CRÔNICA - Joel Cintra Borges

Primeira vez...

Por: Joel Cintra Borges | Editoria: cultura | 28/04/2018 | Visualizações: 1527

- Foto de Reprodução

Primeira vez...
Mal entrou na cidade, ele a viu. Morena bonita, cabelos pretos e lisos caindo sobre os ombros. Olhos firmes e penetrantes, queixo empinado e altivo, andar gracioso, mas decidido, como quem sabe muito bem para onde vai.
Acompanhou-a com os olhos muito tempo, até que seu vulto desapareceu numa esquina.
-  Caso com essa moça! - foi a ideia que lhe veio à cabeça, sem nem mesmo saber porque.
E cupido parece que ouviu suas palavras, resolvendo torná-las realidade: encontravam-se com frequência, tudo na base do acaso, da coincidência... E a paixão explodiu, como fogo em capim seco.
Juliana era boa moça, mas que gênio terrível! Autoritária, explosiva, era tida como indomável. 
Quando alguém tocava nesse assunto, ele apenas sorria de forma enigmática. O que será que queria dizer com isso? Tem homem que gosta de mulher brava, adora ser mandado...
Chegou o dia das bodas. Festa alegre, barraca grande para as danças. E uma Lua cheia, enorme, que parecia estar admirando tudo.
Dia seguinte partiram para as terras do marido, em dois cavalos comprados anteriormente. Ela, num baio manso, ele montado num alazão sestroso, rebelde.
E puseram-se a andar, lado a lado, sem muita conversa. Um sondando o outro.
Horas depois, Sol já alto, o alazão começa a pular. Relincha, anda de lado. Com pulso firme, o homem controla-o. Passada a tormenta, ele olha para o animal e diz:
-  Primeira vez!
A mulher ouve sem entender. Também não pergunta, que não era pessoa de dar braço a torcer.
E continuam, ora devagar, ora depressa. Tudo parecia calmo, quando o cavalo rebelde resolve tomar as rédeas. E pula, corcoveia, galopa. Mas, o peão é bom. Firma-se, cutuca na espora, até que o bicho acalma. Então, ele se inclina para a cabeça do alazão e fala:
-  Segunda vez!
A esposa o olha interrogativamente. Chega até a abrir a boca para perguntar, mas, contém-se. Prefere aguardar que a explicação venha espontânea.
O animal segue tranquilo. Tudo indica que aprendeu a lição. Entretanto, léguas adiante ele se insurge de novo. E desta vez para valer. Salta como um demônio, disposto a jogar de vez o cavaleiro ao pó.
O homem não titubeia. Tira o revólver da cintura e atira na cabeça do cavalo, matando-o instantanea-mente.
No chão, tira o arreio e o alforje com seus pertences e senta-se, aguardando a esposa, que chega vermelha como tomate e ardida como pimenta. E fala sem parar, criticando seu gesto intempestivo, ao mesmo tempo que aproveita para ditar as regras, deixando claro quem era o chefe da casa. 
Ele não retruca, nem briga.
Com a calma de sempre, olha dentro dos olhos de Juliana e sussurra:
-  Primeira vez!
Contam, pelas bandas de onde se deu esse caso, que nunca se viu casal tão feliz, nem esposa tão cordata...

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