SAÚDE ANIMAL

Assunto delicado...

Por: Rogério Calçado Martins | Editoria: acidente | 25/04/2018 | Visualizações: 2555

- Foto de Reprodução

 


Olá, leitor! Está curioso sobre o assunto? Isso é ótimo! Leia com atenção o texto e não fique com "dó" ou "pena", mas, sim, conscientize-se que de um lado há um "ser vivo" precisando de ajuda e, de outro, há outro "ser vivo" que tem o conhecimento para ajudar, mas não tem "super poderes" para isso! É importante que ambas as partes saibam disso, porque quem tem o conhecimento da ajuda, não pode se achar um deus milagroso e nem merece carregar esse peso da expectativa que as pessoas tem sobre resultados quando o assunto é Medicina. É impossível para alguém ter o conhecimento total dessa ciência. E isso é frustrante, tanto para o leigo, quanto para o profissional. Até porque, nosso corpo é "mutante", ou seja, ele adapta-se e cria "novos jeitos" para "driblar" o que saiu do normal. E, muitas dessas "compensações" que o organismo cria, ainda estamos tentando decifrá-las, como "surgimento" e "desaparecimento" de determinados receptores em nosso corpo e etc. Tudo ocorre de maneira à "resgatar" a normalidade do funcionamento orgânico. Mas, muitas vezes não dá certo e o corpo não consegue reaver sua "homeostasia", ou seja, o equilíbrio, o que, invariavelmente, ocasiona doenças crônicas ou mesmo o óbito.
O tal "assunto delicado" é um verdadeiro tabu: o alarmante aumento dos casos de suicídos entre profissionais da saúde, principalmente entre médicos e médicos-veterinários. Essas duas classes estão no topo da lista e os casos aumentam vertiginosamente, demonstrando uma preocupação mundial. Um estudo britânico apontou que médicos-veterinários possuem quatro vezes mais chances de suicídos do que a população geral e o dobro de chances de outros profissionais da saúde. Estudos recentes da Fundação Americana para Prevenção do Suicídio, mostrou que médicos tem três vezes mais chances de suicídio que a população em geral. E ocorre tanto para jovens quanto para os mais velhos. 
não é um assunto que as pessoas queiram conversar ou saber. Isso é natural, pois assusta e, até mesmo, apavora! Mas, é muito importante que olhemos o ser humano antes do profissional, afinal, todos somos um "mundo particular" com problemas e  alegrias, anseios e frustrações, desejos e decepções onde ninguém é capaz de avaliar ou mesmo julgar o que o outro é ou está passando. É preciso colocar-se no lugar do outro, ter compreensão.
Geralmente, a fraqueza surge quando as preocupações, o cansaço e as dores emocionais se acumulam em um nível tão alto, que o profissional se sente incapaz até de exercer suas tarefas mais básicas
Uma luta interna é travada para reencontrar o equilíbrio, geralmente acompanhada de uma angústia profunda e de difícil controle. A imagem de "super-herói" que profissionais da saúde carregam é algo que os próprios e a sociedade criaram e que, atualmente, percebe-se ser, talvez, o grande vilão de tudo. É preciso enfrentar a morte todos os dias na rotina de trabalho, e nem sempre consegue-se vencê-la. É aí que a "onipotência" torna-se "impotência", carregada de frustração, agonia e sofrimento psicológico intenso. Há o rótulo de que profissionais da saúde precisam ser perfeitos 100% do tempo e isso é frustrante, porque não o somos e temos dificuldade em enfrentar isso. É importante diferenciar conhecimento, dedicação, profissionalismo com perfeição. E essa frustração leva à cobrança pessoal excessiva, à depressão, à desesperança, à queda vertiginosa de energia vital e, em casos extremos, à vontade de erradicar de vez o "sofrimento" através do suicídio.
Muitas pessoas observam suicidas como fracos, mas não é assim. Nenhum "fraco" tem a coragem de retirar a própria vida! Além disso, a fragilidade usual humana não é vista pela população em geral como algo que aconteça com os "super humanos" da área da saúde. E é exatamente essa imagem que faz com que esses profissionais não queiram procurar ajuda, pois a exposição das emoções assusta ambos: profissional e população.
Há estudos que apontam certos "gatilhos para o suicídio", mas os motivos relacionados não são os mesmos para todos, pois dependem da parte pessoal, do ambiente de trabalho e do ambiente de vida pessoal social e familiar. O contato íntimo com dor, sofrimento e mortes, cobranças, medo de falhar e limitações de conhecimento e de recursos para trabalhar, além das expectativas dos pacientes aos quais não temos respostas (porque a própria Medicina também não as tem, ainda) juntam-se aos diversos outros fatores e acumulam-se como uma bomba prestes à explodir à qualquer momento. Tentar viver de acordo com a expectativa de outros, sem ter consciência de todas as limitações que isso envolve, é apontado como muitos profissionais como um dos principais fatores que desencadeiam processos de depressão, angústia e tristeza profunda.
Muitas vezes o profissional tem o conhecimento, mas não tem boas condições de trabalho, falta material adequado, falta equipamentos de auxílio de diagnóstico, associados ao desconhecimento do paciente, com cobranças excessivas em situações extremas. É como atravessar o deserto do Saara de bicicleta, sem banco e com pneus murchos, ao mesmo tempo em que tem que explicar o porque de não conseguir avançar nessa situação e o outro, mesmo assim, ainda não entender esse porquê! Vai indo, isso cansa!
Entretanto, se de um lado todos esses fatores estressantes potencializam essa situação, por outro lado "fatores de proteção" amenizam e, até mesmo, anulam tudo isso. Ter uma família unida, amigos sempre à volta, horas de lazer, uma crença ou religião e uma boa rede de contatos profissionais são apontados como extremamente úteis e eficazes na luta diária pela saúde psicológica de médicos e veterinários. O suicídio não é a solução; ao contrário: é aumentar o problema, já que o espírito não morre e, certamente, a responsabilidade dos atos será "cobrada" em alguma oportunidade da sua existência. E o sofrimento e a confusão psíquica certamente aumentarão até que, em algum momento da sua existência (corporal ou espiritual), ele tomará consciência do que é "vida" (terrestre ou celestial) e terá resiliência e capacidade de enfrentamento das adversidades.
É claro que estamos falando de pessoas, onde nem todas serão engajadas, éticas e preocupadas com o bem-estar do outro. Portanto, mesmo sem julgar, presupomos aqui, falar de profissionais dedicados e comprometidos com a causa médica: aliviar sofrimentos através do conhecimento. Para médicos e veterinários, é preciso consciência de seus limites e dos limites atuais das ciências médicas e, desse modo, trabalhar a conscientização das pessoas sobre isso, para que elas conheçam suas patologias e suportem seus próprios sofrimentos e anseios sem descarregá-los nas costas dos profissionais da saúde.
Por fim, é preciso repetir que nenhum profissional da saúde sai para trabalhar com o objetivo de prejudicar seus pacientes. É essencial ter Fé em Deus (ou na 'força" em que você acredita) e confiança na vida, sem julgar os pensamentos dos outros sobre nossos atos, desde que estes "nossos atos" sejam dignos e compatíveis com a natureza para a qual exercemos nossa profissão e sejam guiados pela ética e boa prática médica geral!


* ROGÉRIO CALÇADO MARTINS– médico-veterinário – CRMV/MG 5492
* Especialista em Clínica e Cirurgia Geral de Pequenos Animais (Pós-graduação “lato sensu”)
* Membro da ANCLIVEPA (Associação Nacional de Clínicos Veterinários de Pequenos Animais)
* Consultor Técnico do Site  www.saude animal.com.br
* Proprietário da Clínica Veterinária VETERICÃO (São Sebastião do Paraíso/MG)

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