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Buguinho: Lutando para vencer preconceitos e construir uma vida

Por: João Oliveira | Editoria: entretenimento | 14/04/2018 | Visualizações: 3222

Buguinho e os cinturões disputados MCM, em Cássia (2014) e no Contact Fight, em Ibaté (2015) - Foto de Arquivo pessoal

O atleta Jésus Ferreira da Rocha, o Buguinho, é a prova de como o esporte pode transformar a realidade e colocar nossos jovens no caminho do bem. Natural de São João da Boa Vista, mas criado em Piumhi, Buguinho passou por momentos difíceis na infância e encontrou no esporte um objetivo para seguir em frente. Lutador de Jiu-Jítsu, MMA e Muay Thai, aos 26 ele comanda a Academia “Buguinho Fight Team”, espaço onde começou como professor e hoje é proprietário. Filho de Roberto Rodrigues Pereira e Leonice Ferreira da Rocha, Buguinho é casado com Racsilene Alves Berriel e pai do jovem Victor Hugo, de 5 anos, e da Tayla Geovanna, de três meses. É com muito carinho que ele recebe o Jornal do Sudoeste para contar um pouco da sua história, dos preconceitos que sofreu e das dúvidas que viveu até alcançar a realização dos seus sonhos.

 

Jornal do Sudoeste: Você é natural de São João da Boa Vista. Como ocorreu sua mudança para Piumhi?
Buguinho: Onde nós morávamos era uma cidade muito carente de oportunidades e as condições de vida eram muito ruins. Meus pais foram antes de mim e eu fiquei em São João da Boa Vista, só me mudei quando tinha sete anos. Foi em Piumhi que se iniciou toda a minha trajetória do Jiu-Jítsu, MMA e Muay Thai. À época, meus pais trabalhavam em lavoura de café, foi o que motivou a vinda e permanência em Piumhi. Era muito comum as pessoas da minha terra natal virem para esta região trabalhar nas lavouras e depois voltar. Porém chegou uma época que meu pai foi e não quis voltar mais.

 

Jornal do Sudoeste: Como foi a infância e sua formação acadêmica?
Buguinho: Minha infância foi um pouco complicada. Foi uma infância um pouco chata, primeiro porque eu vivi certo tempo longe dos pais, houve também outros problemas, mas meus pais são pessoas ótimas. A fase de escola foi toda em Piumhi, depois que terminei o ensino médio fiz alguns cursos, entre eles Administração. Meus pais queriam que eu fizesse faculdade, mas foi justamente nesta época que começaram a surgir proposta para que eu fosse lutar, então adiei isso por um tempo, mas pretendo, ainda este ano, começar uma faculdade de educação física e posteriormente fazer nutrição.

 

Jornal do Sudoeste: Quantos anos tinha quanto fez sua primeira luta profissional?
Buguinho: Eu tinha 16 anos, meu pai teve que assinar um termo de responsabilidade para que eu pudesse lutar, não tive muito apoio da família porque eles não acreditavam que eu migraria para o esporte, mas sempre fui teimoso e, graças a Deus hoje estou aí, vivendo disso.

 

Jornal do Sudoeste: E como foi esse começo no mundo das lutas?
Buguinho: Na verdade, o primeiro esporte que eu fiz foi capoeira, eu tinha seis anos. Lembro que eu tinha certo preconceito com o Jiu-Jítsu antes de começar a praticar o esporte, mas um colega me incentivou e fui fazer um treino, acabei me apaixonando, tanto que nunca mais parei e hoje já sou faixa preta. O MMA foi mais por curiosidade: recordo que na época que eu treinava, o “Vale Tudo” estava muito em alta. A primeira luta que eu vi foi do Ronaldo Jacaré contra o Macaco e eles sempre entravam com música e eu pensava que um dia também lutaria nesta modalidade. Os meus parceiros de treino e até mesmo meu treinador da época fazia chacota comigo, dizendo que eu nunca lutaria isto, mas eu dizia que um dia lutaria no Jungle Fight, um dos maiores eventos desta categoria na América Latina e consegui. Já foram 12 lutas, fora outros eventos tão grandiosos quando o Jungle.

 

Jornal do Sudoeste: E como foi a sua primeira luta profissional?
Buguinho: Eu sempre treinei Jiu-Jítsu e Muay Thai, mas queria lutar o MMA e sabia que o lugar onde eu treinava na época não me proporcionaria essa luta, foi quando decidi migrar para São Paulo. Lá eu treinava na Aliança com o Alexandre Sagat e ele conseguiu fechar uma luta para mim, em São Mateus, onde fiz minha estreia. Foi uma luta rápida, consegui ganhar no primeiro round por finalização e depois dessa, começaram a surgir várias outras oportunidades. Lutei a segunda edição desse evento e cheguei a levar o cinturão. Depois lutei em vários outros eventos como o Gladiator Fight, Contact Fight, Jungle Fight e outros. Só não lutei fora do país ainda, porque não tenho o passaporte e também tem o custo, que é muito alto.

 

Jornal do Sudoeste: E como Paraíso entra nessa história?
Buguinho: Estavam surgindo muitos contratos de luta, e nesse percurso eu conheci o Weder Medeiros, que organizava eventos de MMA; ele me chamou um dia para lutar em Franca. Na época ele disse que estava montando uma academia em Paraíso e precisaria de alguém para dar aula. Ele gostou da minha luta e me fez o convite, isso lá nos idos de 2012. Quando inaugurou a Academia eu já estava aqui e fiquei. Eu vim para dar aula, mas sempre tive vontade de abrir a minha própria academia e hoje já consegui isto, é um sonho realizado.

 

Jornal do Sudoeste: E como está a valorização desses esportes hoje?
Buguinho: O nosso esporte (MMA) está desvalorizado. Hoje em dia, quando você vai disputar um campeonato, é praticamente tudo por conta do atleta, antes os organizadores bancavam hospedagem, alimentação, a viagem e hoje isso já não acontece. Há aqueles organizadores que arcavam com parte da hospedagem e outra parte fica por conta do atleta, enfim, a bolsa que você recebe não paga esses gastos. Eu desanimei muito do MMA por conta disto, não estava compensando. O Jiu-Jítsu, comparado ao MMA, está muito melhor, há muita procura por esse esporte e os eventos pagam ao ganhador - absoluto em faixa preta - , por exemplo, um valor bem expressivo, então duas lutas que um atleta fizer e ganhar no mês, já uma renda boa.

 

Jornal do Sudoeste: Apesar disto, o que o esporte significa para você?
Buguinho: O esporte mudou a minha vida, de tudo o que aconteceu na minha infância, eu poderia estar preso ou no caminho das drogas, mas graças a Deus sempre tive a cabeça boa e sempre soube o que eu queria para mim. Minha vida não foi fácil e o esporte ajudou a mudar isto. E é tão importante que as mães sempre nos procuram para ter uma atividade para os filhos, como o Muay Thai e, principalmente, o Jiu-Jítsu que, mais que uma luta, é uma filosofia de vida e nos ensina a lidar com as derrotas. Há aqueles que não aceitam perder, porém na vida estamos sujeitos a tudo, tanto às derrotas quando às vitórias, temos que saber se reerguer e lidar com as frustrações. 

 

Jornal do Sudoeste: Qual foi a luta mais difícil que você já enfrentou?
Buguinho: A luta mais difícil que eu enfrentei foi contra o Vitor Coelho, no Rio de Janeiro. Era uma luta de cinco roundes, ele ganhou o primeiro e era muito rápido para a categoria, foi um round que apanhei bastante; já no segundo consegui controlar a distância e ganhar dele, mas foi o terceiro round que decidiu a luta, e ganhei. Comecei a bloquear os golpes e em um desses bloqueios ele quebrou a perna, não considero uma grande vitória, mas foi uma das lutas mais duras que já enfrentei. No Jiu-Jítsu, foram três lutas difíceis, mas a mais difícil delas foi com um americano, Devid Glaude, na final do Mundial da CBJJE, em São Paulo. Foi uma luta muito dura e ganhei por vantagem. Já no Muay Thai foi contra o Bruno Henrique, o primeiro round foi difícil pelo fato de ele ser mais alto, mas do segundo para frente consegui dominar a luta e no terceiro ganhei por nocaute. Foram várias lutas marcantes, no total foram 22 lutas e 20 vitórias.

 

Jornal do Sudoeste: Você é pai de dois pequenos, o que isso mudou na sua vida?
Buguinho: É uma experiência boa, sempre tive vontade de ser pai e isso me amadureceu bastante, veio as responsabilidades e quando aconteceu eu já estava preparado. Sempre tive vontade de ter uma filha e veio a Tayla.

 

Jornal do Sudoeste: Você tem levado essa filosofia do esporte aos seus filhos?
Buguinho: Sim, em casa todo mundo luta, somente a pequenina que não. O Victor chegou a participar de algumas competições e já coleciona algumas vitórias. Eu tenho buscado levar essa filosofia para ele, mas futuramente, se ele quiser escolher outro caminho irei apoiá-lo em sua decisão, porém ele já realizou um dos meus sonhos, que era de vê-lo lutar, não achei que fosse tão cedo, mas já aos cinco anos lutou e foi campeão. É meu orgulho.

 

Jornal do Sudoeste: E qual o balanço que você faz dos 26 anos?
Buguinho: Não foi fácil, amadureci bastantes e passei por cima de muito preconceito. As pessoas diziam que eu não conseguiria viver do esporte, que não conseguiria lutar, tanto que na academia onde comecei a treinar diziam que eu era um neguinho e que eu não iria conseguir nada na vida. Eu era uma criança e ouvir isso é muito frustrante, mas passei por cima de tudo e as críticas só me fortaleceram. O que eu deixo de lição a essas crianças que passam ou passaram pelo mesmo que eu, é que nunca desistam de seus sonhos, independente do tempo que levar e também ter humildade, nunca passar por cima dos outros... como dizia meu mestre de Muay Thai, é de tijolo em tijolo que você constrói o seu castelo. Aprendi muito com esses professores e cada palavra que eles me disseram ficaram marcadas na vida, assim como as palavras de quem não acredita em mim e que duvidavam que eu seria campeão mundial de Jiu-Jítsu um dia.

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