ELY VIEITEZ LISBOA

Meu mundo caiu

Por: Ely VIeitez Lisboa | Editoria: cultura | 02/06/2018 | Visualizações: 1161

- Foto de Reprodução

O título acima é de uma música famosa da imortal Dolores Duran. Talvez o leitor não entenda a amargura e ache a razão da minha tristeza muito insignificante. Vou defender-me e espero vencer a causa.
Sempre fui fascinada por escrever e receber cartas. Quando era adolescente não havia rede social, e-mails, mensagens pelo celular. Algumas revistas publicavam endereço de pessoas que gostariam de trocar correspondência. Aos quinze anos eu recebia e escrevia cartas para mais de vinte pessoas jovens, homens e mulheres do Brasil e do exterior.
Na Faculdade conheci a história de Madame Sévigné, famosa pelas suas cartas com um estilo personalíssimo. A maioria eram escritas para sua filha que morava fora de Paris. Madame Sévigné acabou ficando famosa na Literatura Francesa pelo número imenso de suas cartas notáveis, muitas delas com extraordinários relatos da época. 
Dali em diante transformei-me em uma missivista obsessiva. Escrevia cartas enormes para minha mãe, no ano que morei em Paris e antes, para amigos e colegas da Faculdade, em São Paulo (eu estudava em Belo Horizonte). Aconteciam episódios pitorescos: colocavam minhas cartas em murais para que todos os estudantes lessem, pais de alunas comunicavam-se comigo dizendo que adoravam ler minhas cartas.]
Mas veio a vida, o progresso, a comunicação escrita mudou, diminuiu de tamanho e conteúdo: e-mails curtos, sem a preocupação da linguagem, twiters, mensagens no celular. Eu disse adeus às minhas missivas longas, de linguagem bem cuidada, em papéis finos e delicados.
No Dia das Mães recebi uma carta linda, em um belo papel. Minha filha "postiça" mais velha (eu tutelei as três quando tinham sete, oito e catorze anos); ela narrava liricamente o dia em que nos conhecemos, em Aimo-rés, MG.  Encantada, procurei por toda Ribeirão Preto, um papel bonito, fino, de cores leves, para responder. Não encontrei. 
A razão de minha tristeza pode parecer banal, mas é devido ao desaparecimento de vários costumes poéticos hoje em desuso. A vida me parece mais desbotada, mais vulgar, sem beleza. Sinto-me meio jurássica, uma personagem em peça teatral errada. Recolho-me em minha tristeza diante de um problema insolúvel. 
(*) Ely Vieitez Lisboa é escritora.
E-mail: elyvieitez@uol.com.br

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