JUSTIÇA

JUSTIÇA

Por: Renato Zupo | Editoria: justica | 12/04/2017 | Visualizações: 238

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DUAS MÃOS ESQUERDAS
Sempre fui um lambão em habilidades manuais. É como se tivesse duas mãos esquerdas, eu que sou destro, isso desde a infância e quando não conseguia colorir ou recortar ou ter boas notas nas aulas de caligrafia. Na adolescência me tornei um perna de pau no futebol que sempre adorei e tinha certa dificuldade em correr com alguma elegância: parecia um polichinelo hesitante e caricato quando me apressava para atravessar uma rua ou simplesmente evitava a chuva no meio das calçadas repletas de gente e com falta de marquises, algo tão comum nas grandes cidades. Dançar? Tentei na adolescência como uma forma desesperada de sobrevivência sexual, mas sempre fui ridículo em ensaiar passos de qualquer ritmo. Dançando, parecia um pajé trôpego agitando-me para chamar chuva. No exército até que era bom de tiro, mas levava horas montando e desmontando fuzis e pistolas, geralmente ao som dos berros do sargento do meu pelotão, e quando quase sempre não conseguia em tempo razoável era punido com pernoites e detenções na caserna. Engraçado foi para tirar carteira de motorista. Como nasci e cresci em cidade grande, em bairro central, não tinha como aprender com meu pai em ruas vicinais, roças ou vilarejos. Sobrou-me a autoescola, e sofri e paguei e encarei cento e dezenove aulas de direção até ser aprovado e retirar minha CNH tão sonhada e depois comemorada. Até hoje as pequenas tarefas domésticas do meu lar são delegadas à minha esposa, e montar aqueles brinquedos de lego para os filhos acaba, mesmo, ficando somente nas minhas boas intenções. Serei sempre assim, é um limitador psicossomático e genético, tem algo a ver com minha coordenação motora. Não é a toa que sobraram-me as letras e os livros.
DARIO MÃO DE PACA
Por falar em autoescola, recebi a inusitada vista de meu antigo instrutor de direção, seu Moacir, já um velhinho e que por estes dias bateu-me à porta vindo de Belo Horizonte para uma visita breve, numa segunda feira de manhã. Tomamos café juntos e ele me segredou que viera a Araxá somente ter comigo. Estranhei, porque não me ligou antes, não nos víamos há vinte e alguns anos e ele apanhou ônibus e enfrentou uma estrada traiçoeira só para me ver, voltaria naquele mesmo dia. “Velho não paga ônibus”, respondeu sorrindo, e também me explicou que descobrira meu endereço simplesmente apeando do ônibus e perguntando ao primeiro comerciante que encontrou onde morava o juiz da cidade. Incrível, não? A história me lembrou outra, real e hilária, do meu amigo e compadre Dario Mão de Paca, morador de Pedra Azul, no Vale do Jequitinhonha. Ele ganhou o inusitado apelido quando ainda pequeno foi atropelado por um cavalo e sofreu atrofia em um dos braços, ficando com a mão em forma de cunha, tal qual uma paca. Em tempos politicamente incorretos ganhou o apelido e a simpatia de todos, e naqueles idos dos anos 1990 resolveu viajar até Belo Horizonte para visitar o prefeito de sua cidade natal, o finado Manoel Gusmão, que também tinha casa na capital mineira. Idolatrava o político porque Manoel Gusmão era uma espécie de “pai dos pobres”, mantendo um séquito de seguidores e admiradores nas classes mais carentes de seu eleitorado. Dario era um deles, e desceu na rodoviária belorizontina ávido por encontrar-se com seu guru, tanto que apanhou um táxi e logo pediu ao motorista: “Moço, me leve à casa de Manoel Gusmão!” Obviamente o taxista olhou para o simplório Dario como quem olha para um ET, um louco fugido de um manicômio, e não entendeu nada. Dario Mão de Paca, tentando um inocente esclarecimento, explicou: “Manoel Gusmão, moço, o prefeito de Pedra Azul!” Foi deixado pelo taxista, que também não era muito esperto, na Assembleia Legislativa.
HUMORISTAS
A coluna dessa semana é dedicada aos meus três colegas e amigos escritores de Araxá, especializados em textos de humor, que considero o mais difícil dos gêneros literários. Falo de Agnelo Guimarães Borges e seu hilariante personagem, o político “Serafim”; o recém empossado presidente da Academia Araxaense de Letras Tarcísio Cardoso, com seu humor fino e folclórico expresso em músicas sertanejas, contos e textos publicitários - é dele a célebre musica “Nóis num vive sem muié”; e Canarinho Brown, para mim o Luís Fernando Veríssimo das Alterosas, meu colega cronista do Correio de Araxá e que sempre brinca comigo quando uso esse espaço para contar “causos”: “Você está entrando no meu território, não estou gostando nada disso...”  Parabéns aos mestres do non sense.
RENATO ZUPO, JUIZ DE DIREITO E ESCRITOR 


 

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