ENTRETANTO

Entretanto

Por: Renato Zupo | Editoria: justica | 02/05/2018 | Visualizações: 3862

- Foto de Reprodução

OH, TEMPOS!.
Sou da denominada Geração X, que nasceu depois da Segunda Grande Guerra e antes da queda do Muro de Berlim. Cresci assistindo TV preto e branco, e olha que eu morava em Belo Horizonte, hein? Sou da época em que havia um profissional chamado “anteneiro”, que subia no telhado da casa da gente para ajeitar aquela antena espinha de peixe que era a única a captar as poucas quatro ou cinco estações de TV que se sintonizava em canais abertos (não havia TV paga ou a cabo). Até a minha adolescência, jamais convivi com um controle remoto! Comecei minha carreira teclando em máquinas de escrever e quando os primeiros computadores surgiram eram quase que só teclados à frente de um monitor monocromático e uma memória que não processava direito o mais singelo videogame. Computadores, aliás, eram caríssimos e só fui tê-los quase me formando, lá pela época da internet discada e dos telefones celulares começando. Seus processadores eram lentíssimos e se você usava internet sua linha telefônica ficava indisponível e vice versa. Os celulares eram do tamanho de interfone de condomínio, tinham antena igual rádio de pilha e só pegavam em alguns bairros das grandes cidades. Essa era (e é) a minha geração X. Querer que gente como eu se acostume com processos eletrônicos, aplicativos de celular que faltam fritar bife, redes sociais, home banking, etc... É pedir demais. O mais triste é que os profissionais de hoje estão mortos, liquidados e fora do mercado se não aprenderem rapidinho como é que se processa isso tudo.


PROCESSO ELETRÔNICO
É claro que tenho que me adaptar. Na internet você me acha facilmente, no meu site, na página do Facebook, sou Youtuber e videoblogueiro. Me modernizei? Não. Impossível. Tenho gente que faz isso tudo pra mim, amigos e prestadores de serviços mais modernos e aclimatados a esse mundo binário e virtual. Só consigo expor minhas ideias na tela do computador, o compartilhamento deixo pra quem sabe. Com o processo eletrônico que já é a regra nos tribunais superiores e nas comarcas do interior, estou sendo obrigado a me acostumar com processos sem papel, a trabalhar e presidir audiências sem os históricos “autos do processo”. É muito estranho. E saber que um maldito clique fora do lugar apaga tudo, que suas decisões estão dispersas em nuvens... Amigo, é um pesadelo distópico de ficção científica para um dinossauro como eu. Na faculdade de Direito, estudei leis e doutrina, não aprendi a  virar um hacker! Minha visão vai falhando no fim do dia de tanto ler janelas que se abrem em um sistema de dados e em um ambiente virtual que não são em nada amigáveis. Não é como ler a revista Veja ou a Folha de São Paulo pela internet – com isso já me acostumei. A leitura de periódicos não é prazerosa como no papel impresso, mas a navegação (que até pouco tempo se restringia a barcos e velhos lobos do mar) é fácil e simples. Algo como votar em urna eletrônica. Não. Os sistemas de dados governamentais, dentre estes obviamente aqueles que contêm a tramitação dos processos judiciais, são chatíssimos, difíceis de navegar, uma monotonia só e incompreensível em um ambiente hostil. Comparar um site de notícias com um processo judicial é como comparar uma revista Playboy com uma prova de matemática. Também, pudera, tudo que é estatal é nacional e é fornecido através de licitações e concursos. Aí não dá. Não se pode por terno e gravata na criatividade, é impossível estatizar a genialidade, é inviável engessar a tecnologia com entraves burocráticos ou tratar o empreendedorismo como se trata o serviço público.


OUTRAS GERAÇÕES
Falei da minha Geração X. Há outras. Antes de mim vieram os “baby boomers”, gente que nasceu com o fim da Segunda Grande Guerra e antes do homem pisar pela primeira vez na lua, no final da década de 1.960.  São assim chamados porque considerável parcela da  população mundial pereceu no conflito entre as grandes potências, algo em torno de quinze milhões de pessoas, entre civis e militares, e então era necessário repovoar o mundo. Diversos países europeus investiram pesado nisso, em incentivar a natalidade, e assim as pessoas procriaram como coelhos por duas décadas. Casais com menos de três, quatro filhos, eram raridade, graças ao incentivo governamental. Isso minguou quando se relembrou do velho Malthus, filósofo e economista, que dizia um século antes do perigo de se ter mais bocas para alimentar do que comida no mundo. Houve então um refluxo com a minha geração X, e deixou de ser elegante por tanta gente assim no mundo. Foi mais ou menos aí que acabou o milagre econômico. E depois de mim? A geração Y, surgida dos anos 1.990 para cá, já antenada no mundo virtual, mas ainda vinculada a antigos valores: crianças que jogavam bola depois da escola, faziam dever de casa em cadernos de papel antes de dar boa noite aos pais e ir para a cama. Adultos que entravam e saíam da internet: não se vivia nela! Com o novo século, surgiu a atual geração Z, toda virtual, que namora e casa através das redes sociais, trabalha com a fuça enterrada o dia inteiro numa tela de laptop e nem conhece a cara do vizinho ao lado. Crianças da Geração Z vivem com smartphones e tablets nas mãos e não sabem o que é soltar uma pipa. Aprendem a andar de bicicleta, mas não praticam. Não pegam ônibus, pegam Uber. Não viajam para locais paradisíacos, porque lá não há wi-fi. Pensando nisso, indago: como será a próxima geração?
RENATO ZUPO, Magistrado, Escritor.

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