ELY VIEITEZ LISBOA

APÓLOGOS

Por: Ely VIeitez Lisboa | Editoria: cultura | 10/04/2017 | Visualizações: 217

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Em um mundo materialista, tão violento, dirá o leitor: Para que escrever sobre delicadezas, mensagens tão líricas? Não sei. Talvez para experimentar um antídoto, por um curto tempo da leitura. Que me perdoem os realistas, gente de pé no chão. Seguem abaixo duas pequenas estórias.
I
A Rosa reclamou para o Cravo. Daquele jeito não era possível: ele ficava com seu cheiro forte, ao seu lado, mesclando olores adocicados ao seu perfume etéreo. E ele, por amor, humilhou-se, tentando ser quase inodoro. A Rosa não ficou contente. O Cravo, com sua postura ereta e elegante, como um caniço verde vivo, aveludado e macio, ficou esconso atrás das hortênsias pomposas.  Mas a tirana não achou suficiente. Como a Natureza pôde lhe dar espinhos, a ela rainha? Por que as incômodas abelhas, as eventuais lagartas? E o tempo, o inimigo terrível! Sua decantada beleza durava tão pouco! Devia ser culpa do Cravo, que conseguia sobreviver  dias, fresco e inalterável... E ele dizia amá-la! Isto era amor?! Egoísta, malévolo, vil! E o Cravo pediu à Deusa Flora que concedesse seus dias de vida à Rosa. Ela era a mais bela, merecedora, eterna. Seu pedido foi aceito, mas ele teria sofrimentos atrozes, torturas da raiz às pétalas... Dobrar-se-ia com facilidade, com as brisas da manhã, tingir-se-iam de sangue suas pétalas. Seria relegado ao segundo plano das flores, jamais participando de festas ou dado em buquês, como oferendas de amor __ um João ninguém, um simples arbusto, um dianthus ca-ryiophylus. Tudo aceitou pela Rosa, cabisbaixo, humilde, amoroso. Mas nem assim a Rosa ficou satisfeita. Pouco tempo depois, anunciou seu casamento com um espalhafatoso Crisântemo Amarelo, que, mesmo sem ser muito nobre, era pomposo, rico, exuberante como um sol. 
Só havia algo mais trágico que a sina infeliz do Cravo amoroso: ele jamais percebera uma tímida Violeta, sempre ao seu lado, miúda, mas de perfume inigualável e que seria capaz de morrer por ele. 
O mundo das flores é se-melhante ao dos seres humanos. Os grandes amores são os jamais realizados e os olhos do amor são cegos e insensíveis, só vendo o acessório e desprezando o essencial. E a pior evidência: não se tem a quem atribuir a culpa por estas insólitas verdades, que se repetem eternamente.
II
Ele passeava cabisbaixo, infeliz com seu frustrado amor. A vida é injusta e amarga. Ele a amara tanto, a vida toda e agora ela partia para novos braços? Ele nem reparava nas florinhas que pisava, nos lírios que o olhavam com meiguice, nas violetas que perfumavam o ar. Será que ele não sabia que nada é eterno? Cronos não perdoa.
De repente parou. Estava em um jardim de rosas. Olhou para elas, lindas, perfeitas. Notou então que faltava algo, que sempre o encantara. Perguntou para uma delas, branca  e pura:
Onde está aquele casal de borboletas que sempre voejava por aqui, dando vida ao jardim? Ela, sábia e misteriosa, respondeu: Elas se amaram durante uma rosa vermelha...
(*) Ely Vieitez Lisboa é escritora
E-mail: elyvieitez@uol.com.br

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