DONA DONGA

SIMPLESMENTE DONGA

por Virgilio Pedro Rigonatti *

Por: Redação | Editoria: doleitor | 17/02/2017 | Visualizações: 81

- Foto de Reprodução


A rainha Elizabeth II, do Reino Unido, completou 90 anos. Reverenciada e admirada por todo mundo. De improvável monarca, bateu recorde de permanência no poder, completando 65 anos de reinado. Seu pai não era o príncipe herdeiro da coroa. Com a morte do seu avô, George V, assumiu o trono seu tio paterno que era o primeiro na linha sucessória. Acontece que Edward VIII, apaixonado por uma plebeia americana, pressionado pela tradição de só poder ter como consorte uma nobre, optou pelo amor em detrimento da coroa, vindo a renunciar.
O pai de Elizabeth II assumiu, então, o reinado com o nome de George VI. Como ela tinha apenas uma irmã mais nova, tornou-se a primeira da linha de sucessão ao trono, que veio a ocupar com a morte de seu pai em 1952. Ela dignificou a monarquia britânica com sua postura e ações sociais. Em um mundo machista, como era o século XX, impôs-se como uma mulher forte, determinada e equilibrada.
Completando no dia 16 de fevereiro os mesmos 90 anos da Rainha Elizabeth II, uma mulher simples em uma pequena cidade do sudoeste mineiro, Itamogi, é o exemplo de nobreza, equilíbrio, determinação e personalidade forte. Em um ambiente extremamente machis-ta, conduziu e administrou uma família de vários filhos.
Seu nome é Maria Aparecida Braga Pimenta, mas é, e sempre foi, conhecida como Donga. O apelido foi lhe dado pelo padrasto admirador do renomado sambista conhecido como Donga que fez a primeira gravação de um samba que se tem notícia: "Pelo Telefone".
Por amor, Donga casou-se com um jovem bonito, mas que tinha sérios problemas com a bebida. Ao invés de ficar se lamentando e maldizendo os hábitos etílicos do marido, tratou de assumir o comando da família enquanto dava uma importante lição: ela havia se casado com o homem que amava por sua livre escolha, sabendo de sua fraqueza, portanto não tinha o direito de reclamar.
Agarrando-se a Deus e a Nossa Senhora Aparecida, aliado a seu espírito inquebrantável, trabalhava incansavelmente, acordando de madrugada para fazer salgados e entregar as encomendas logo ao amanhecer, enquanto alimentava e cuidava de seis filhos pequenos. Sua batalha diária não passou despercebida. Um seu conhecido mostrou a um deputado a luta diária daquela valorosa mulher. Por intermédio do político, conseguiu uma vaga como responsável pelo correio da pequena cidade.
Mulher humilde, mas desembaraçada, Donga não se intimidou em enfrentar uma entrevista em Belo Horizonte e conquistou a nomeação. Mas não era nenhuma sinecura o cargo que assumia. Era de extrema responsabilidade e de muito trabalho, que ela desin-cumbia com eficiência, enquanto criava os filhos e procurava resolver o problema do marido.
Com denodo e fé, Donga conseguiu um dos seus objetivos: livrar seu amado do vício do álcool, transformando-o em um marido presente e trabalhador.
Por sua competência, conseguiu transferência para a Central dos Correios de São Paulo, de modo a dar a seus filhos melhores condições de estudo e de escolha de trabalho, o que foi bem sucedida. Em seu novo posto, angariou simpatia, pois sempre era prestativa em auxiliar seus colegas. Por ter sido chefe dos correios de Itamogi, tinha conhecimento amplo das atividades e dos serviços prestados pela empresa e por isso era, com frequência, solicitada para auxiliar os diversos setores e o fazia sempre com a maior boa vontade apesar de sua função se restringir a um determinado departamento. No trabalho estava sempre disposta, apesar de enfrentar diariamente, ida e volta, uma verdadeira viagem entre o Correio Central e sua residência em Osasco, distância de mais de vinte quilômetros entre um ponto e outro, sempre por transporte público.
Com os filhos crescidos e bem colocados, aposentada, voltou para Itamogi, iniciando uma vida dedicada a fazer o bem para sua comunidade. Incansável, cuidava da casa, ajudava o filho em sua lanchonete e encontrava energia para ajudar quem a procurasse, fazendo benzimentos, dando conselhos. Visitava todos que se encontravam doente, levando palavras de consolo, de incentivo e fazendo suas orações. Auxiliou em muitos trabalhos paroquiais. Necessitado que batesse em sua porta, todo dia tinha, sempre poderia contar com um pedaço de pão, um remédio ou mesmo uma esmola. Tinha sempre à mão uma reserva de moedas para atender os pedintes, ensinando que, mesmo que o auxílio fosse usado para compra de um copo de pinga no primeiro bar, ela sempre daria, pois a vida do pobre coitado era assim e Deus sabia o que destinava a cada um.
O seu maior trabalho era a distribuição de presentes, alimentos e roupas que fazia anualmente por ocasião do Natal a todos os carentes da cidade. Ao longo do ano, amealhava contribuições de diversas origens, tanto em bens como em dinheiro. Aproximando-se o final de ano, fazia uma peregrinação ao comércio de São Paulo, oti-mizando o dinheiro acumulado buscando o melhor preço para sempre ter quantidade necessária e suficiente para atender a todos. No dia de Natal, formavam-se filas enormes em frente à sua casa. Exausta, ao final da distribuição, sempre auxiliada pelos seus familiares, agradecia a Deus e a Nossa Senhora pela oportunidade de, mais uma vez, ter ajudado os carentes e ver as carinhas felizes das crianças com os presentes, que provavelmente não tinham ganhado do "Papai Noel".
Donga sempre deu o exemplo de que se pode ajudar o próximo, dar alegria e conforto aos que necessitam sem precisar, e nem tinha, de muitos recursos, bastando para isso o sentimento altruísta de servir desinteressadamente e sem distinção a todos. Sua recompensa era sempre estar bem consigo mesma e, na sua ótica e crença, com Deus, a quem sempre agradeceu por ter tido saúde e vontade para cumprir seu papel aqui na Terra.
A nobreza de um ser humano não está no cargo e no papel que representa na sociedade, mas sim em seus atos visando o bem comum. Maria Aparecida Braga Pimenta jamais procurou recompensas ou cargos públicos para satisfazer seu ego. Reinou, nos seus noventa anos bem vividos que agora completa, buscando sempre servir a Deus e a ser simplesmente... Donga.

* Virgilio Pedro Rigonatti, ESCRITOR, www.lereprazer.com.br rigonatti_pedro@terra.com.br autor do livro “MARIA CLARA a filha do coronel”
que se encontra à venda nas livrarias Supertog, Estação do Livro e Livraria Beca

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