ELY VIEITEZ LISBOA

Nova carta à minha mãe

Por: Ely VIeitez Lisboa | Editoria: cultura | 13/05/2017 | Visualizações: 258

- Foto de Reprodução

Querida, 
No fim de maio serão cinco anos que você partiu. Apesar de nonagenária, na sua despedida final, você estava linda como sempre, maquiada, elegante, para fazer sua última viagem, comme il faut.
Chorei muitos dias, depois que você se foi, mas logo descobri que, na realidade, você não me deixou, ficou comigo. E assim tem sido nesses cinco anos. Nossos encontros diários são à noite, em belos sonhos, com você ao meu lado. Sempre juntas, alegres, as duas bem mais jovens, é verdade, passeando por belos lugares, aqui, na Europa e em outros países, como antes, quando éramos só as duas.
Acordo leve e feliz, dizendo-lhe um "Até à noite"; sua presença ainda me alimenta o dia todo. Impressiona-me, mais do que nunca o porquê éramos (e somos ainda) mais irmãs, amigas, que mãe e filha. Trocávamos confidências e ríamos muito, (como ríamos!), aproveitando cada minuto da convivência mútua. 
Já lhe escrevi uma Carta pelo Dia das Mães, no ano passado. Imagine que ela até foi relembrada esses dias, no Face. Mas torno a lhe escrever e, com certeza, assim farei, nos anos seguintes, pois agrada-me muito dialogar com você, minha querida, minha maior amiga, minha irmã. Tudo que se relaciona com você me encanta. É a mais linda personagem da história de minha vida.
Jamais poderei esquecer de seu romantismo. Você nunca deixou de ser aquela jovem mineira, quase uma menina ainda, que se apaixonou pelo moço espanhol, de Pardesoa, pueblo da região de Santigo de Compostela. O seu príncipe veio de longe para se casar com uma prima. Mas quando vocês dois se encontraram, ele, fascinado, apanhou uma flor e lhe ofereceu, dizendo: "Para a mais bela moça de Pratápolis" ...
Será por este lírico episódio, que você o amou a vida inteira? Como esquecer? Todas as tardes eu a via arrumando-se toda, emocionada e trêmula, esperando a chegada dele, o belo espanhol de olhos glaucos e cabelos escuros... 
A história de vocês é toda original. Vocês se casaram só no civil e muito tempo depois, quando eu já era casada, você ficou muito doente. Meu pai quase enlouqueceu e quando sarou, ele lhe disse para que você pedisse o que quisesse, casa nova, carro, joias. E você, sem titubear: "Quero me casar na Igreja!". Tudo que a envolvia era mágico. E lá fomos nós, para Sacramento, em Minas (exigência dele, porque conhecia o jovem padre de lá. Explicou ele: como casar, tão velho, em Ribeirão Preto, onde era tão conhecido?"
Sua história foi bela e me contagiou. Vou lembrar-me sempre daquela manhã azul, quando fomos em comitiva, ao seu casamento. Você estava linda, com um véu de renda, cinza-prateado, trêmula de emoção. E eu também. Fui sua madrinha!
Às vezes penso, minha mãe, que sou uma pessoa privilegiada. Filha de pais tão notáveis, eu só poderia ser uma mulher lírica em demasia, criatura que adora histórias felizes de amor. E também será por essa razão que, quase com setenta anos, também vivi (e vivo) um conto de fadas? Lirismo é contagiante? 
(*) Ely Vieitez Lisboa é escritora
E-mail: elyvieitez@uol.com.br

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