcante para mim. Porém, são muitos alunos que até hoje me chamam carinhosamente de tia Bete. E como eu fui coordenadora de escola, também tive muito contato com os pais e também tenho esse retorno deles, de que a escola foi um momento importante na vida dos filhos. Hoje encontro ex-alunos que são médicos, advogados, enfim, que tem um carinho não só por mim, mas pela instituição que a Escola Nova foi e por todos os profissionais que passaram por lá. A Escola Nova era uma junção de pessoas que acreditavam na construção do sujeito.

 

Jornal do Sudoeste: E quando você decidiu abrir mão da Escola Nova?
A.E.C.P: Chegou o momento que percebi que não dava para servir a dois senhores. Eu estava ajudando a melhorar a escola pública e era dona de uma escola particular, não era coerente para mim. Então, decidi me dedicar apenas ao trabalho na educação municipal que eu vinha desenvolvendo. Isso foi em 2007, porque eu acreditava e acredito que é possível fazer uma escola pública de qualidade, tanto que meus netos hoje estudam nela.  Meus filhos estudaram em escola particular porque eu trabalhava em uma e eles ficaram lá comigo, mas eu acredito muito que é possível fazer uma escola diferenciada no município; há o comprometimento de toda a equipe. E o meu lema é a criança aprendendo sempre, cada uma dentro do seu tempo e o que me dá satisfação é que as nossas crianças estão tendo as mesmas oportunidades que a criança de um ensino particular.

 

Jornal do Sudoeste: O que representa a educação para você?
A.E.C.P: É a minha vida. Tem dias que eu não estou bem, mas venho trabalhar mesmo assim e quando eu chego aqui e me envolvo com os projetos, de repetente já me pego me sentindo bem. Então, desde que comecei a trabalhar com a educação, a educação está em mim, eu estou na educação, já não sei mais discernir a minha vida disto. Eu vibro com os aprendizados, com a evolução dos meninos, com a formação dos professores, levanto feliz para trabalhar, sou feliz no meu trabalho e se me perguntassem o que eu seria se não fosse educadora, acho que seria educadora (riso), não tem opção. Claro que nós esbarramos em muitas coisas, como a desvalorização da classe, e temos que lutar por melhorias no salário porque não é uma profissão fácil e acredito que tem que ter uma política de valorização do profissional. Porém, é gratificante ver um aluno lendo, esse é no nosso maior salário. Viemos no mundo com uma missão, não é a de ter uma casa, criar filhos, isso é muito pouco, acredito que cada um de nós veio ao mundo com a missão de transformação da sociedade, e venho buscando ajudar nesse processo. Acredito que ainda preciso melhorar muito e por mais que a gente estude ainda é pouco, cada dia é uma nova descoberta.

 

Jornal do Sudoeste: Você também cita muito a primeira infância. Qual a importância dessa fase?
A.E.C.P: A primeira infância eu levanto a bandeira e acredito que se você quer mudar a sociedade, invista nela. Tudo o que acontece na primeira infância nos marca pelo resto da vida. Hoje as pesquisas mostram isto, que a educação na primeira infância é importante para a construção de um ser saudável, então tudo o que acontece, não somente no nível da cognição, mas na afetividade e comportamento social, se ela é bem cuidada, essa criança se tornará um adulto saudável.

 

Jornal do Sudoeste: Qual o balanço que você faz de toda essa jornada?
A.E.C.P: Aos 49 anos, até aqui valeu a pena todas as dificuldades, todo o empenho, todo o estudo, toda a garra. Hoje vejo a minha família e o lar que eu construí repleto de pessoas queridas e companheiras. A família é tudo na vida da gente, é lá que eu me alimento e busco forças para seguir. Sobre a minha trajetória, tem horas que eu olho para trás e vejo que o que começou como brincadeira lá na infância conseguiu se realizar, de se tornar uma educadora, de ajudar a construir um mundo melhor e de proporcionar oportunidades para as pessoas. Ao mesmo tempo, vejo que as oportunidades que eu tive na vida me ajudaram a concretizar meus sonhos e meus desejos e sou muito grata a todas essas pessoas que contribuíram para isto. Na vida temos que ter oportunidades, se há oportunidade você consegue realizar seus sonhos. Eu ainda tenho alguns sonhos, quero entrar num mestrado, com estudo voltado para a primeira infância que é algo que eu acredito e a vida não para por aqui, ainda há muito que ser feito.

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