Programa Cívico-Militar divide escolas em Paraíso e gera repercussão após manifestação no Ditão

Duas escolas aprovaram o modelo, duas rejeitaram; SRE divulgou nota após movimentações polêmicas durante assembleia
Foto: Reprodução

MATÉRIA ATUALIZADA ÀS 14hs30

A implantação do Programa de Escolas Cívico-Militares em São Sebastião do Paraíso provocou reações distintas na comunidade escolar. Na terça-feira, 9 de julho, assembleias foram realizadas simultaneamente em quatro escolas estaduais do município para deliberar sobre a adesão ao modelo proposto pelo Governo de Minas. O resultado foi dividido: duas escolas votaram a favor e duas votaram contra a implantação.

As unidades que aprovaram a adesão foram a Escola Estadual Paula Frassinetti (com 120 votos favoráveis e 90 contrários) e a Escola Estadual Paraisense, onde a maioria dos votos também foi pelo “sim”, conforme ata oficial. Já as escolas que rejeitaram o modelo foram a Escola Estadual Clóvis Salgado (com 67% dos votos contrários) e a Escola Estadual Benedito Ferreira Calafiori, conhecida como Ditão, onde a votação terminou em 380 votos contra e 165 a favor da proposta.

Na área de abrangência Superientendência Regional de Ensino de São Sebastião do Paraíso, a opção foi oferecida também para duas escolas no município de Guaxupé, e houve adesão de ambas: Escola Estadual Dr. André Cortez Graneiro e Escola Estadual Dr. Benedito Leite Ribeiro.

NOTA OFICIAL DA SUPERINTENDÊNCIA
Na manhã desta quarta-feira, 10, a Superintendência Regional de Ensino de São Sebastião do Paraíso divulgou uma nota oficial abordando a realização das assembleias, especialmente a que ocorreu no Ditão. O texto, assinado pela superintendente Maísa Cláudia de Mello, afirma que “a escola é um espaço democrático, de debates, ideias e reflexões”, e que a votação foi realizada com “organização e lisura”.

Contudo, a nota pontua que houve atitudes inadequadas que desrespeitaram o espaço da escola e a proposta da assembleia, e que “movimentos que incitaram tumulto e tentaram conduzir os rumos da decisão por meio de manipulação de informações” não serão ignorados. A SRE orientou que denúncias sejam encaminhadas diretamente para o e-mail ou telefone da instituição.

A nota não cita nomes ou pessoas específicas, mas a manifestação ocorre após a circulação nas redes sociais de um vídeo gravado durante a assembleia no Ditão, no qual um professor critica o modelo cívico-militar e defende o desempenho da escola atual. A gravação gerou reações intensas de alunos e responsáveis.

PROFESSOR SE MANIFESTA DURANTE ASSEMBLEIA
Durante a assembleia, um professor da escola se manifestou criticando a proposta, defendendo o desempenho da escola atual e questionando os resultados das escolas cívico-militares já implantadas em Minas Gerais: “Esse debate não pode ser feito à luz da política interna. Tem que ser feito com base na realidade da nossa escola. O Ditão figura entre as melhores escolas públicas de Minas Gerais. Agora, as novas escolas cívico-militares não aparecem nesse ranking.”

A gravação mostra o professor sendo aplaudido por parte dos estudantes, mas também registra a reação crítica de alguns pais que estavam no local.

VEREADORES TAMBÉM SE MANIFESTAM
Os vereadores Antônio César Picirillo e Ronei Vilaça se manifestaram por meio das redes sociais afirmando que receberam denúncias de pais, relatando que seus filhos teriam sido expostos a informações distorcidas ou negativas sobre o programa antes das votações. Os parlamentares pediram esclarecimentos e se disseram preocupados com a possibilidade de influência indevida sobre os votantes.

O QUE É O PROGRAMA
O Programa de Escolas Cívico-Militares é uma iniciativa do Governo de Minas que propõe uma nova gestão escolar compartilhada entre civis e militares da reserva. O modelo prevê que militares atuem principalmente no apoio à gestão administrativa e disciplinar, sem interferência no conteúdo pedagógico. A adesão ao programa só é efetivada após aprovação da comunidade escolar, por meio de assembleia deliberativa. Conforme o material oficial da Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais, o objetivo é fortalecer a cultura de paz e valores como respeito, empatia e cooperação nas unidades escolares.

SECRETARIA ENVIA MATÉRIA INSTITUCIONAL E NÃO COMENTA DENÚNCIAS SOBRE CONDUÇÃO DAS ASSEMBLEIAS
Procurada pela reportagem do Jornal do Sudoeste para comentar os desdobramentos da votação sobre a adesão ao Programa de Escolas Cívico-Militares em São Sebastião do Paraíso, especialmente diante de denúncias de suposta tentativa de manipulação de alunos com informações distorcidas dentro do ambiente escolar, a Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais (SEE/MG) se limitou a encaminhar uma matéria institucional publicada em seu site.

O conteúdo divulgado pela pasta exalta os objetivos do programa, ressalta o modelo como uma “proposta democrática” e apresenta dados de desempenho de algumas escolas da rede estadual que já aderiram ao sistema. No entanto, a Secretaria não respondeu diretamente às perguntas enviadas pela reportagem, que tratavam sobre: existência ou não de campanhas oficiais de orientação às comunidades escolares antes das assembleias; acompanhamento da condução dos processos em cada escola, e apuração de denúncias sobre desinformação ou discursos parciais dentro das instituições de ensino.

A matéria enviada pela SEE/MG informa que 728 escolas em Minas Gerais foram pré-selecionadas para essa nova etapa de expansão do programa, e que a adesão dependerá da manifestação da comunidade escolar, com a deliberação registrada em ata e análise técnica posterior. A Secretaria destaca que a atuação de militares é voltada à mediação de conflitos e promoção de valores como respeito e disciplina, sem interferência na proposta pedagógica.