DO LEITOR

Patriota

Por: Redação | Editoria: doleitor | 08/05/2017 | Visualizações: 801

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No final de abril fui ao Banco pagar a primeira cota do meu IR. Como todo cidadão dito respeitado, fui cumprir o meu dever patriótico. Sou assalariado, não recebo jeton, Pro Labore, subsidio, bônus empresarial, rendimento proveniente de qualquer outra fonte, de aplicações financeiras representativas, pois não tenho nenhuma fortuna aplicada, não aplico em Dólar, Euro, Ouro, mas o fisco acha e determinou que eu tenho é renda, não salário. Este imposto é simplesmente a sequência da série grande que pagamos todo ano; entre eles IPVA, IPTU, IPI, ICMS, COFINS e etc. E sempre me disseram que pagar impostos é um dever do cidadão com o seu país, seu estado e sua cidade. 
Dizem também que os impostos pagos são revertidos em bens e serviços para toda a população Alardeiam que nossos impostos permitirão a entrega de um remédio para uma criança, uma bolsa de estudo para um aluno carente, um medicamento para um hospital público, viabilizará o financiamento de uma casa para um pobre, o reparo de uma estrada ou uma rua, o pagamento de um salário decente para os professores e profissionais de saúde, e outros benefícios mais para o meu povo. Mas é uma grande enganação. 
Começo a observar à minha volta, meus netos pagam escolas particulares para estudar e quando viajo pago pedágios cada dia mais caros por estradas muitas vezes pouco conservadas. Se quisermos ter um mínimo de dignidade na hora da doença devemos ter um plano de saúde, pagamos a agua e energia elétrica com valores cada dia maiores, para tratar o esgoto que não é tratado em sua totalidade, para recolher o lixo que é recolhido em parte e etc. 
E quando, após o meu ato exemplar, pego o jornal e vejo que o governo quer acabar com a aposentadoria do cidadão, colocar todos para trabalhar doze horas por dia até morrer, liquidar toda a legislação trabalhista, limitando gastos em saúde e educação alegando a falta de recursos. Acabando com programas sociais como Prouni, Ciência Sem Fronteiras, Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, pois faltam recursos; eles dizem. 
Constato que a educação, a segurança, a saúde, e tudo mais que o estado tem que fornecer ao povo, está relegado ao abandono. Vejo as ruas esburacadas, a falta de medicamento para as pessoas que não tem como compra-los, a iluminação pública deficiente, o lixo espalhado por todo lado, os nossos hospitais sem a mínima condição para sobreviver. E a balela é sempre a mesma, faltam recursos. 
Mas eu paguei a minha parte e milhões de patriotas pagaram. Me pergunto, porque pagamos impostos, se não recebemos os seus benefícios; pois ele não é aplicado para melhorar a vida do povo. 
Como diz o Raul Seixas, confesso abestalhado que estou decepcionado.
E após me esforçar um pouco, descobri que os meus parcos recursos e os de todos os brasileiros que também pagam seus impostos, desaparecem diuturnamente no mensalão, no escândalo das empreiteiras que há décadas nos roubam, nas remunerações absurdas de funcionários graduados dos três poderes, nos lucros escorchantes do sistema financeiro, nos acordos de bastidores para derrubar governos, na compra de votos para aprovar matérias para prejudicar o povo, nos três níveis de administração, nas obras inacabadas e muitas vezes desnecessárias e sem serventia, na contratação desnecessária de apaniguados para montagem de currais eleitorais, para formar fortunas pessoais nos bancos do exterior e muito mais. 
Após descobrir tudo isto entendi o meu papel e de todos nós. Confesso que não gostei do papel, mas ainda assim sou patriota. 
Se por acaso o Sr. e a Sra., a qualquer hora me encontrar vagando sem rumo pelas ruas, vestindo a indumentária do palhaço, pode me chamar de patriota, com certeza não ficarei bravo. Aceitarei humildemente o título, pois é merecido.
João Batista Mião

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