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Sirlane Dizaró: Há 31 anos se dedicando ao bom funcionamento da Câmara Municipal

Por: João Oliveira | Editoria: entretenimento | 24/06/2018 | Visualizações: 7258

Sirlane trabalha na coordenação geral da Câmara Municipal de São Sebastião do Paraíso - Foto de João Oliveira

A coordenadora geral da Câmara Municipal de São Sebastião do Paraíso, Sirlane Aparecida Cruz Dizaró, é alegre e sorridente. Ao longo dos seus 31 anos de atuação da Câmara, construiu sólida carreira. O começo não foi fácil, mas graças à competência e aos esforços para sempre progredir e se tornar cada vez melhor naquilo que se propôs a trabalhar, passou a ser uma grande entendedora de todo o processo legislativo no município e também uma referência no que compete a todo o processo de funcionamento da Câmara Municipal. Bastam poucos minutos para ser contagiado pela energia positiva dessa profissional dedicada e acolhedora que, apesar de ocupar um cargo importante dentro do Poder Legislativo, o encara apenas como uma responsabilidade que deve ser cumprida e não como um status. Formada em Letras pela Fundação de Ensino Superior de Passos (atual UEMG) e pós-graduada em Especialização em Poder Legislativo, essa apaixonada pela Literatura Inglesa, filha do senhor João Batista Cruz e Maria Batista Cruz, esposa do Fábio Dizaró e mãe do administrador Fábio, de 24 anos, e da bacharela em Direito, Flávia, de 26, Sirlane recebe a reportagem do Jornal do Sudoeste para contar um pouco da sua trajetória e recorda os bons momentos que passou ao longo desses 49 anos que, conforme destaca, foram muito bem vividos e hoje aproveita um momento de leveza.


Jornal do Sudoeste: Foi uma infância gostosa em Paraíso?
S.A.C.D.: Foi ótima! Há somente lembranças boas que guardo comigo desta fase. Na minha infância, somente meu pai trabalhava e minha mãe cuidava da casa, de mim e de meu irmão mais novo, o Márcio, temos um ano de diferença. Quando me perguntam sobre essa fase, só consigo pensar em coisas boas. Minha mãe era mais enérgica em relação a nossa educação, mas tão amorosa quanto meu pai. Fui cercada de muito carinho, em uma época que você tinha liberdade para brincar na rua, brincar de pular corda, elástico, soltar pipa, era muito moleca e sempre fui muito ativa e acelerada. Eu e me meu irmão brincávamos juntos de pique...  são brincadeiras que não vemos mais acontecendo porque as crianças, hoje, estão mais presas a tecnolo-gias.


Jornal do Sudoeste: Como foi a juventude? Era de sair muito para se divertir?
S.A.C.D.: Hoje sou muito caseira, gosto do ambiente familiar, de aproveitar a minha família e aquele espaço na minha casa, lá me sinto segura. Mas quando era mais jovem, solteira, eu gostava, sim, de sair com os amigos, mas é muito diferente de como é hoje, o entretenimento era muito limitado. Mas eu gostava de sair com os amigos, ir a um barzinho, amava sair para dançar. Nunca fui baladeira, nada disso, mas saía sempre com o mesmo grupo de amigos. 


Jornal do Sudoeste: E o que você mais gosta de fazer hoje?
S.A.C.D.: Eu adoro cozinhar e ter pessoas perto de mim. Quando vamos à chácara da família, lá tem um fogão à lenha que vez em quando gosto de usar, adoro assar pães, gosto de receber as pessoas na minha casa e cozinhar, de fazer coisas diferentes, é algo que me dá muito prazer – dizem que eu cozinho muito bem e gosto de fazer as coisas sempre muito bem feitas. Já sofri muito por ser muito perfeccionista, porque gosto de fazer tudo muito bem e acho que sempre poderia fazer melhor, por isso hoje digo que cheguei aos 49 anos de uma maneira mais leve, porque tenho buscado não me cobrar muito, a gente sofre muito quando o faz.


Jornal do Sudoeste: Você é muito acolhedora...
S.A.C.D.: Eu procuro fazer o que eu posso para ajudar no meu ambiente de trabalho, não existe isto de “não é minha atribuição”. Eu trabalho em uma Casa de Leis, mas há duas que eu acredito muito, uma dela é lei do livre arbítrio e a outra a lei do retorno. A lei do livre arbítrio diz que você pode fazer tudo o que quiser, mas não podemos esquecer que há a lei do retorno, então, não faça o mal que ele volta para você. Somos meeiros de tudo o que fazemos, seja para o bem ou mal. Acreditando nisso, é motivo de eu procurar sempre ser uma pessoa melhor. Mas se a vida é um aprendizado, estou aqui para isso. Eu só somo na minha vida, conhecimento, pessoas... para mim não existem ex-amigos.


Jornal do Sudoeste: O que não suporta?
S.A.C.D.: Pessoas que querem tirar vantagem de tudo. Isso eu não suporto. Essas pessoas, acredito, nunca estão satisfeitas, porque entendo que elas sempre acham que poderiam levar a melhor. Não tenho muita paciência com isso, mas também não brigo, mas é algo que me incomoda, pessoas que pegam fila preferencial sem precisar, da um jeitinho para sair na frente dos outros, ocupar a vaga de idoso, de portador de necessidades especiais, isso para mim é muita falta de educação, porque a pessoa sabe que não pode. 


Jornal do Sudoeste: Como foi sua formação acadêmica?
S.A.C.D.: Sempre estudei em escola pública. Estudei no Campos do Amaral, depois no Paraisense. O ensino médio eu comecei a fazer no Ditão, mas quando a escola ainda não tinha sede própria e funcionava no Paraisense a noite. Porém, houve um problema com greve e acabei terminando na Escola de Comércio. Eu sempre gostei muito de escrever, escrevia poema, fazia redações e tive três professores, entre vários que passaram pela minha vida, que me marcaram muito. A princípio, fui aluna de Hilda Borges, excelente professora, que me estimulava muito a escrever; depois tive a dona Neiva Neves - sempre gostei muito de Língua Portuguesa, tanto que me formei em Letras.


Jornal do Sudoeste: Letras?
S.A.C.D.: Sim. Naquela época foi Letras Português/Inglês. Eu amei fazer este curso e acredito que com o amadurecimento que tenho hoje, se eu retornasse àquela fase, teria aproveitado muito mais. Amava a aula de Literatura Inglesa, à época era a professora Maria Helena, uma professora que eu queria levar para casa (risos). Tive também muita influência da Maria Helena Westin na época do fundamental, porque amava a Língua Inglesa. Como nunca fui muito afeita à matemática, busquei algo naquilo que gostava fazer. Recordo-me que no ensino médio podíamos optar qual língua estrangeira estudar e eu havia escolhido o francês, com a dona Irene Barreto, que foi uma excelente professora. E na faculdade eu optei pelo Inglês, porque já havia essa afinidade pela Literatura Inglesa e pela professora que já entrava na sala falando em Inglês com a gente. Era maravilhoso.


Jornal do Sudoeste: Você pensava em fazer algum outro curso antes disto?
S.A.C.D.: Sim, mas o concurso da Câmara mudou essa trajetória. Eu pensava em fazer jornalismo, sempre admirei muito o trabalho de quem escreve e eu tinha essa facilidade. Mas em 1987 prestei o concurso e passei. Eu era a única funcionária, fazia serviço de rua, enfim, uma época que não tem nada a ver com este período atual. Como eu gostava daquele trabalho, para fazer jornalismo eu teria que me mudar, lógico que eu teria apoio financeiro do meu pai, mas achei que ficaria puxado para ele, além disso, havia meu trabalho na Câmara, o qual eu não queria deixar.


Jornal do Sudoeste: E quando você resolveu prestar esse concurso?
S.A.C.D.: Eu já trabalhava desde os 14 anos, trabalhei em mercadinho, lojas de confecção, até que surgiu um anjo na minha vida, a Fatima Amaral, que era do Sindicato dos Trabalhadores Rurais. À época eu estava estudando, e ela me falou do concurso. Acabei prestando e passei, mas fiquei dividida em deixar esse trabalho, que amava e amo fazer, e ir para Ribeirão estudar Jornalismo, mas abortei essa ideia e continuei na Câmara. Na época também comecei a fazer administração, mas vi que não era mesmo o que eu queria e nem cheguei a efetivar a matrícula, disse a mim mesma que faria o que eu amava e fui estudar Letras. Por conta do meu trabalho fiz também pós-graduação em especialização em Poder Legislativo. 


Jornal do Sudoeste: Chegou a pensar em dar aula depois de formada?
S.A.C.D.: Pensei, mas eu esbarrei em outra situação, meus filhos estavam muito pequenos. As reuniões da Câmara naquela época eram as quintas-feiras à noite, então, ficava muito atribulado e não conseguiria aproveitar meus filhos. Resolvi abrir mão disto. Na época surgiu a oportunidade, mas eu tinha dois filhos pequenos e já não ficava com eles durante a noite e, se resolvesse dar aulas, não iria ficar com eles durante o dia. Não achei justo com eles e nem comigo, pois sempre fui muito mãezona, de jogar bola, andar de bicicleta, skate, aproveitei muito os filhos. Abri mão por causa disto, mas acho que teria me dado muito bem como professora porque gosto muito de me relacionar com as pessoas, de ter esse contato com o jovem; pode ser que teria dado bons frutos, mas não me arrependo de maneira alguma das decisões que tomei. 


Jornal do Sudoeste: Hoje você é coordenadora geral da Câmara, como é este trabalho?
S.A.C.D.: É um cargo ligado à presidência, como o próprio nome diz, compete a mim acompanhar toda a parte administrativa quanto legislativa, e nós temos uma equipe muito boa. Além da coordenação, também há a parte operacional que também sou eu quem faz. Acompanho de perto a parte legislativa, participando das reuniões. Além disso, o sistema legislativo da Câmara é de minha responsabilidade, então acompanho todos os projetos, desde o protocolo até a sanção e publicação. Também cuido de toda a documentação e é esse cargo que dá um respaldo a presidência na parte administrativa. Participo também, juntamente com outros funcionários, das outras questões que se diz respeito a servidores, mas não é algo que a gente precisa tanto porque todo mundo é muito bom no que faz. É uma equipe muito boa e o importante disso tudo é que o presidente, tanto este quanto de outras legislaturas, nos dão autonomia para trabalhar, senão de nada adiantaria ter o conhecimento e não ter a autonomia para aplicar. Tenho que acompanhar também todo o trabalho dos servidores terceirizados, cumprimento de horários, e isso tudo eu reporto ao presidente. É um trabalho bom e que me ajuda muito. Somos todos um dente de uma grande engrenagem, se tirar um dente, aquela engrenagem não vai funcionar bem. É um trabalho de equipe que tem dado muito certo.


Jornal do Sudoeste: Você viu a Lei Orgânica nascer, como foi esse processo?
S.A.C.D.: O processo de iniciou em 1989, uma época muito diferente do que é hoje. Foi constituída à época, para a construção da Lei Orgânica, uma comissão que recebia o nome de Câmara Organizacional, que era um grupo de vereadores que faziam um trabalho paralelo ao trabalho da Câmara; era reuniões duas vezes por semana, somente para discutir a questão da Lei Orgânica. Trabalhávamos a semana toda, durante o dia e a noite (até mesmo por causa da disponibilidade dos vereadores). Foi um trabalho muito bem feito, os vereadores daquela época trabalharam muito para a aprovação dessa lei, que era uma exigência nova da Constituição promulgada em 1988 e exigia que os estados e municípios se organizassem conforme a Constituição Federal. Nasce assim a Lei Orgânica que passaria a gerir o município nos âmbitos da educação, segurança, lazer, orçamento entre muitas outras questões. Disto surge também o Regimento Interno. Hoje é com tran-quilidade que, apesar de eu ainda tem muito para aprender, digo que tenho muita facilidade em trabalhar com a Lei Orgânica e Regimento Interno. 


Jornal do Sudoeste: Como era antes da aprovação a L.O?
S.A.C.D.: Eu entrei em 1987, em 88 foi sancionada a Constituição Federal. A Lei Orgânica é um marco para o município e foram apenas dois anos que trabalhei anterior a sua aprovação, mas naquela época o perfil do município era outro, era uma cidade muito pequena, muito pacata, outro contexto. Com a L.O e mesmo com a Constituição Federal, passamos a ouvir mais sobre a questão da acessibilidade, lembro-me muito disso porque além da Câmara Organizacional, as comissões temáticas trabalhavam a Lei Orgânica de acordo com os temas daquelas comissões e eles traziam muito material para debater, à época não havia a facilidade da internet, então eram livros, cursos etc.. Tinham empresas que prestavam serviços nesta área e os vereadores buscavam subsídio nesta parte de assessoria jurídica e a própria constituição federal. A L.O foi um marco porque passou a cobrar coisas que não se dava tanta importância, e uma que lembro com nitidez era a questão da acessibilidade. 


Jornal do Sudoeste: Ao longo desses 31 anos, houve algum fato que te marcou muito?
S.A.C.D.: Recordo-me do comentário de um vereador de quando entrei e exerceu o mandato por dois períodos, depois ele ficou ausente por um ou dois períodos, era o Amorim na época. Quando ele voltou ele disse que eu havia crescido muito profissionalmente, até então eu não tinha atinado para isso. Ele comparou a época de quando ele tinha sido vereador e quando retornou. Isso porque os próprios vereadores me cobravam muito pela experiência que eu tinha. Eu sempre procurei participar quando era chamada, mas quando isso não acontecia, ficava mais no meu canto e a partir do momento que vinham me questionar, eu tinha a oportunidade de mostrar meus conhecimentos da Lei Orgânica, até então era muito contida. A partir de 2000, mesmo por causa da experiência que eu já havia acumulado, passei a ser mais solicitada. Senti-me, inclusive, obrigada a me preparar mais para atendê-los na maneira que eles me solicitavam, isso foi muito bom porque me impulsionou e como eu me cobro muito, não me permitia ficar sem uma resposta certa. Passei a estudar mais o regimento, Lei Orgânica e a própria experiência ajudou bastante.


Jornal do Sudoeste: Você começou sozinha, como foi essa jornada?
S.A.C.D.: Foram bons anos assim, mas não posso dizer que estive sozinha porque houve ótimas pessoas que me auxiliaram. É o que me motiva a querer fica mais tempo aqui para passar o meu conhecimento adiante, para poder ajudar meus colegas. Talvez eu peque ao citar nomes por esquecer alguém, mas eu não posso deixar de mencionar o doutor Luiz Ferreira, que esteve aqui no meu começo de carreira, era vereador, advogado, uma pessoa boníssima e que me ensinou muito do que sei hoje. Encontrei o doutor Benedito Paulo Oliveira, que era assessor jurídico da Prefeitura (que Deus o tenha). A Neuzeli Formagio Bergamo, que me auxiliou muito. Eu comecei sozinha, mas fui muito bem acolhida pelo doutor Luiz Ferreira na Câmara, a quem eu admiro muito, dentre outras pessoas que me auxiliaram muito nesse processo. O doutor Benedito e a Neuzeli eram funcionários da prefeitura, mas nas minhas dificuldades, eu recorria e eles me ajudaram muito. Sou muito grata a essas pessoas e quero poder fazer o mesmo aos que virão depois de mim... hoje sou eu aqui, mas amanhã poderá ser outra pessoa e que essa pessoa tenha as mesmas oportunidades que tive.


Jornal do Sudoeste: Você acredita que tem havido pais participação da população na política?
S.A.C.D.: Tenho observado muito a participação do jovem na política e acredito que daqui certo tempo, essa participação vai ser muito maior devido à formação desses jovens. Hoje temos o projeto “Visite a Câmara”, por exemplo, e esses temas políticos passaram a ser inseridos nas escolas. Há o projeto Parlamento Jovem, já tivemos a Câmara Mirim, então, tudo isso é uma maneira de trazer o jovem para a vida política, porque você começa na raiz e daqui um tempo, tenho certeza, vamos colher ótimos frutos. Notamos até mesmo pelo atual contexto nacional, com a exposição desses maus políticos que buscam tirar vantagens de tudo. Então, os jovens estão sendo mais bem preparados. Quando fazemos esse trabalho, o jovem passa a entender a importância e as atribuições dos três poderes, que o que rege o convívio social são as leis e tudo tem seu seguimento, até a mudança  do prédio da Câmara foi muito importante.


Jornal do Sudoeste: Por que diz isso?
S.A.C.D.: Porque eles viam Câmara e Prefeitura, quando ocupavam o mesmo prédio, como uma única coisa, até mesmo pessoas esclarecidas às vezes me questionava se eu trabalhava na Prefeitura. Então, a população passou a ver que são seguimentos distintos. Existe a Câmara a quem cabe fazer a legislação, observar a legislação que o Poder Executivo manda, fiscalização das leis, além disto, julgadora por exceção como é o caso das comissões de inquérito. Isso abre uma tela para a população entender o que ela pode fazer para participar. Saindo desse contexto de Poder Legislativo, que acredito que a população está passando a entender melhor e qual a sua importância, elas também têm entendido o que cabe ao Poder Executivo. Antes as pessoas não entendiam esse “bate-boca” dos vereadores, mas hoje, até as pessoas mais simples, entendem que isso é necessário, é necessário que haja a discussão, que é saudável. Eles entendem que não existe uma briga entre os poderes, o que existe é cada um exercendo a sua função.


Jornal do Sudoeste: Qual o balanço você faz desses 31 anos de carreira e 49 de idade?
S.A.C.D.: Nesses 31 anos de carreira cresci muito profissionalmente e com a idade, aos 49 anos, cresci muito como ser humano. Vivi muitas situações que favoreceram meu crescimento e envolvimentos profissionais que ajudaram nesse processo. Colocando na balança, sinto-me muito privilegiada. Sou muito temente a Deus, agradeço muito por tudo; eu rezo pouco, mas procuro fazer do meu dia uma oração, da hora que levando a hora que me deito. No meu coração não tem lugar para maldade, coisas ruins. Ao longo dessa trajetória, eu me dediquei muito ao trabalho, ainda me dedico. Gosto muito do que eu faço. Coloco esses 31 e 49 com um saldo muito positivo.

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