Virgilio Pedro Rigonatti

Emoções Vividas No Parque Ibirapuera

Por: Virgilio Pedro Rigonatti | Editoria: cultura | 23/05/2017 | Visualizações: 914

- Foto de Reprodução

Eu pratico corrida e sou um privilegiado. O privilégio não é pelo fato da prática do esporte, mas sim pelo local onde vou fazer meu exercício: o Parque Ibirapuera.
Moro a 2,5 quilômetros do parque. Terças e quintas-feiras, às 5:40 horas da manhã, eu pego um dos meus filhos, o Edson, em sua casa, dirigimo-nos ao parque e 5:50 começamos nossa prática. Aos sábados, dia de exercício mais longo, em geral vamos correr na USP, mas, muitas vezes, optamos pelo Ibirapuera.
O parque é um lugar maravilhoso, o Ibirapuera é considerado um dos melhores parques do mundo. Corremos, eu e meu filho, por alamedas, pistas ou trilhas carregadas de verde. São árvores, plantas, folhagens e gramas de numerosas espécies e de tons os mais diferentes possíveis. São colírios para nossos olhos. Respiramos aquele ar fresco da manhã e perfumado pelas exalações as mais diversas daquele universo verde. São bálsamos para nossas narinas. E o cantar dos passarinhos, de múltiplas espécies, alegres por mais uma manhã? São músicas para nossos ouvidos. A visão dos lagos, às margens dos quais corremos, com gansos, patos, marrecos deslizando suavemente por suas águas. E o privilégio de ver uma gaivota em seu voo, planando rente à superfície da água e pousando docemente em uma pedra na beira do lago.
Findamos nosso exercício com o corpo bem preparado para os afazeres quotidianos e com a mente bem tranquila por todas as sensações experimentadas no percurso.
Correndo uma manhã, por entre as inúmeras árvores que embelezam o Parque, Edson externou a admiração pelas frondosas e altas espécies que estávamos cruzando. 
"Sem dúvida, filhão!" exclamei. "Mas minha admiração é maior porque essas árvores eram arbustos quando eu vim pela primeira vez aqui. Eu estive na inauguração do Parque em 1954!"
Com muitos risos pela constatação, tive a oportunidade de contar minha aventura, mais de sessenta anos atrás, mais precisamente em 21 de agosto de 1954, com uma pitada de emoção inesquecível.
Na ocasião tinha seis anos. Meu irmão mais velho, o Vircério, então com sete anos, já tocava, e muito bem, sanfona. Já tinha se apresentado em rádios, circos e teatros, com artistas de renome da época. 
Vircério foi contratado por um misto de empresário e artista chamado Genésio Arruda. Ele tinha uma banda que foi escalada para se apresentar na inauguração do Parque. Para as festividades, a banda do Genésio Arruda reuniu-se em um trenzinho que saiu do Pari, do outro lado da cidade, das portas de uma fábrica de chocolates, patrocinadora do evento, em direção ao Ibirapuera. Vircério, com sua sanfona, foi contratado para tocar com a banda. Eu não tocava nada. Fui porque minha mãe me levou para passear. 
Na hora do trenzinho sair, Genésio Arruda constatou que seu trombonista não tinha comparecido. Pediu, então, para minha mãe, permissão para deixar o instrumento comigo. Aleguei, vermelho de vergonha, que não sabia tocar. Genésio me respondeu que não tinha importância, era só para fingir que tocava. Como eu ia ganhar uns trocadinhos, mais que depressa botei o trombone sobre meu corpo. Quem conhece o instrumento sabe que ele tem uma "boca" enorme, de onde sai o som grave característico. Até aí tudo bem, estava passeando de trenzinho, ganhando uns trocadinhos. O incômodo foi a molecada que acompanhava o trenzinho. Virei o alvo deles. Começaram a atirar bolinhas de papel, e outros artefatos, para ver quem acertava a boca do trombone. Naturalmente, muitos não atingiam o alvo e caiam, propositalmente ou não, na minha cabeça. Louco da vida, mas sem poder fazer nada, suportei as brincadeiras e gozações da criançada.
Outro problema foi constatar, da metade para o fim do trajeto, que por ter posto a minha boca no bocal do instrumento, fingindo tocar, por não ter lábios acostumados, eles incharam e ficaram doloridos.
A banda fez muito sucesso, principalmente quando adentrou a área do Ibirapuera repleta de gente que compareceu às festividades.
Ao descer do trenzinho, já sem o trombone, juntei-me à multidão que se encaminhava para as marquises, idealizadas por Niemayer, onde se dariam as solenidades de inauguração. No empurra-empurra da multidão, fui prensado nas coxas de uma moça: era uma miss trajando um maiô, naturalmente com as pernas de fora. Eu era pequeno, tinha seis anos, portanto meu rosto atingia a altura dos quadris da moça. Foi a minha primeira emoção sexual, sem saber exatamente o que era isso, ao tocar e ver aquelas pernas roliças - nunca tinha visto uma. Ainda sinto o calor daquelas pernas e o perfume exalado de seu corpo.
Lembro-me dos arbustos, mas, principalmente, é da moça que me recordo mais


* Virgilio Pedro Rigonatti,  Escritor, www.lereprazer.com.br rigonatti_pedro@terra.com.br autor do livro “MARIA CLARA a filha do coronel” que se encontra à venda nas livrarias Supertog, Estação do Livro e Livraria Beca


 

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