Virgilio Pedro Rigonatti

Ouro - Navegação - Cabral

Por: Virgilio Pedro Rigonatti | Editoria: cidades | 19/04/2017 | Visualizações: 236

- Foto de Reprodução

Como eu trabalho no ramo de joalheria, sempre reflito sobre a importância e a relevância dos metais preciosos, ouro e prata, e as pedras preciosas, nas sociedades humanas. Sua procura e descobertas resultaram em grandes movimentações humanas, assim como motivou a ampliação dos conhecimentos, desenvolvimentos tecnológicos, transformações de regiões, conflitos homéricos e históricos, e grandes aventuras perpetradas por homens intrépidos e corajosos.
O ouro, desde os primórdios da civilização, despertou admiração e cobiça. Com sua cor amarela deslumbrante, ele é um metal de beleza incrível. Relativamente raro, não sofre oxidação nem perde o brilho, ao contrário dos demais metais. Usado como ornamento do corpo e como símbolo de poder, aos poucos se tornou atributo de riqueza e domínio. Reis, Imperadores, Czares, Xás, ornamentaram seus tronos, suas coroas e seus palácios com ouro, mostrando a sua opulência, pela glória de seu Poder. A Igreja católica enriqueceu seus altares, seus afrescos, suas imagens, seus instrumentos, seus templos, com ouro, mostrando todo seu poder e riqueza, pela glória de Deus.
O ouro foi o grande motiva-dor do inicio do ciclo das grandes navegações portuguesas. Na primeira metade do Século XV, Portugal dominou a cidade muçulmana de Celta, localizada no Norte da África, no território onde hoje é o Marrocos.
Celta era o grande entreposto comercial muçulmano que abastecia as cidades mouras do sul da Espanha.
Nos bazares celtenses, os portugueses encontraram, entre os produtos ofertados - tecidos, tapetes, iguarias, especiarias - sacos de ouro que eram comerci-alizados livremente e em grande quantidade.
Ameaçando e torturando os comerciantes, os lusitanos descobriram que os árabes buscavam ouro na direção sul da África. Para chegar ao destino, caravanas atravessavam um deserto enorme após o que havia, segundo os relatos obtidos, um rio muito grande e caudaloso onde viviam tribos de negros com quem os muçulmanos negociavam o ouro. Esse rio seguia seu curso para oeste.
Para adquirirem o metal, os mouros, que não sabiam a língua nativa, colocavam em uma clareira quantidades de vários produtos que poderiam interessar aos autóctenes, que separavam o que queriam. Se a quantidade não fosse suficiente, eles se retiravam e os árabes colocavam mais peças. Quando ficavam contentes, os negros punham no local uma quantidade de ouro que achavam suficiente para a troca.
O problema, para os portugueses, é que a travessia do deserto só podia ser feita com auxílio de camelos, animais afeitos às condições rigorosas do relevo, mas que os lusitanos não possuíam.
Depois de muitas confabula-ções, os portugueses e cientistas contratados deduziram que o rio caudaloso, ao lado do qual viviam a tribo de negros, tendo seu curso para oeste, deveria desembocar em um mar ocidental. Chegaram à conclusão que, se navegassem contornando o território africano a partir do Mar Mediterrâneo, eles chegariam a esse rio.
Para possibilitar a navegação em um mar agitadíssimo como era o oceano Atlântico, os portugueses desenvolveram embarcações, instrumentos de navegação que se guiavam pelas estrelas e estudos de marés e ventos. Esses estudos e desenvolvimento de tecnologia originaram a famosa Escola de Sagres. Com todo o avanço dos meios e cheios de coragem, os portugueses lançaram-se ao Atlântico, vindo a descobrir a foz do Rio do Ouro, o rio Senegal, e, entrando continente a dento, conquistaram o tão cobiçado metal.
Com os conhecimentos adquiridos, motivados pela conquista do ouro, partiram os portugueses para a colossal aventura pelos mares do mundo realizando AS GRANDES NAVEGAÇÕES e fazendo as GRANDES DESCOBERTAS.
Inicialmente, os portugueses foram conhecendo a costa africana, adquirindo conhecimentos e avançando em direção ao sul, culminando com a ultrapassagem do Cabo da Boa Esperança, ponto no extremo meridional do continente africano, pela expedição de Bartolomeu Bueno. Poucos anos depois, Vasco da Gama alcançou as terras da India, atingindo o grande objetivo da Corte Portuguesa.
Pedro Alvares Cabral, no seu caminho para a India, descobriu, ou simplesmente foi tomar posse de algo que já se sabia: o Brasil. Em sua viagem de regresso à Portugal, mais de um ano depois, Cabral fez escala na costa africana em um porto controlado pelos portugueses que hoje é a cidade de Dakar. Esse local era justamente na foz do rio Senegal, o Rio do Ouro, objetivo perseguido e alcançado pelos portugueses durante décadas, que se tornou o ponto de partida para o Ciclo das Grandes Navegações. No porto, Cabral reencontrou uma nau de sua esquadra que havia se desgarrado em uma tempestade no Cabo da Boa Esperança, no caminho para a India. Coincidentemente, encontrou, também, uma esquadra comandada por Américo Vespuccio que estava a caminho para um reconhecimento das terras que Cabral havia descoberto e relatado para o rei um ano antes.
Américo Vespuccio explorara, três anos antes, a região que seria mais tarde o Caribe e a América Central. Vespuccio contou a Cabral que uma expedição portuguesa havia explorado e alcançado um ponto ao norte de onde estivera, chegando às terras que são hoje do Canadá. Ligando as informações desta descoberta, com o que Américo Vespuccio observara em sua expedição, acrescentando o que Cabral observara na sua passagem pelo Brasil, os exploradores portugueses concluíram que havia uma continuidade das terras recém-descobertas, que não eram a India, como supunha Cristovão Colombo, nem um conjunto de ilhas. Imaginem a emoção deles ao concluir que simplesmente haviam descoberto um extenso continente.
É surpreendente a coincidência que justamente na foz do Rio do Ouro, objetivo inicial das navegações portuguesas pelo oceano, constataram que aquela aventura marítima, além de ter levado ouro para Lisboa e conduzido  Portugal para o continente asiático, tinha proporcionado a descoberta de um "Novo Mundo".
* Virgilio Pedro Rigonatti,  Escritor, www.lereprazer.com.br rigonatti_pedro@terra.com.br autor do livro “MARIA CLARA a filha do coronel” que se encontra à venda nas livrarias Supertog, Estação do Livro e Livraria Beca

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