JUSTIÇA

Como destruir uma Comarca

Por: Renato Zupo | Editoria: justica | 26/05/2017 | Visualizações: 881

- Foto de Reprodução

Se você é um juiz em início de carreira e por alguma psicopatia ou vício de formação já ingressou no serviço público pretendendo sabotá-lo, e lhe interessa somente se dar bem e auferir seu salário, e que se dane a comarca, aí vão logo abaixo dez truques certeiros para conseguir seu objetivo e se tornar um magistrado lendário e inesquecível pela má qualidade de seus serviços. Se, ao contrário, és um jovem juiz que pretende pacificar a sociedade e deixar marca indelével de trabalho sólido e frutífero, aprenda o que deve evitar:


1) Esconda-se atrás de uma bandeira politicamente correta, como o casamento gay, a salvação das santas casas ou a proteção ao mico leão dourado, e com isso se esqueça dos seus processos que vão se agigantando nos nichos das prateleiras, tomando poeira no aguardo de solução enquanto o magistrado responsável pela solução brinca de salvador do mundo.


2) Afaste-se do povo. Não procure saber como anda a saúde pública e tampouco se preocupe com o nível da educação ministrada nas escolas públicas. Afinal de contas, seu filho desfruta de ensino particular e você tem convênio de saúde.


3) Arrume polêmicas desnecessárias com advogados e promotores. Este será mais um esconderijo para sua falta de produtividade. Diga que “não consegue trabalhar” porque é perseguido por outros profissionais da justiça. Faça intrigas pelos corredores do fórum. Vitimize-se, para que tenham pena de ti.


4) Como você não sabe decidir ou é preguiçoso para aprender a fazê-lo, lance programas de conciliação e “force a barra” para conseguir acordos indesejados pelas partes, em audiências presididas com mão de ferro, intimidando a todos a aceitarem uma proposta de conciliação, qualquer que seja, vantajosa ou ruinosa. Não estará ajudando ninguém, apenas a si mesmo e ao seu mapa de produtividade que ocultará a nulidade de sua incompetência.


5) Aproxime-se dos poderosos de maneira íntima, não importa o caráter ou a reputação dos manda chuvas e endinheirados que passarão a orbitar sua vida pessoal. Afinal de contas, ninguém tem nada a ver com ela, não é mesmo? E o que importa é ostentação, ainda que você seja um juiz de direito, um magistrado que deveria ser exemplar ao seu povo.


6) Não eduque seus filhos e impeça os professores das crianças de tentarem fazê-lo. Superproteja seus rebentos, porque desde cedo eles devem aprender que, assim como o pai, são melhores do que os outros cidadãos comuns. Afinal, são filhos de um magistrado poderoso e tem que aprender com os pais a desgraça do orgulho besta e desmedido da vaidade funcional.


7) Se vingue daquelas pessoas e instituições que de alguma forma lhe causaram raiva quando era um “Zé Ninguém”. Esqueça sua imparcialidade para condenar vigorosamente aqueles que antipatiza. Em sentido oposto, beneficie de maneira escancarada e calhorda àqueles que lhe são simpáticos.


8) Utilize seus contatos pessoais para se declarar impedido ou suspeito de julgar processos, pelos motivos mais banais imagináveis. Se frequenta um restaurante, não aceite demandas que o envolvam ou aos seus proprietários e até mesmo aos garçons. Seu dentista está divorciando? Nada de atuar na ação, ainda que o divórcio seja amigável. O frentista do posto em que você abastece seu carro está com o filho preso? Declare-se impedido por motivo de “foro íntimo” e entregue o processo a um colega, afinal, sempre é uma desculpa para diminuir sua carga de trabalho e piorar a de outro magistrado, que você não encara como um colega, mas como um concorrente.


9) Se dê ao direito de se estressar e acumular atestados médicos. Mas não basta isso. Tem que ter a cara de pau de colecionar sucessivas licenças de saúde, compensações e coisa que o valha, para poder “viver a vida” ao lado da esposa siliconada, pouco importando as audiências canceladas, os réus presos, as liminares pendentes de julgamento e os processos atrasados.


10) Seja impiedoso com os erros de seus servidores e não lhes demonstre qualquer amizade ou compaixão, e quando estiver de fato sozinho e olhar em volta e perceber que é odiado, arrume uma desculpa qualquer e peça promoção por “merecimento”. Afinal, você esculhambou tanto a comarca que agora ela não serve mais sequer para esconder suas deficiências.


Amigos. Sou juiz em Minas há vinte anos. A imensa maioria de meus colegas dá enormes exemplos de produtividade, competência, honestidade. Aí acima vão somente lembretes para os mais jovens, para que não enveredem pelo caminho errado e não sigam práticas infelizmente também corriqueiras de como não fazer, como não viver, e como não ser um magistrado.


Renato Zupo, Juiz de Direito, Escritor.

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