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Markus Vina: Um paraisense que sabe fazer das dificuldades um aprendizado para a vida

Por: João Oliveira | Editoria: entretenimento | 14/07/2018 | Visualizações: 4281

O músico Markus Vina, além da música, também trabalha com restauração e é catequista na paróquia de São Sebastião - Foto de Nelson P. Duarte/Jornal do Sudoeste

O músico Marcos Vinicius Pereira dos Santos, o Markus Vina, é de tudo um pouco: cantor, musicista, palestrante, catequista e membro honorário da Academia Paraisense de Cultura em São Sebastião do Paraíso. Filho de Aparecido Soares Pereira, falecido quando ele ainda tinha seis anos, teve que aprender desde muito cedo que a vida não é fácil e, ainda criança, aos 9 anos, começou a trabalhar para ajudar sua mãe, a dona Maria Marta Pereira, hoje aos 72 anos, a manter a casa; irmão gêmeo de Cláudia Helena Pereira e a da caçula Ana Valéria, aos 40 anos Marcos é casado com a advogada Fernanda Santos e divide seu tempo entre a música e os trabalhos que faz de pintura e restauração. Descontraído e muito em paz consigo mesmo diante de todas as dificuldades que atravessou, esse paraisense apaixonado por sua terra conta que atualmente vive em estado de equilíbrio e compartilha com nossos leitores um pouco da sua história.


Jornal do Sudoeste: Você enfrentou uma perda muito grande ainda criança, como foi isso?
Markus Vina: Sim. Perdi meu pai aos seis anos de idade para um câncer. Ele era eletricista da Cemig, muito conhecido como Cidinho da Cemig. Meu pai tinha 32 anos de idade quando faleceu, vítima de um câncer cerebral. Quando se descobriu isto, naquela época a medicina, por mais que estivesse avançada, não era como é hoje. Ele foi encaminhado para Belo Horizonte e a junta médica que cuidou do caso disse que, se operasse, as sequelas seriam inevitáveis e meu pai não quis isto, preferiu não fazer a cirurgia. Depois de um ano ele faleceu. Nós continuamos nossa vida, nossa mãe, que era dona de casa, nos deu uma educação maravilhosa, foi nossa mãe e pai, e eu a amo muito por isto. Nosso finado avô materno, Jerônimo Barreto de Lima, ajudou também a nos criar diante dessas circunstâncias, mas quem aguentou toda a barra foi mamãe, que começou a trabalhar. Nós também começamos a trabalhar muito cedo, eu tinha nove anos quando arrumei meu primeiro emprego. Somos três filhos  eu, minha irmã e a caçula, que tinha um ano na época em que meu pai faleceu.


Jornal do Sudoeste: Como foi esse primeiro emprego?
Markus Vina: Foi na Marcenaria do Sérgio Bergamo, era um ajudante geral, comecei a aprender algumas coisas do ofício de marceneiro e fiz isso para ajudar em casa, porque minha mãe pagava aluguel à época. Além disso, eu tinha que estudar, mas como eu era o único filho homem, foquei mais no trabalho. Quando conclui meus estudos, o básico que fiz no Coronel José Cândido,  fui embora para Ribeirão Preto, aos 17 anos, depois para Sertãozinho e lá terminei o segundo grau. Não cheguei a fazer o ensino superior porque não tinha condições, naquela época o acesso à universidade era realmente muito difícil e eu precisava trabalhar, ganhar o pão de cada dia e ajudar minha mãe.


Jornal do Sudoeste: Não fazer um ensino superior não impediu que você deixasse de estudar?
Markus Vina: Não. Fiz inúmeros cursos e fui me profissio-nalizando em diferentes áreas. Fiz vários cursos de liderança em gestão de empresa, porque sempre trabalhei nesta área e em grandes empresas como em metalúr-gicas, de desenvolvimento de embalagens entre outras, era preciso me profissionalizar porque meu estudo era o básico e eu precisava investir em cursos. Fiz curso de liderança; de português avançado, porque trabalhava muito com pessoas nesta época e precisava falar bem. Então, como não tinha condições de cursar uma faculdade, fiz vários cursos.


Jornal do Sudoeste: Por que decidiu ir embora?
Markus Vina: Queria buscar novos ares, ir atrás de novas oportunidades. Embora eu ame minha cidade, era uma cidade limitada em empresas e como eu queria trabalhar com isso, São Paulo me ofereceria melhores oportunidades. Morei na capital por um tempo, sempre buscando oportunidades em trabalhar com empresas. Assim comecei a fazer minha vida. Além disto, sou músico, comecei a estudar música aos sete anos. Fazia parte de uma filosofia religiosa que investia nesse ensino às crianças. Meu pai também era músico, é algo que sempre amei e que sempre esteve presente na minha família. Estudei muito e cheguei a fazer o Conservatório de Música em Ribeirão Preto e a fazer disto meu ganha pão também. Durante o dia trabalhava em empresas e a noite com música, buscando sempre o melhor para mim.


Jornal do Sudoeste: Por que decidiu voltar?
Markus Vina: Minha família enfrentava problemas de saúde, até então eu não tinha a intenção de voltar. Voltei para dar esse amparo a minha mãe porque meu avô estava muito doente, à época uma de minhas irmãs também não estava bem e, como eu era o único homem e minha mãe via em mim um pilar, não a deixei sem esse suporte e voltei. Foi uma boa escolha que fiz, conheci minha esposa e agora não pretendo ir embora tão cedo. Eu acredito na nossa cidade e que ela possa vir a crescer mais em termos de indústrias; quando você está em polos industriais grandes você vê a força que elas têm no que se diz respeito à renda per capta. Acredito que Paraíso peca nesse sentido que, pela sua idade, deveria ter um parque industrial muito mais desenvolvido. Graças a Deus, temos muitas empresas que empregam muita gente, mas poderia haver muito mais por ser uma cidade mais antiga, por ser bem localizada geograficamente e com acesso a grandes centros. Mas acredito em Paraíso e que ela ainda vai crescer muito mais.


Jornal do Sudoeste: Que tipo de música você gosta?
Markus Vina: Eu sou muito eclético em termos de música. A minha formação é uma formação erudita, uma formação clássica. Gosto desta vertente e como instrumentista também toquei muita música clássica. Porém, meu gosto pessoal é o Rock n’ Roll, mas não dá para se viver desse gênero, apesar de ser apaixonado por ele. Tenho um projeto solo que desenvolvo, a banda MV (Markus Vina), é um projeto de evangelização, como sou católico e tenho essa paixão por compor, resolvi desenvolver um projeto solo “rock n’ roll” para levar uma mensagem àquele jovem mais rebelde. Todo ser humano já enfrentou um momento de rebeldia e é importante que o jovem passe por esses momentos para que se conheça e evolua, esse é processo de evolução do ser. Esse projeto já tem oito anos, é um projeto rock cristão católico, de evangelização. Porém, apesar de ser um projeto direcionado, isso não nos impede de também participar de outros eventos,  onde se toca todo tipo de música, como festivais, para que possamos mostrar nosso trabalho. Fora esse projeto, temos outro projeto paralelo para tocar a noite. Amo música raiz, amo música de época. Aqui na cidade temos o Paraíso em Seresta que é um grupo que eu sou apaixonado, é um grupo que traz uma essência de música para nós que falta hoje em dia e graças a Deus tem quem faz e não deixa ser esquecido.


Jornal do Sudoeste: Tendo em vista o que faz sucesso hoje, você acredita que a música mudou?
Markus Vina: Mudou-se muito o foco, hoje os compositores não têm a ideia de contar uma história, tornar aquilo uma melodia e fazer música, antigamente era isso. Hoje a preocupação é vender, não importa a qualidade da música, se há uma história para ser contata, o que se quer é manter o negócio girando, o que é uma pena e me deixa triste, porque nossa música, eu não diria que está morrendo, mas não tem o devido valor que tinha há algumas décadas.


Jornal do Sudoeste: O que representa a música para você?
Markus Vina: Eu amo música, não consigo me imaginar sem, mas já cheguei a pensar em parar de trabalhar com isto, mas bate um vazio que não dá para suportar. Porém, o amor que eu tenho por esse dom que eu recebi não me deixa desistir. Eu vejo a música como um plano físico muito elevado e como cristão a encaro como um grande dom de Deus, mas não é todo mundo que encara desta forma, há aqueles que a veem apenas como uma arte, aqueles que a veem com uma aptidão, mas eu encaro com um dom. E é isso que não me deixa desistir, porque eu fui agraciado com esse dom e quantos não gostariam de o ter e não tem? É um talento que não merece ser engavetado e se foi me dado, vou compartilhá-lo. Quando jovem a gente tem a ilusão da fama, do sucesso, mas com o amadurecimento, essa paixão não morre, mas nós vemos que a realidade nem sempre favorece a todos. É esse amadurecimento que não me deixa desanimar, vejo tantas pessoas lutando para viver a música como eu vivo hoje e não conseguem, e é o que não me deixa parar, nem que seja pelo meu prazer ou para o dos meus amigos.


Jornal do Sudoeste: E como você vê a música paraisense?
Markus Vina: Na nossa cidade há muitos talentos, muitos talentos grandes e muita gente boa, alguns escondidos porque falta apoio e incentivo, talvez dos nossos governantes que poderiam desenvolver projetos que abracem mais a cultura. Recentemente tivemos o Minas ao Luar, mas não é um evento nosso, é itinerante. Nós de São Sebastião temos condição de montar uma estrutura daquela e oferecer um mega show para nossa população. Não adianta dizer que não há talentos em Paraíso, há, sim, e muitos! Há pouco tempo fizemos um Concerto de Inverno e que contou com apenas 20 números, mas há muito mais talento no nosso município. Se fizermos um festival, consegue se fazer um evento apenas com artistas paraisenses tocando todos os tipos de estilos musicais. Há todas as vertentes musicais e nossos artistas fazem isso bem. Acho que precisamos de um investimento maior na nossa cultura, e não digo apenas na música, mas nas artes todas. Precisamos de governantes que olhem com mais carinho e que briguem pela arte e cultura paraisense.


Jornal do Sudoeste: Você acha Paraíso uma cidade conservadora?
Markus Vina: Eu acho que não. Não vejo Paraíso como uma cidade conservadora, há muitas pessoas conservadoras, isso eu não posso negar. A família em Paraíso ainda mantém suas tradições, seus ajuntamentos, mas num contexto geral vejo uma cidade moderna, principalmente a juventude, que tem uma cabeça muito além e vejo isso no meu dia a dia, trabalhando com esses jovens. Eu sou catequista na paróquia de São Sebastião. Além da preparação catequética, eu trabalho muito a questão da vida com nossos jovens, mostrando a eles o valor da vida, do eu; a partir do momento que a pessoas conseguem se encontrar, ele consegue ter um equilíbrio mental, social e espiritual dele, independente de religião.


Jornal do Sudoeste: Qual o maior momento de dificuldade já enfrentado por você?
Markus Vina: Houve um momento na minha vida que passei uma fase  que me fez crescer muito. Eu tive que tomar muitos tombos e chorar um pouco para chegar à consciência que eu tenho hoje. Quando fui embora, por ser novo, quis abraçar o mundo de maneira muito exagerada. Sou de uma geração que acompanhou toda essa transformação da tecnologia e, por estar nessa passagem, fiquei encantado com o mundo e mergulhei. Participei de coisas, doideiras de moço novo, que não foram boas para mim. Nessa época, por não ter tido um preparo, uma formação, quando eu me vi em desespero, perdido, eu precisava ver qual caminho tomaria porque já não vislumbrava uma meta profissional, até na música eu não sabia mais o que faria. Senti-me perdido. Foi quando parei e resolvi entrar nos trilhos. Eu diria que eu vivi, nós não temos que nos arrepender do que vivemos, temos que tirar disto proveito para que não voltemos a cometer os mesmos erros. Quando vi que estava me perdendo, apeguei-me a família e a minha esposa, que também me ajudou muito e me ajuda no meu crescimento diário. 


Jornal do Sudoeste: O que significou a perda do seu pai tão cedo?
Markus Vina: Hoje, com 40 anos, próximo aos 41, acredito que tudo o que vivi, talvez não teria acontecido se eu tivesse meu pai. Ele me fez muita falta nesse sentido e digo muito isso para os jovens: valorizem seu pai e sua mãe. Não importa o que você ache, eles amam você e querem te formar um homem e uma mulher de verdade para quando você for para o mundo, você esteja preparado, é por isso que os pais pegam muito no pé dos filhos, e eu não tive isso. Minha mãe trabalhou muito e nos educou, amou e nos ama muito, mas nunca sentou comigo para falar sobre drogas ou sexo, mesmo porque aquela geração era mais fechada, eu não tive isso, nem mesmo com minhas irmãs. Hoje, acredito que os pais têm mais liberdade de falar tais assuntos com seus filhos. Enfim, aquele trauma da perda do meu pai ocasionou alguns problemas. É como se, fazendo um paralelo com a religião, eu não tive a minha a catequese de vida, alguém para me ensinar sobre esses caminhos aos quais tomar no mundo, simplesmente saí. 


Jornal do Sudoeste: Qual foi o maior aprendizado para você?
Markus Vina: Foram vários, mas o maior para mim foi aprender a valorizar as coisas simples da vida. Eu era um cara muito egocêntrico e evolui muito. Nas lições que eu aprendi com a vida, vi que não precisamos de muito, tudo pode ser simples. O sofrimento do dia a dia da vida me fez entender isso, entender que o próximo faz parte da vida e que você também precisa dele. Ainda não estou 100%, tenho muito que evoluir e aprender com a vida. Eu dava muito valor às conquistas pessoais, isso é muito importante, mas também é importante dar valor ao caminho, não ignorar o trajeto.


Jornal do Sudoeste: Tem sonhos a realizar?
Markus Vina: Tenho alguns sonhos, quero ainda escrever um livro, estou trabalhando nisto. Seria minha história contando que há a possibilidade de mudar, e essa mudança depende de você mesmo. Talvez esse ano ou ano que vem ele saia. Na música eu tenho o sonho de poder gravar meu trabalho, não digo para comercializar, mas para ter esse registro. Para família, poder proporcionar mais conforto, dando amor e carinho, é isso que eu visualizo como família. E saúde... envelhecer, esse é um sonho que muita gente não quer, mas eu quero isso, se for me dado a graça da vida, tenho esse sonho de envelhecer, quero ser um velhinho bem radical (risos). Quero poder contar histórias, o maior tesouro de um ser humano são suas histórias e o ser humano precisa entender isto.


Jornal do Sudoeste: Qual o balanço que você faz desses quase 41 anos de vida?
Markus Vina: Hoje estou em equilíbrio. Se fosse há 10 anos e estivesse fechando o balanço sobre a minha vida, os pontos negativos iriam se sobressair, mas de 10 anos para cá, quando voltei, hoje, sinto-me equilibrado e acredito que essa é essência do ser humano, buscar o equilíbrio, seja ele social, intelectual e espiritual... tudo o que você visualizar, trabalhar e ter foco, mesmo que seja muito trabalhoso, você pode alcançar. Estou em harmonia comigo mesmo.

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