ENTRETANTO

Entretanto

Por: Luiz Carlos Pais | Editoria: justica | 23/05/2018 | Visualizações: 2451

- Foto de Reprodução

DELAÇÃO HISTÓRICA
Penso em Judas Iscariotes e na besteira que fez delatando Jesus Cristo. Não pela perfídia do gesto, afinal Judas já havia sido pilhado por Jesus desviando dinheiro do dízimo arrecadado ao longo das peregrinações daquele grupo messiânico. O que me intriga em Judas é saber em quê exatamente consistiu sua traição e delação. Nenhum texto do livro sagrado explica qual vital informação os romanos ou os judeus receberam de Judas e que propiciou a prisão, o julgamento e a crucificação de Cristo. Nosso Senhor não estava escondido e por onde passava arregimentava multidões, se os evangelhos estão certos quanto a isto. Já se mostrara publicamente contrário à política dos Césares e dos gestores hebraicos comandados por Roma. Já havia questionado os impostos, a moral e os costumes, a escravidão e o colonialismo. Isso na presença de seus desafetos e detratores. Portanto, não era segredo que Jesus era um revolucionário, o que fazia e pensava, e onde estava. Que informações precisavam buscar com Judas Iscariotes? A Bíblia não responde. Péssimo negócio para o delator, que se enforcou apesar de premiado com trinta dinheiros.


MAIS JUDAS
A figura de Judas  é de todo intrigante. Augusto Cury, criador da Escola da Inteligência e best-seller mundial, explica em seu livro “O Mestre Inesquecível” que dentre os apóstolos – que analisa isoladamente- Judas seria o mais qualificado em uma entrevista de emprego. Se só uma vaga estivesse disponível, de todos os apóstolos o traidor histórico de Cristo seria o escolhido para o emprego, porque era apresentável, desafiador no ponto certo, adulador, educado e inteligente. Não era estourado como Pedro, ou quieto e discreto demais como os Thiagos, por exemplo. Judas foi o apóstolo mais competitivo e convencional e mesmo assim decepcionou o nazareno e modificou a história da humanidade. Essa descoberta nos mostra que não somos simplesmente a soma de nossas virtudes e qualidades. Somos muito mais. Também se encontram incrustados em nosso DNA nossos defeitos e nosso discernimento, que é a consciência do certo e do errado e a capacidade de se comportar conforme estes dois conceitos tão evidentes para uns, tão obscuros para outros.


UMA INJUSTIÇA?
Já li relatos que põem em dúvida a traição de Judas. Jesus Cristo precisava de um de seus apóstolos para entrega-lo às autoridades que o perseguiam e teria escolhido Judas Iscariotes dentre os demais do grupo justamente pelas qualidades do candidato a traidor: sua compostura e dissimulação, além da inteligência acima da média. Jesus era, também, um “leitor de almas”, como explica Augusto Cury, e leu em Judas a frieza e objetividade ideais para levar a cabo uma delação encomendada e que permitiria a Cristo tornar-se o cordeiro de Deus e redimir a humanidade. Isso explica, ao menos, porque Judas se enforcou logo após a suposta traição. Não é comum em delatores e traidores covardes o arrependimento. Tampouco se vê psicopatas frios nutrindo remorso ou culpa. Quem comete atos degenerados e pérfidos não somente jamais admite culpa, como não tem autocrítica ou a esconde sob um monte de mentiras. Quem lhes diz isso sou eu, acostumado a ouvir mentiras todos os dias em audiências e tribunais, isso há mais de vinte anos. Então, como explicar o suicídio de Judas? Sinto muito, sou  religioso, mas não é o bastante para mim responder através de dogmas cristãos: que foi a vontade divina, foi um anjo que lhe soprou ao ouvido, etc... Há mais por trás dessa história, o que talvez somente a cumplicidade enigmática entre Judas e Cristo seria capaz de explicar, porque sobre isso as sagradas escrituras se calam.


Mistérios Bíblicos
Há mais, muito mais, a indagar diante do estudo minucioso do livro sagrado. Lamenta-se que o raciocínio lógico da razão teológica, o poder da filosofia untado ao pensamento religioso, tenham se encerrado em Agostinho, Tomás de Aquino e Erasmo, e da idade  média para cá nada mais se tenha produzido no campo das ciências que possa explicar os mistérios da Bíblia. Há indagações de todas as ordens ainda por responder. Por exemplo: de onde se tira que Maria Madalena era adúltera, se ela não era casada? A Bíblia também não menciona explicitamente que Madalena fosse uma meretriz – então por que essa tradição cristã de alcunha-la de mulher de vida fácil? Onde Jesus estava dos treze aos trinta anos? Por que ninguém nos conta essa parte da trajetória do Messias?


O DITO PELO NÃO DITO.
“Aquele que se obstina em ir contra o sentimento geral só lhe resta retirar-se para o deserto, onde possa se deleitar solitariamente com sua sabedoria.” (Erasmo de Roterdam, sacerdote católico e filósofo).
RENATO ZUPO, Magistrado, Escritor

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