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A psiquiatra Mildred Preto Gomes Zanin

Por: João Oliveira | Editoria: entretenimento | 26/05/2018 | Visualizações: 6298

A médica psiquiátrica Mildred Preto Gomes Zanin - Foto de Arquivo Pessoal

A médica psiquiatra Mildred Preto Gomes Zanin é uma profissional dedicada e muito atenta às mudanças constantes que ocorrem a partir da evolução dessa especialidade que proporcionam, cada vez mais, um entendimento maior do órgão mais complexo do compor humano: o cérebro. Filha mais nova do casal Antônio Gomes do Nascimento e Shirley Faria Preto Gomes, Mildred é irmã do médico Arlei Preto Gomes (já falecido), casada com o engenheiro Pedro Henrique Zanin Junior e mãe do pequeno Gustavo, de oito anos. É com muito carinho que ela recebe a reportagem do JS para falar um pouco da sua vida e explicar melhor sobre sua profissão.

 

Jornal do Sudoeste: Como foi a infância e a fase escolar? 
M.P.G.Z.: Minha infância foi muito tranquila, muito saudável. Estudei no Noraldino Lima até a quarta séria, e depois estudei no Colégio Paula Frassinetti. Minha mãe foi diretora no Noraldino durante muitos anos, inclusive quando estudei lá, mas como eu era boa aluna, não tive problema algum. Aqui, estudei até o segundo colegial e depois fui para Ribeirão Preto, onde fiz o terceiro ano e cursinho, eu tinha 16 anos  e, naquela época, não havia um cursinho no município. Lá, prestei vestibular e passei na Faculdade de Medicina de Catanduva, a Fameca. Durante o curso de medicina experienciei várias áreas e a partir do quarto ano me dediquei mais a psiquiatria, apesar de ter passado pelas outras áreas. Concluí minha faculdade de Psiquiatria na Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto, foram mais três anos. Morei esse tempo todo fora, nove anos, depois disso voltei para Paraíso.

 

Jornal do Sudoeste: Por que medicina? 
M.P.G.Z.: Não sei dizer o porquê da Medicina, talvez por meu irmão ter sido um exemplo e, como eu sempre fui boa aluna, de destaque e com boas notas, a vida foi me levando a seguir esse caminho. Já a Psiquiatria foi uma paixão pela área, foi realmente vocação. Quando ingressei na faculdade, não sabia exatamente o que eu poderia escolher, mas a gente vai percebendo o que mais chama atenção e, essa área da mente, a partir do terceiro ano de estudo, na área da psicologia médica, isso foi me chamando atenção e, quando entrou no estágio da psiquiatria e tive esse contato com hospitais psiquiátricos e pacientes, vi que esse era o meu lugar. Depois de formada, voltei para Paraíso e trabalhei durante muitos no Hospital Psiquiátrico Gedor Silveira, onde atendia no ambulatório no serviço público e sempre mantendo o consultório particular. Depois de algum tempo, abandonei o serviço público e passei a atender somente em consultório.

 

Jornal do Sudoeste: O que é a psiquiatria? 
M.P.G.Z.: É uma área médica cujo profissional cuida na parte mental, da parte neuroquímica cerebral, ou seja, que cuida de doenças de cunho emocional que, dependendo do que acontece, atrapalha muito a vida da pessoa e, felizmente, hoje há tratamentos.

 

Jornal do Sudoeste: Qual a diferença entre psicologia e psiquiatria? 
M.P.G.Z.: A Psicologia é uma faculdade separada. Esse profissional tem várias áreas de atuação, assim como na medicina; ele pode ter uma formação empresarial, formação de psicopedagogia e trabalhar com crianças ou com a psicologia clínica, que é o que mais se confunde com a psiquiatria. O psicólogo é o profissional cuja formação ajuda a lidar com a sua estrutura emocional, com o comportamento, de como é o ser da pessoa e como lidar com situações da vida sem passar por tanto sofrimento. Já o psiquiatra é um médico que também pode trabalhar com psicoterapia, se tiver essa formação, mas ele trabalha com a área químico-cerebral, ou seja, com as patologias e sintomas patológicos das doenças. É lógico que muitas doenças psiquiátricas exigem tanto o empenho de medicação para regularizar a parte neuroquímica em paralelo com a mudança de comportamento também que, às vezes, o psicólogo ou próprio psicoterapeuta pode trabalhar.

 

Jornal do Sudoeste: Há muito preconceito no que se refere à busca por esse profissional? 
M.P.G.Z.: Ainda existe, mas hoje já diminuiu bastante, tendo em vista a acessibilidade ao profissional e o número de psiquiatras que também cresceu bastante. O tabu em relação a essas doenças da mente tem reduzido e acredito que talvez pelas discussões mais amplas que tem havido na mídia e que estão esclarecendo que há doenças que às vezes as pessoas nem imaginavam que poderia ser considerado como tal e que geram sofrimento e que tem tratamento. E as pessoas têm buscado isso mais do que antes e é muito importante.

 

Jornal do Sudoeste: Há aqueles que ainda encaram a depressão como frescura...
M.P.G.Z.: Sim, ainda existe e acredito que deva ser muito dolorido para quem é diagnosticado com essa doença. A depressão é muito diferente de tristeza. Às vezes as pessoas passam por um momento assim e dizem que estão deprimidas, não necessariamente. A tristeza é um sentimento humano, mas depressão é uma doença, independentemente se tem uma causa ou não. É um conjunto de sintomas que deixa a pessoa muito diferente do que ela é e atrapalha muito do ponto de vista social, profissional, familiar, enfim, em todas as esferas. Às vezes, a causa pode ser uma predisposição familiar, ou seja, fator hereditário, ou não, pode acontecer também em decorrência de fatores estressantes anteriores. Mas o importante é que tem tratamento e pessoas precisam buscar essa ajuda.

 

Jornal do Sudoeste: Em 20 anos de trabalho, o que mudou na Psiquiatria em Paraíso? 
M.P.G.Z.: Nesses 20 anos, a questão do preconceito foi diminuindo bastante e, também, foram chegando outros colegas e as pessoas passaram a buscar mais por ajuda. Além disso, nesses 20 anos de atuação, a velocidade das descobertas tecnológicas na área da psiquiatria aconteceu muito rápida, é uma área da medicina que tem muita pesquisa, então foram descobertas e produzidas várias medicações durante esse tempo e gente está sempre estudando, sempre reciclando.

 

Jornal do Sudoeste: O debate sobre as doenças mentais também estão mais amplos? 
M.P.G.Z.: Tem-se aumentado muito o debate hoje em dia e os programas de televisão têm trazido com frequência pautas relacionadas aos assuntos do ponto de vista psicológico e psiquiátrico, como síndrome do pânico, transtorno compulsivo obsessivo e tudo isso é muito interessante, porque as pessoas que estão assistindo se identificam com essas histórias e percebem que não estão sozinhas. Entre as doenças psiquiátricas podemos citar a depressão, quando bem diagnostica, a síndrome do pânico, o transtorno obsessivo compulsivo, fobias especificas, esquizofrenia, dependência química como alcoolismo e estresse pós-traumático.

 

Jornal do Sudoeste: A busca pelo profissional da psiquiatria não pode ser um tabu? 
M.P.G.Z.: Não. Mas ainda existe um tabu, porém vem diminuindo com o tempo. É um trabalho que Associação Brasileira de Psiquiatria faz de muitos anos para trabalhar com a “psicofobia”, ou seja, o preconceito contra a pessoa que sofre de alguma doença mental e contra a doença, porque às vezes há o preconceito dentro da própria família em falar que aquele problema é frescura e não há apoio para a busca do tratamento. Isso ainda acontece, mas acredito que está menos comum.

 

Jornal do Sudoeste: Como você encara a ‘Luta antimanicomial’? 
M.P.G.Z.: É um assunto muito controverso. Vieram com uma política muito radical sem ter uma base bem construída para que pudesse ter respaldo. Fecharam-se inúmeros hospitais psiquiátricos pelo Brasil sem ofertar um atendimento perto do real para um paciente psiquiátrico grave. Eu não sei se funcionou muito, lógico que internações prolongadas e sem necessidade e maus tratos não deveriam ter existido em nenhuma época do mundo, mas existiu e tinha que ser abolido, porém, hospitais psiquiátricos sérios foram destituídos da sua capacidade de sobrevivência por causa de uma política sem respaldo. Diante disto se abriram Caps sem o atendimento adequado para a demanda de todos os pacientes que eram atendidos por esses hospitais. Existem casos gravíssimos que a família não tem condições, naquele momento, de cuidar do paciente e que, dependendo do caso, ele representa risco para si e para o outro. Nestes casos é adequada uma internação até que os sintomas sejam melhorados, depois o tratamento continua em casa ou no CAPS. Porém, a essa mudança foi muito rápida, não sei se estávamos preparados.

 

Jornal do Sudoeste: Fala-se muito no aumento dessas doenças psiquiátricas. Existe um estudo que aponta a causa disso? 
M.P.G.Z.: Há projeções que apontam que até 2050 a depressão será a terceira maior causa de incapacitação do ser humano. Acredito que a vida humana mudou muito nessas últimas décadas, é muito tecnologia, muita informação e não sei se o cérebro humano está preparado para isso ainda, acho que é uma questão de tempo para ele evoluir. Imagino que seja isto e as pesquisas caminham nesse sentido, dos impactos dessa evolução tecnológica, da velocidade de tudo.

 

Jornal do Sudoeste: E como é ser mãe nessa nova realidade, você se preocupa com isso? 
M.P.G.Z.: Com meu filho não. Desde muito pequeno ele tem uma tendência muito grande para o esporte, é um miniatleta. Já foi campeão na categoria dele de tênis, joga futsal e faz natação. Não tem muito tempo para ficar preso nessas tecnologias, apesar de gostar, como todo jovem, mas não me preocupo em limitar o tempo dele nesse sentido.

 

Jornal do Sudoeste: Os pais deveriam se preocupar mais em estimular seus filhos a praticar esporte... 
M.P.G.Z.: Com certeza. Praticar esporte evitar o sedentarismo, faz bem para a saúde e qualquer coisa que a criança goste de fazer para se mexer deve ser estimulado, mas também não se pode tolher a criança da realidade de hoje em dia, das tecnologias, dos brinquedos tecnológicos, porque isso também é importante para ela, afinal ela é desta geração e o cérebro dela está mais preparado que o nosso. Mas tudo tem o seu limite, como por exemplo, evitar a exposição daquela luz durante a noite para diminuir a inquietude durante o sono, que para uma criança é muito importante, principalmente nessa fase de criança.   

 

Jornal do Sudoeste: Finalizando, qual o balanço que você faz até agora de todos esses anos? 
M.P.G.Z.: Foram muito bem vivos, sempre me diverti muito, sempre fiz tudo com muito carinho, com muita dedicação, muita paixão. Não tem nada que eu não teria feito ou deixado de fazer. Para futuro, quero continuar vivendo, fazendo o que gosto. Gosto muito de viajar, quero continuar estudando, praticando esporte e, talvez, o plano seja esse, envelhecer bem.

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