Virgilio Pedro Rigonatti

Como se determina a pascoa?

Por: Virgilio Pedro Rigonatti | Editoria: cultura | 12/04/2017 | Visualizações: 81

- Foto de Reprodução

A páscoa é uma das datas ansiadas por todos. Pela garotada por ganhar seu ovo de chocolate, para os adultos porque é um fim de semana prolongado, emendado com a sexta-feira santa.
A comemoração guarda alguns mistérios e curiosidades, bem como toda a semana santa, a sexta-feira da paixão e a malhação do Judas no sábado.
Sempre causou estranheza o fato da comemoração pascoalina ser uma data móvel. Tem que ser no domingo, mas por que acontece em dias diferentes? Eu, no tempo de escola, perguntava para os professores, que ignoravam como se determinava a data. Mesmo para vários padres ao longo da vida, eu questionava e nenhum sabia responder. Tomei ciência não faz muito tempo. Soube que foi determinada a data correta pelo Papa Gregório XIII em 1582: a celebração da páscoa deveria ocorrer no primeiro domingo após a lua cheia que acontecesse depois do dia 21 de março. Esta lua cheia marcava o equinócio de primavera no hemisfério norte. Este equinócio - duração do dia igual a duração da noite - sempre foi comemorado desde tempos imemoriais, pois marcava o início do plantio. As festas pagãs se realizavam em toda a parte para agradar aos deuses, pedindo ajuda para que interviessem e proporcionassem bom tempo para o desenvolvimento da plantação e a colheita fosse de pleno sucesso. 
Papa Gregório introduziu o calendário adotado no mundo ocidental, o "Calendário Gregoriano", em substituição ao "Calendário Juliano", usado desde o tempo do Imperador Romano Julio Cesar. A data da páscoa é determinada por uma fórmula que indica qual o domingo a ser celebrado. A data ocorre sempre entre os dias 22 de março e 25 de abril. Uma vez encontrado o dia certo da páscoa, calcula-se a quarta-feira de cinzas: 46 dias antes. Fica também definido o carnaval: a terça-feira gorda é 47 dias antes.
A páscoa dos judeus foi instituída para comemorar a libertação do povo judaico, que vivia escravizado no Egito. Não é a mesma motivação da religião cristã. A data gregoriana incorporou à religião católica as festividades de fertilidade pagãs com o significado da ressurreição de Cristo. Manteve-se a tradição do povo de presentear com ovo de galinha como símbolo da fertilidade. Para dar um charme, o ovo, em determinado momento, passou a ser decorado, desenhado, para tornar mais alegre a simbologia. Uma boa sacada de oportunidade comercial foi elaborar chocolate com formato de ovo, tornando a comemoração mais agradável e festiva. Isto começou na França, no século XIX.
Tudo bem, o ovo é um símbolo de fertilidade, mas e o coelho? O que tem a ver coelho com ovo? É uma tradição germânica do século XVI, levado para a América no século XIX, associado à fertilidade: os coelhos, como sabemos, reproduzem-se rapidamente. 
Na véspera pascoalina, uma tradição estabeleceu-se: a malhação do Judas. Tradição desenvolvida na península Ibérica, foi trazida para a América pelos portugueses e espanhóis. Representando a revolta do povo pela traição de Judas Iscariote, entregando Jesus aos romanos, um boneco é pendurado por uma corda no pescoço - o traidor enforcou-se após se dar conta do que tinha feito - e açoitado, malhando-se até despedaçar o espantalho.
Ao contrário da comemoração do ovo da páscoa, que se fortaleceu, a malhação do Judas foi perdendo força, conservando-se em poucos lugares.
A quaresma e a semana santa já foram mais respeitadas e seus costumes impostos de uma maneira extremamente severa. Na minha infância e adolescência, a partir da zero hora da quarta-feira de cinzas não se podia mais cantar músicas carnavalescas, consistindo-se em pecado a desobediência. Não se comia carne no período. Havia jejuns em certos dias e respeitado por uma parcela considerável da população. O jejuar religioso não era um hábito em minha casa, provavelmente por termos muito pouco o que comer: éramos muitos e o dinheiro pouco. Minha mãe não impunha esse costume, pois a ração diária já era quase um jejum.
Na igreja, os santos eram cobertos por um manto roxo em sinal de luto e respeito pelo período. As missas eram mais silentes, se é que podia ser mais ainda. Na missa de ramos, no domingo que antecede a sexta-feira da paixão, havia uma vibração festiva, com o povo portando um ramo de planta, lembrando a triunfal entrada de Jesus em Jerusalém, sendo recebido festivamente. Mas, durante a semana santa, devíamos evitar qualquer demonstração de alegria. A sexta-feira, então, era mais radical ainda, mesmo em uma cidade grande como São Paulo.  Neste dia não se ligava rádio, ninguém discutia ou brigava, risos eram proibidos, os namorados não podiam se encontrar, os casais deviam cumprir abstinência sexual. Era obrigação ir à missa e participar da procissão no começo da noite. Comer carne era um sacrilégio. 
Em uma comunidade pequena, a observância dos preceitos religiosos era mais rigorosa e o acatamento das imposições da igreja era generalizado. Lembro-me de ter estado em Itamogi na semana santa quando eu tinha seis anos. Recordo-me que na sexta-feira não podíamos brincar, falar alto, ouvir rádio. Não se trabalhava nesse dia, nem padaria nem farmácia. As pessoas evitavam sair à rua. Quem saísse falava baixo em sinal de respeito. A sombra do pecado e do castigo pairava sobre a cidade. O medo de cometer algum sacrilégio era castrador. O dia custava a passar. Garoto, ansiava pelo sábado e a alegria da páscoa.
* Virgilio Pedro Rigonatti,  Escritor, www.lereprazer.com.br rigonatti_pedro@terra.com.br autor do livro “MARIA CLARA a filha do coronel” que se encontra à venda nas livrarias Supertog, Estação do Livro e Livraria Beca 

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