ELY VIEITEZ LISBOA

A comédia dos erros

Por: Ely VIeitez Lisboa | Editoria: acidente | 19/05/2018 | Visualizações: 1585

- Foto de Reprodução

Um modo de agir que se torna, modernamente, cada vez mais obsessivo, é a glória vã, a falsa originalidade a qualquer preço, os quinze minutos de fama, como episódios ridículos, quando alguém faz algo dúbio e duvidoso e a mídia comenta o caso como uma coisa notável. 
Na literatura também há essas aberrações. Incapaz de produzir um bom texto ou livro, surge do nada um autor que resolve inovar valores clássicos, diferir de opinião sobre obras do mais alto teor literário, para ser diferente, original... Foi o caso específico de um crítico famoso, que deve ter tido uma diarreia cerebral e execrou o romance D. Casmurro. Aconselhava que o romance precisava ser mantido distante dos colegiais. 
O problema é muito mais complexo. Examinem-se as causas por que os jovens detestam D. Casmurro ou qualquer clássico e livros sérios. A culpa é do ensino de literatura, teórico e superficial, da falta de orientação na leitura dos estudantes do curso médio e dos vestibulandos. É levar os jovens acostumados a comer fast-food, a um grande banquete de comidas refinadas, que eles jamais experimentaram. Eles detestarão ou terão indigestão na certa. 
Outro problema sério no campo literário é o antônimo de tal situação. Vira moda certo tipo de análise dos procedimentos literários de uma obra famosa e todo mundo o faz, à exaustão. Cite-se o infeliz e falacioso julgamento da culpa ou inocência de Capitu. Muitos professores incautos caíram na esparrela de realizar tal julgamento e até a escritora americana Helen Caldwell meteu-se a julgar, inocentando Capitu. 
Na verdade, a grandeza de Machado de Assis, em D. Casmurro, é a atualidade e a complexidade humana. A chave mestra do romance é a ambiguidade deliberada, característica precípua da literatura moderna. Jamais se poderá provar a culpa ou a inocência de Capitu, pois a dubiedade da narrativa na trama é sua grandeza. Tentar resolver as dúvidas ou rotular as paixões de suas personagens, do seu enredo, é empobrecer a obra e não tem nenhum valor literário.
Outro erro é analisar a obra pela vida do autor. A verdadeira análise deve ser  específica, detalhada, minuciosa do texto. O resto é falácia. 


(*) Ely Vieitez Lisboa é escritora.
E-mail: elyvieitez@uol.com.br

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