ELY VIEITEZ LISBOA

Do sofrimento

Por: Ely VIeitez Lisboa | Editoria: cultura | 23/06/2018 | Visualizações: 26

- Foto de Reprodução

O sofrimento é algo inerente ao ser humano. Uma segunda pele. Criatura imperfeita, ele almeja a perfeição. Mortal, efêmero, ele sonha com a eternidade. Bicho cheio de carências e necessidades. O sonho alimenta a alma inquieta; se não sonha, morre. Quando realiza alguma das suas mais íntimas aspirações, logo ela é posta em segundo plano e o outro ideal a substitui, porque a alma é insaciável e sequiosa. No deserto dos infortúnios, o sonho é um presente de grego que nasce com esse macaco glabro e bípede, que talvez seja um desvio, um acidente de percurso da Criação, por isso é frágil e inseguro. Às vezes surge um oásis de verde alegria. Ela é sempre bela e fugaz. Por isso é que felicidade é o mais abstrato dos substantivos. 
Por que não ser simples e satisfazer-se com necessidades básicas? Sem isso, impossível viver. Mas por que só isso não basta? De onde vem a ânsia que não se sabe de quê, os desejos mais insólitos e inconfessá-veis, a certeza de que nada poderá preencher esse vazio, a busca cega, força maior, desassossego contínuo, paz inalcançável? Surge o sofrimento, amigo inseparável do homem. Com entendê-lo? O sofrimento pode ser uma carência metafísica insanável? Reconhecendo-se um ser mortal, imperfeito e efêmero, em essência, a felicidade, a alegria tornam-se inatingíveis. Enquanto o homem cria seus mitos e doura a pílula das mazelas diárias, para suportar as incongruências da vida, o absurdo da existência humana, ele pensa que é feliz. Faz ficção, mascara a realidade, vive eufemicamente o decantado amor, a busca pela rara paixão que os assinalados conseguem sentir, tudo são muletas, drogas para não enlouquecer.
Os realistas criticam o amor-mistério, a ilusão, o lirismo, sentimentos que não resistem à aspereza da realidade do mundo.   Ora, o que se pode fazer é tentar compreender a complexidade humana. A vida é luta, busca incontínua e vã para se conquistarem prêmios efêmeros, saber coabitar com a lucidez e a tristeza, não se desesperar. O homem reinventa a vida, com suas verdades, ainda que falsas, pesquisa, procura respostas. 
Enfim, o que é sofrimento? Talvez a felicidade, seu antônimo, seja conseguir driblá-lo, durante toda a vida. Não são importantes as armas escolhidas para essa luta terrível. O resultado é o que conta.

 

(*) Ely Vieitez Lisboa é escritora.
E-mail: elyvieitez@uol.com.br

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