ELE POR ELE

Wander Vicente Pimenta: uma vida de dedicação ao trabalho e respeito à memória dos pais

Por: João Oliveira | Editoria: entretenimento | 05/06/2018 | Visualizações: 2125

Wander Pimenta foi economiário da Caixa, professor e diretor da Faceac, atualmente Libertas Faculdade Integradas - Foto de Nelson P. Duarte/Jornal do Sudoeste

O economiário aposentado e professor Wander Vicente Pimenta é um homem que durante toda a sua vida tem buscado sempre fazer o melhor no que se propôs, carregando consigo os ensinamentos de seus pais que, conforme destaca, lutaram para criar os três filhos e dar a eles uma vida digna. Prova disto é a carreira sólida que construiu na Caixa Econômica Federal, onde começou como servente de limpeza, aos 16 anos, e chegou a gerenciar as agências em Monte Santo de Minas, Pratápolis e Perdizes. Foi desta origem simples, fruto do trabalho árduo do pai, conhecido no município por entregar leite nas casas, que Vicente Pimenta de Souza e Parisina Susana Rossi Pimenta mostraram a ele o valor do trabalho e a importância de se correr atrás dos seus sonhos. Filho mais velho do casal, Wander tem outros dois irmãos que, assim como ele, também seguiram a carreira bancária, o Luiz Antônio, mais conhecido como Léo, e a Yara. Hoje, aos 75 anos, casado com a educadora Regina Márcia, e pai do Regis, do Wander Filho e do Flávio Vicente, todos os três formados e ligados à área da saúde, que ele recorda com orgulho de todo o seu caminho trilhado e compartida com carinho com a reportagem do  “J.S”.


Jornal do Sudoeste: Seu pai tem uma história de muita luta, como foi essa trajetória dele? 
W.V.P.: Meu pai trabalhava na zona rural, com produção leiteira. Depois de certo tempo passou a vender leite na rua, primeiramente num carinho de mão, depois em uma charrete, após adquiriu uma caminhonete Fiat que o acompanhou até o encerramento dessa atividade. Ele tinha a tarefa diária de entregar leite nas casas em Paraíso na parte da manhã e na parte da tarde ia para a roça cuidar da propriedade, que ficava na região das Águas Quentes. Todavia, depois que meus pais passaram a sofrer com problemas de saúde, foi preciso vender a propriedade, e o fizemos com muito pesar, porque aquela tinha sido a vida deles durante 42 anos. Nós, filhos, cada qual com a sua vida, não tivemos condições de manter a propriedade, apesar de ter tentado por um tempo. Quando ele vendeu esse sítio, em abril de 2002, nunca mais falou sobre, em outubro foi para o outro plano.


Jornal do Sudoeste: Sua infância e juventude como foram? 
W.V.P.: Nós sempre íamos ao sítio, eu e meu irmão, ajudar nos afazeres, mas nem sempre porque eu também tinha a minha atividade profissional. Sempre que surgia a possibilidade, como nos fins de semana e nos momentos de lazer como feriado e férias, ficávamos no sítio e aproveitávamos bastante aquele momento. Íamos para descansar, mas trabalhávamos bastante e fazíamos isso com satisfação, porque víamos o ar de gratidão em nosso pai. Nós sempre primamos pela harmonia, nunca houve na “empresa” Vicpar, empresa que eu criei para me referir aos meus pais, o Vicente e Parisina, atritos. Houve, sim, pequenos desentendimentos que logo se resolviam e até hoje, mesmo após a partida dos meus pais, mantemos essa harmonia e vai ser assim para sempre.


Jornal do Sudoeste: Como foi a criação que seus pais deram a vocês? 
W.V.P.: Naquela época tudo era mais modesto, mais simples. Meus pais não tinham recursos financeiros suficientemente bons, mas nunca nos faltou nada. Dentro da modéstia, da vida simples que nós tínhamos, nossa infância foi regular, eles nunca deixaram faltar nada a mim e aos meus irmãos. Nós vimos àquela infância difícil depois de adultos, naquela época não percebíamos e não sei como meus pais deram conta. Meu pai, com vida modesta, sem exagero de nada e minha mãe, sempre econômica porque não exercia nenhuma atividade paralela, nos criou e fomos crescendo, até que meu avô, Valídeo Rossi, me arrumou um emprego na Caixa, através de uns contatos que ele tinha e lá fiquei, até me aposentar.


Jornal do Sudoeste: Como foi esse início de carreira dentro da Caixa? 
W.V.P.: Eu comecei a trabalhar na Caixa em 17 de junho de 1959, como servente de limpeza. Era um trabalho modesto, mas fiquei até determinado tempo, até que recebemos a visita de um inspetor, o Christiano Severo Tostes, que rotulou minha permanência ali como irregular já que eu não havia entrado ali mediante concurso público, o que era preciso pela Caixa por ser um órgão estatal. Então, a solução era que eu fizesse uma prova, se fosse aprovado continuaria, se não, eu teria que ser demitido. À época, fiz, mandaram para Belo Horizonte e alguns dias depois saiu o resultado dizendo que eu tinha sido aprovado, passando a ser parte do quadro oficial de funcionários da Caixa, onde permaneci até minha aposentadoria, em 1991.


Jornal do Sudoeste: E como foi sua formação acadêmica até então? 
W.V.P.: Estudei no Ginásio Paraisense, depois na extinta Escola Técnica de Comércio, que fechou e acho que isso foi um dos maiores absurdos que já aconteceram. Depois fiz o curso de Ciências Contábeis, na Faceac e, posteriormente, estudei Administração em Franca, já que em Paraíso ainda não tínhamos o curso. Logo após fiz pós-graduação em Recursos Humanos na Unaerp, em Ribeirão Preto. Mas assim que me formei em Franca, fui convidado para dar aula na Faceac, que até então funcionava em um prédio que foi demolido, e onde hoje é o do Itaú. Comecei com muito receio, onde dei aula de administração. O começo foi terrível, quando entrei na classe pela primeira vez, meu joelho tremia, porque integrar é diferente de assistir. Eu me recordo que quando entrei na classe, a turma estava dispersa e não sabia o que fazer para que eles parassem de conversar e me dar atenção, isso nos idos de 1980. 


Jornal do Sudoeste: Mesmo assim você chegou a ser diretor dessa Intuição, não? 
W.V.P.: Sim. Depois que comecei a dar aula na faculdade os anos se passaram e, em 1986, a Fecom me nomeou diretor da Instituição, até então eu mantinha as atividades na Caixa durante o dia e trabalha na Fecom à noite. Porém, em 1989, o até então presidente à época, Fernando Collor, sancionou uma lei que determinava que o funcionário federal não poderia acumular duas profissões. Eu tive que optar por um ou outro, como já tinha mais de 20 anos na Caixa, optei por continuar ali, saindo assim da Instituição em 89. Assim que sai na faculdade, acabei trabalhando em outras cidades também, e, ao me aposentar, em 1991, o diretor da faculdade à época, o José Editis David, assim que soube, chamou-me para voltar à faculdade. Fiquei lá até 2009, quando houve a exigência de que eu tivesse um mestrado para continuar e, naquela idade, com 65 anos, já cansado, não tive ânimo para voltar a estudar e fui excluído do quadro de funcionários da Faculdade. Aquilo me causou tristeza, porque aquela era uma sequência da minha vida e, como eu estava aposentado, ela preenchia um espaço do meu tempo. Cumpri com o que me foi determinado, mas com muito pesar, pois já estava ali há 26 anos: fui professor, diretor e coordenador do curso de Administração. Porém, hoje a faculdade é um passo que dei e que deixou saudade, um passo importantíssimo. A Faculdade cresceu bastante e hoje mantenho ali muitas amizades.


Jornal do Sudoeste: Trabalhar tão cedo não te fez sentir falta de viver a adolescência? 
W.V.P.: De forma alguma. Eu comecei aos 16, minha adolescência foi toda trabalhando. Isso me deu condições de aposentar novo, eu tinha 48 anos quando aconteceu: foram 32 anos, um mês e cinco dias de serviços prestados à Caixa. Então, enquanto outros colegas estavam aproveitando a adolescência, eu estava trabalhando e a noite estudava. Não me senti prejudicado em estar fazendo isso, não fez falta aproveitar a adolescência, isso porque eu gostava daquela rotina. Nunca fui de arriscar muito e de cometer ações próprias de um jovem, sempre fui muito contido, sem cometer exageros, e tenho convicção e certeza de que nunca dei preocupação nenhuma aos meus pais. Papai e mamãe educaram a mim e aos meus irmãos muito bem e procurei transmitir isso aos meus filhos, com ajuda da minha esposa que também foi educadora a vida toda, e pudemos educar nossos filhos para o bom caminho e que seguem a mesma linha de conduta que nós. 


Jornal do Sudoeste: Já pensou ir embora de Paraíso? 
W.V.P.: Não, apesar de ter tido a oportunidade. Na Caixa ocupei a gerência de algumas cidades próximas: em Pratápolis, Monte Santo de Minas e Perdizes. Tive uma carreira dentro da caixa boa que foi de servente à gerente. Tive a oportunidade de ir para Brasília, para ser inspetor. Isso aconteceu após uma visita de inspeção e acabei ficando muito amigo do senhor Osvaldo de Almeida, ainda me lembro muito bem dele.  Ele queria que eu fizesse parte do quadro de inspetores da Caixa. A época já havia me casado, tinha meus três filhos e me faltou coragem de enfrentar uma vida diferente da que eu tinha aqui. Eu teria que viajar muito, mas não me arrependo da decisão que tomei, minha realidade seria outra, mas o aconchego familiar tem um peso muito grande.


Jornal do Sudoeste: O que significou trabalhar em duas grandes instituições de Paraíso? 
W.V.P.: Essa sequência de vida no trabalho teve seus altos e baixos, pude superar os baixos e aproveitar os altos, porque a vida é assim. Tenho muita gratidão a essas duas empresas onde trabalhei, a Caixa e a faculdade e costumo dizer: à Faceac, onde dediquei grande parte da minha vida e que hoje é Libertas, onde fiquei por um curto período. Foi na minha gestão, inclusive, que a Fecom conseguiu autorização para o curso de administração. Estávamos realizando vestibular para o curso de Ciências Contábeis quando o doutor Gilberto de Almeida me comunicou que havia conseguido autorização para o curso de Administração, tivemos que elaborar um vestibular de afogadilho para começar ainda naquele ano o curso. Deu tudo certo, o curso está sólido, reconhecido e agora a faculdade oferece diversos cursos. Foi um período muito importante na minha vida porque tínhamos a ideia de que crescer uma escola na cidade é crescer a própria cidade. E quanto mais o crescimento acontece, mais benefícios a escola propicia aos que fazem parte dela e à própria comunidade. Pude contribuir para essa história e tudo o que eu tenho hoje foi graças a essas duas empresas.


Jornal do Sudoeste: Você também tem uma história de amor com o futebol? 
W.V.P.:  Papai e mamãe não tinham muita aptidão para ao esporte, mas como nós morávamos próximos a Lagoinha e tinha o campo da Coolapa, onde hoje é a Praça de Esportes Castelo Branco, eu jogava bola ali, onde começou tudo. Eu vi que não tinha muita aptidão para jogar na linha e passei a jogar no gol, onde me dediquei. Joguei no Operário, na Associação Atlética Paraisense e no Comercial, que o Macalé passou a tomar conta e foi um time muito comentado na época. Em função das dificuldades que o time tinha em relação a espaço para jogar entre outras questões, ele parou e eu passei a jogar na Copave, que era da Concessionária Chevrolet, até que aconteceu uma fatalidade: um colega nosso, em um jogo que fomos disputar contra a Francana, faleceu em campo, assim o time acabou. Nesse intervalo de tempo, o Cláudio Nóbrega me chamou para jogar na Recreativa, era futebol de salão e eu acabei aceitando e por muito tempo joguei nela até que foi desfeita.


Jornal do Sudoeste: Isso inspirou seu filho, o Wandinho, a também jogar futebol de salão? 
W.V.P.:  Sim. Talvez por eu gostar de jogar no gol, o meu menino passou a me acompanhar aonde quer eu fosse e demonstrou interesse em também jogar no gol. Quando eu percebi isso, passei a incentivá-lo e fazia com ele alguns exercícios que conhecia e, assim, ele passou a aprimorar e começar a ter um conhecimento mais técnico que obtinha com profissionais da área e passou a ter destaque no futebol de salão. Quando nos mudamos para Monte Santo de Minas, ele jogava no América, era o segundo goleiro do time quando disputou a terceira divisão e passou para a segunda, depois aprimorou mais e teve uma carreira muito bonita dentro do futebol de salão. Eu já “encerrei” a carreira porque havia machucado a coluna e não tinha mais condições de jogar.


Jornal do Sudoeste: São 75 anos de estrada, qual ou quais os momentos mais marcantes que você destaca? 
W.V.P.:  Há dois momentos que considero muito importantes em toda essa vida. O primeiro é de quando eu tinha 26 anos e surgiu a oportunidade de comprar uma casa, mas havia a insegurança em não dar conta de pagar. É uma casa que fica onde hoje é a Delfim Moreira, era conhecida como rua dos carros, era de terra, não havia asfaltamento. Tentamos uma primeira negociação com o proprietário, mas não deu certo. Passado um tempo o dono dessa casa entrou em contato comigo novamente, chamei meu pai para irmos lá; foi feita uma proposta e acordamos em termos de valores, verbalmente. Chegando em casa, contamos para a minha mãe, mas eu ainda estava muito preocupado porque não sabia como faria aquele pagamento, pois meu salário era fixo, e era pequeno, e eu tinha somente a entrada. Meu pai disse: “Meu filho, compra a casa. Se você não der conta de pagar, nós pagamos para você!”. Minha mãe disse que meu pai tinha razão, que era para eu comprar a casa, que se a oportunidade era boa, que eu não a perdesse. Mas não foi preciso essa ajuda, eu sabia que eles não tinham condições financeiras de me ajudar, eram pobres, trabalhavam na zona rural, mas consegui cumprir com esse compromisso. Comprei essa casa em 1969 e depois que me casei fomos morar lá, onde nasceram todos os meus filhos. Esse impulso que meus pais me deram para comprar a casa é algo que eu não esqueço nunca; me deu esse impulso para que eu pudesse cumprir com esse compromisso porque sabia que eles não tinham condições de me ajudar.


Jornal do Sudoeste: E o segundo momento que você destaca... 
W.V.P.: Foi quando minha mãe queria compram um piano. Minha mãe, quando era solteira, tocava piano e tocava no cinema, que era mudo na época. Quando ela se casou com meu pai foi morar na roça, e lá não havia luz, televisão, e muito menos telefone. Levar o piano dela para lá era inviável dada as condições das estradas e o único meio de “comunicação” era o carro de boi, isso em 1941. Então ela deixou de ter esse contato com piano e meu avô, vendo aquele instrumento parado, vendeu. Os anos se passaram e, depois de muitos anos, meus pais vieram para a cidade e minha mãe falou sobre o desejo de comprar um piano. Nós falamos para ela que não tinha o porquê já que ela estava em certa idade e havia muitos anos que não praticava. Mamãe nunca mais tocou no assunto. Certo dia eu estava me aproximando da casa dos meus pais e comecei a ouvir um som de um piano. Quando abri a porta e entrei, a vi tocando e aquele momento me arrebentou porque, sem comentar com os filhos, ela fez as suas economias e conseguiu comprar o piano que tanto queria. Ela, claro, tinha certa dificuldade, mas tocava, conseguia fazer música. São detalhes que nos comovem muito e, claro que, hoje, vendo uma foto dela tocando piano é algo que choca e dói muito, mas foi assim a história. Outro dia vi uma frase interessante: “Você não pode mudar o início da vida, mas pode mudar o fim”.


Jornal do Sudoeste: Qual o balanço que você faz de toda essa trajetória? 
W.V.P.:  Concluo que o saldo foi positivo. Eu tenho uma família unida. Vivo tranquilamente. Problemas fazem parte da vida, mas no balanço geral, o resultado foi positivo. Nossa saúde é boa, a instabilidade não é aquela que gostaríamos, mas não é aquela que deixa a desejar. Concluo que apesar dos pesares, só ganhei e agradeço a fé que meus pais me deram. Tenho o que não merecia, em todos os sentidos, e por isto acho que eu não podia querer mais do que conquistei. Olhar para trás e ver que o caminho percorrido deixa uma marca é muito gratificante. Sigo a estrada que meus pais trilharam, começaram a vida com dificuldade, mas nos criaram, nos educaram e foram para o outro plano, onde todo nós iremos um dia. Essas aulas que eles nos deram foram aulas de mestres sem serem mestres, de professores sem serem professores. Só tenho a agradecer a eles e a Deus por tudo. Não tenho mais nada a acrescentar, é uma posição de gratidão, gratidão esta que é uma palavra que abrange e amplifica o que sinto. Gratidão.

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