ELY VIEITEZ LISBOA

Opções

Por: Ely VIeitez Lisboa | Editoria: cultura | 06/05/2018 | Visualizações: 3071

- Foto de Reprodução

O livre-arbítrio sempre me pareceu uma via de mão dupla, um presente de grego. Para os animais, tudo é mais simples. Eles seguem o instinto, que é forte, não têm censura, sensação de culpa ou remorso.  Com os seres humanos tudo é mais complicado e a complexidade depende, em princípio, do direito de escolha.
Sabe-se que o homem é um animal pretensamente livre. Ele pode optar, mas opção tem um ônus alto: há que assumir as consequências. Assim se pode, objetivamente, definir o adulto como quem opta e arca com os resultados de suas escolhas.
Ora, o trágico é que a necessidade de optar sempre é inexorável. Mudam-se apenas os tipos de escolhas, das mais simples às mais variadas. Há que se ficar atento também aos tipos diversos de opções, de acordo com o que advém delas. Há umas que propiciam efeitos definitivos. São caminhos sem volta, tragédias sem solução. Poder-se-ia exemplificar com os desastres genéticos. Às vezes a possibilidade de acontecer é uma porcentagem ínfima. Arrisca-se. A desgraça acontece. Ou algo mais corriqueiro, como o perigo de, estando alcoolizado, guiar um veículo, alerta comum e proibido por lei. Comete-se a insensatez. Vejam-se os resultados veiculados pela mídia, com mortes e outros infernos.
Mudam-se sempre os costumes. É algo inevitável. As causas várias vão desde o pretenso progresso, ao exagero do uso da tecnologia, ou o fanatismo religioso. Tais temas já foram explorados à exaustão. A opção, que parece definitivamente atrelada ao livre-arbítrio, sofre as mais variadas influências, inclusive as genéticas e/ou as sociais e as dos países de origem. 
Há um poema famoso de Carlos Drummond de Andrade, com o título de "Deus Mal Informado", no livro Boitempo & A Falta Que Ama (1968). Nele o Mago de Itabira apresenta uma teoria sobre a criação do homem, hipótese nada científica ou teológica, mas lírico-filosófica: O homem pisa "No caminho onde pisou um deus" e, magicamente, "em deus se erige, insciente, deus faminto, saudoso de existência". Mas como "a estrada se parte, se milparte, / a seta não aponta / destino algum", o homem se torna homem, novamente.
Um texto pode apresentar muitas leituras. No poema encontram-se as temáticas da procura da perfeição impossível, a ânsia pela eternidade, a menção da efemeridade da vida. Ao homem, este pobre macaco glabro, bípede, canhestro, resta sua condição humana: o único animal que tem ciência da inexorabilidade da morte, suas fraquezas e grandezas, a fragilidade e a insciência. Ele desconhece totalmente seu destino, seu futuro. Na cegueira, inventa hipóteses, cria mirabolantes teorias do post-mortem. 
Todavia, resta-lhe um trunfo perigoso, mas de valor: ele pode optar. De certa maneira tem as rédeas diante dos acontecimentos e situações que surgem. Se nosso herói é inteligente, precavido quando necessário, audaz quando sua existência se complica, será um vencedor. Caso contrário, ele será sua própria vítima.

(*) Ely Vieitez Lisboa é escritora.
E-mail: elyvieitez@uol.com.br

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